Dungeons & Dragons cresce entre o público mainstream com empurrão de Stranger Things

Dungeons & Dragons ganhou set de Stranger Things após sucesso na série (Foto: Divulgação)
Dungeons & Dragons ganhou set de Stranger Things após sucesso na série (Foto: Divulgação)

O jogo de RPG de fantasia medieval Dungeons & Dragons (D&D) foi desenvolvido pelos estadunidenses Gary Gygax e Dave Arneson e foi lançado em 1974 e se tornou um dos bastiões da cultura nerd e geek com a passagem dos anos. Hoje goza de popularidade mainstream graças à produções em diversos formatos de mídia e representações como o popular seriado Stranger Things (2016 -) da Netflix que estreia sua quarta temporada nesta sexta (27).

Como jogador no passado presencio este momento com certa satisfação. D&D utiliza fichas e permite um jogador atuar como o Dungeon Master, o condutor da narrativa e mantenedor das regras, enquanto os outros interpretam um grupo de aventureiros representando arquétipos e até mesmo a mescla deles como guerreiros medievais, magos e sacerdotes.

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Em minha adolescência eu jogava como paladino – uma espécie de guerreiro religioso – ou samurai em sessões aos finais de semana; há relatos de grupos que jogam por 40 anos. Também passei horas na principal adaptação de D&D para os games, Baldur’s Gate II: Shadows of Amn (2000), que figura em listas de melhores games da história.

Em março, D&D recebeu uma forte impulsionada assim que a empresa estadunidense Wizards of the Coast, detentora de sua marca, assumiu a publicação do jogo em território brasileiro, antes era publicado por meio de parceiros.

“Com a mudança, os livros básicos passarão a ser relançados no mercado local, bem como alguns suplementos e outras novidades”, relata Reynaldo Barbella Neto, Head LATAM (América Latina) da Wizards of the Coast em entrevista ao Yahoo Esportes.

A empresa definiu que para o segundo semestre serão lançados os principais livros de regras como Player’s Handbook (Livro do Jogador), Dungeon Master’s Guide (Livro do Mestre) e Monster Manual (Livro dos Monstros) da quinta e atual edição. Também chegarão ao mercado suplementos até então inéditos em português brasileiro voltados para iniciantes dentre eles o Essentials Kit e um Starter Kit renovado.

“A Wizards of the Coast está extremamente orgulhosa pelo fato de que Dungeons & Dragons tem mais de 50 milhões de fãs em todo o mundo,” afirma Barbella Neto. Nos últimos anos a cultura geek e nerd saiu dos porões do preconceito e vem ganhando maior aceitação seja por produtos como Stranger Things, pelo crescimento da indústria dos games, pelos avanços na área de tecnologia, as pelas produções cinematográficas como as da Disney e Warner dentre outros meios.

Em entrevista ao Yahoo Esportes, o sociólogo Cláudio Coelho define que tal cultura vem obtendo traços mais positivos perante a opinião pública: “nos últimos anos, houve uma mudança significativa na visão sobre esta cultura, que deixou de ser vista de forma negativa: a expressão ‘nerd’, por exemplo, possuía uma conotação fortemente pejorativa. Atualmente, esta cultura passou a ser vista de forma positiva. Entendo que isto se deve ao papel que a tecnologia possui na nossa vida cotidiana, em especial as tecnologias comunicacionais, e à existência de pessoas bilionárias que tem um perfil vinculado à cultura nerd e geek”.

Quando me recordo dos meus anos jogando RPG, me sentia praticando algo quase clandestino que não podia ser mencionado na escola ou na academia, uma vez que poderia ser alvo de provocações e até mesmo humilhações. Por outro lado, e mais importante, me ajudaram a desenvolver minha criatividade e habilidades sociais.

Coelho também vê que o fato de Dungeons & Dragons ter sido adaptado para várias mídias, dentre elas a animação Caverna do Dragão que fez muito sucesso nos programas infantis brasileiros, é fundamental para o sucesso comercial do produto, logo que atinge uma ampla gama de público.

“O fato de o jogo existir há várias décadas também é importante, agregando valor como um produto que possui um componente de nostalgia, o que é coerente com o tema do jogo, de conteúdo mitológico”, ressalta Coelho. E Dungeons & Dragons tem se fortalecido também com sua simbiose com Hollywood.

Uma mitológica aventura até para celebridades

Os garotos da ficcional cidade Hawkings em Stranger Things jogam D&D e os vilões do seriado foram batizados por eles baseados nas criaturas do jogo da Wizards of the Coast como Demogorgon, Mind-Flayer e Vecna, este que será o mais terrível e apresentado este ano.

O autor e jornalista de cinema Richard Newby dos EUA denota em entrevista ao Yahoo que a audiência de forma geral conheceu mais sobre D&D por conta do seriado, obtendo noções básicas.

“Também creio que aqueles que curtem Stranger Things estão mais inclinados a experimentar o jogo, mesmo que seja para ficarem mais próximos do mundo deste seriado que amam”, acredita Newby, o qual também ingressou no jogo no período que a atração foi lançada e apesar de não ter iniciado necessariamente por conta do seriado recorda que em alguns momentos pensava nele enquanto enfrentava os desafios com seus parentes e amigos.

Coelho observa que a relação entre D&D e Stranger Things “é um exemplo de sinergia, de uma relação de complementariedade entre marcas e produtos da indústria cultural. A presença do jogo na série atrai o público contemporâneo para o jogo, da mesma forma que também agrega valor para a série, já que é um produto que por existir há bastante tempo possui o apelo da nostalgia, que também é uma característica da série.”

A presença no audiovisual de D&D precede Stranger Things e não se limita apenas à Caverna do Dragão, já que foi apresentado no clássico filme E.T.: O Extraterreste (1982) de Steven Spielberg e nos seriados The Big Bang Theory (2007 – 2019) e The Goldbergs (2013 -).

O jogo terá uma adaptação cinematográfica em 2023 estrelada por Chris Pine (Star Trek), Regé-Jean Page (Bridgerton), Michelle Rodriguez (Velozes e Furiosos) entre outros. Para Newby é uma oportunidade para o estúdio Paramount lançar uma nova franquia e construir com base nela um universo cinematográfico que pode seguir para spin-offs e seriados de TV.

Considerando que os diretores serão Jonathan Goldstein e John Francis Daley (co-diretores de A Noite do Jogo), o crítico aguarda uma fantasia de teor mais leve que “capture a diversão de se jogar com amigos. A cobrança será alta, mas penso que terá mais os tons de Willow e The Witcher do que algo como Game of Thrones ou Conan, o Bárbaro”.

Outro traço da recente ascensão de D&D é ter figuras públicas assumindo que são aficionados como o guitarrista Tom Morello da banda Rage Against the Machine que tem como colegas o pro-wrestler Paul Wight e D.B. Weiss, um dos produtores da série Game of Thrones (2011 – 2019), em rodadas na qual o Dungeon Master é o ator Joe Manganiello (Liga da Justiça de Zack Snyder); enquanto a atriz Deborah Ann Woll do seriado Demolidor (2015 – 2018) da Marvel aparece em transmissões oficiais de D&D.

“É o desejo de todo produto, ainda mais um produto da indústria cultural, ter a sua imagem associada a celebridades, já que vivemos em uma sociedade do espetáculo, onde as pessoas se espelham em celebridades como exemplos de comportamentos a serem seguidos. É claro que, além dos aspectos inegavelmente positivos, existe algum risco, caso alguma celebridade venha a sofrer algum questionamento sobre o seu comportamento, já que isto pode afetar a imagem do produto”, avalia Coelho sobre a presença de celebridades no universo de D&D.

E jogos de tabuleiro e RPGs tem experimentado um crescimento com a pandemia de Covid-19 que assola o mundo, inclusive há grupos que se reúnem para jogar online, dentre eles jogadores de D&D. O que leva um tom de normalidade para vida de seus jogadores.

“Como vivemos em um mundo cada vez mais complexo, e com a presente constante de crises, que vão desde crises econômicas e políticas, às crises sanitárias (como a atual pandemia) e ambientais, há um sentimento generalizado de insegurança. O regresso ao passado, idealizado de forma nostálgica, possui grande apelo, pois traz uma sensação de segurança, dizendo respeito a algo que já foi vivido, que já é conhecido”, conclui Coelho.

Com o fortalecimento da Wizards of the Coast no Brasil – país no qual opera desde 2015 –, o apelo de celebridades, o lançamento da série Stranger Things e o apelo de outras produções audiovisuais, Dungeons & Dragons goza de terreno fértil neste país tropical.

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