Drones e softwares: análise de desempenho no futebol vive crescimento no Brasil

Centro de análise de desempenho do Vitória (Foto: Bruno Sarraf / EC Vitória)
Centro de análise de desempenho do Vitória (Foto: Bruno Sarraf / EC Vitória)

Os dados e a tecnologia nunca estiveram tão em alta no futebol. No Brasil esse cenário não é diferente, e os responsáveis por utilizarem essas ferramentas, os analistas de desempenho, ganharam espaços nos clubes do Campeonato Brasileiro.

Bem diferente do início da prática no século passado, quando o papel e caneta eram a principal ferramenta para análise, hoje os analistas utilizam câmeras, drones, softwares e aplicativos, tudo para tornar a tomada de decisão dentro dos clubes cada vez mais precisa.

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Eles são os responsáveis por analisar sua equipe e os adversários coletivamente e individualmente. Tudo isso de forma quantitativa, por meio dos números, e qualitativa, através da observação do profissional.

O Yahoo Esportes entrevistou analistas de desempenho e especialistas do futebol para comentarem os fatores que auxiliaram no crescimento da prática nos clubes brasileiros.

Há menos de duas décadas no Brasil, a análise vem ganhando espaço

Os especialistas ouvidos pelo Yahoo apontam que a virada de chave para análise no Brasil partiu de 2010 para cá. Enquanto no futebol europeu a prática já era difundida, os clubes brasileiros tiveram de se estruturar e correr atrás do prejuízo.

“Alguns clubes optam em investir em outras coisas ao invés da análise de desempenho. Mas hoje isso mudou bastante. Clubes das Séries A, B, C e até mesmo D do Campeonato Brasileiro têm uma estrutura voltada para isso (análise)”, explicou Fábio Matias, treinador sub-23 do Red Bull Bragantino e professor de cursos voltados à análise.

Um exemplo desse investimento em clubes de divisões inferiores é o Camboriú Futebol Clube. O time catarinense irá disputar pela primeira vez a quarta divisão do Campeonato Brasileiro em 2023 e acabou de fundar seu Centro de Inteligência e Análise.

“Estamos em processo de contratação de profissionais para o novo departamento de análise, em que a ideia é ter de 3 a 4 profissionais. Buscamos estabelecer processos e metodologia em relação à prospecção e captação de jogadores, bem como observação do adversário e da própria equipe, para poder potencializar aquilo que estamos fazendo de bom durante os treinamentos” explicou Tiago Valle, ex-analista do Coritiba e atual Coordenador do Centro de Inteligência do Camboriú.

A tecnologia como aliada na análise

Assim como em todos os setores da sociedade, o futebol foi impactado pela tecnologia. Os softwares facilitaram o trabalho do analista, nos quais é possível realizar uma boa análise apenas com um computador e um programa.

“Hoje há plataformas que reproduzem toda análise, o analista só precisa fazer os recortes. Não precisa mais gastar 6 ou 7 horas na frente do computador, ela (a plataforma) já te dá isso em tempo real”, disse Fábio Matias.

O analista de desempenho do Vila Nova, Caio Gondo, é o responsável pelas análises individuais dos atletas e das bolas paradas adversárias. Ele conta como as plataformas auxiliam nesses processos.

”Para os vídeos individuais, o WyScout (software de análise) separa todos os lances de cada jogador, então é só buscar o padrão (no jogo) e organizar o material. Se não tivesse esse programa, teria que ver 3 jogos de um jogador, separar todos os lances, identificar o padrão e organizar o material”, relatou Gondo.

Variedade nos cursos da área

Outro fator que evidencia o crescimento da análise de desempenho no Brasil é a gama de cursos oferecidos por escolas particulares, como o Futebol Interativo, a Universidade do Futebol, a The360 e até a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entrou nessa área. A entidade máxima do futebol no Brasil oferece por R$ 2 mil uma capacitação com carga horária de 40 horas.

“Vejo com bons olhos esses cursos com aulas práticas e teóricas que a CBF tem feito, pois acaba nivelando os profissionais no mercado brasileiro ou os que buscam uma oportunidade”, analisou Gondo.

Uma das escolas particulares de maior sucesso nessa área é a The360. Fundada em 2013 para suprir essa demanda por cursos na área de futebol, eles já promoveram 33 capacitações de análise nas modalidades online e presencial, onde passaram quase 4 mil alunos.

“Na época não existiam tantos cursos de futebol assim. Tiveram alguns movimentos para profissionalização de carreiras dentro do futebol, mas era um pouco escasso. Os fundadores observaram que era uma coisa que faltava no mercado. Daí surgiu a ideia de fazer o curso. Desde lá a gente vê uma procura muito grande de pessoas querendo ingressar na área. Eles sempre sonharam em trabalhar com o futebol, muita gente apaixonada, mas viam como um mundo muito distante”, disse Lucas Benevides, aluno do primeiro curso da The360 e agora Sócio-Diretor na escola.

Auxílio da criação de conteúdo nesse processo de crescimento

A criação de conteúdo para internet é uma forma das pessoas se inserirem no meio do futebol. Hoje não é raro encontrar perfis nas redes sociais ou blogs totalmente dedicados à análise.

O analista do Vila Nova é exemplo disso. Antes de chegar ao clube goiano em 2018, Caio Gondo passou pelo centro de formação Atleta Cidadão, em São José dos Campos. Ele só conseguiu sua oportunidade por conta de análises feitas na internet.

“Antes de entrar no clube na minha cidade, eu já estava escrevendo sobre análise na internet. E foi por causa desses textos que publiquei que o treinador do centro de formação me chamou para ser o preparador físico. Ele mesmo me disse que esses textos influenciaram a decisão para me escolher”, revelou Gondo.

Os blogs e redes sociais também servem para fomentar a discussão e até "desmistificar" alguns lances, segundo Lucas Benevides. “Por exemplo, todo mundo critica um jogador em um lance, mas alguém (na internet) vai analisar mais a fundo e vai ver que o erro foi de um outro jogador. Isso gera conversa e interesse do público”, avaliou.

Esse tipo de análise de lances individuais são as que mais viralizam nas redes de João Marcos Vojnovic. O jovem de 21 anos iniciou na análise de desempenho por meio dos estudos em livros e cursos. Agora, conta com mais de 100 mil seguidores somados no Instagram e Twitter e já trabalha como consultor tático de atletas.

O capixaba credita o sucesso das suas análises nas redes sociais à linguagem empregada nos textos e vídeos, algo fundamental nos dias de hoje.

“Eu não desrespeito esse brasileiro que não quer se aprofundar tanto. Aquele brasileiro que, vamos dizer, só quer sentar no bar e assistir ao jogo tranquilo, xingando os jogadores e quando o jogador marca o gol é o ‘melhor do mundo’. Eu também levo análise para esse público, com palavras mais fáceis e acessíveis, porque acho que faz total diferença”, explicou Jow, como é conhecido em suas redes.

O que ainda pode melhorar?

Um levantamento feito em 2017 pelo acadêmico do futebol Ángel Gómez Ruano apontou que o Brasil ocupa o 10º lugar em número de pesquisas científicas sobre análise de desempenho.

No país do futebol, a Universidade Federal de Viçosa é uma das poucas faculdades que se destacam na área de estudos. A UFV conta com um Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol, além de pós-graduação, doutorado e mestrado no esporte.

“Só que pouca gente conhece a UFV e ela é sozinha (nessa área de capacitação). E às vezes sozinho acaba tendo dificuldade para desenvolver melhores trabalhos. A gente precisa de mais players”, ressaltou Lucas Benevides.

Dentro da prática do analista, Fábio Matias salienta a necessidade de interpretar as estatísticas para que o trabalho tenha sucesso. “Não adianta ter muitos dados e não saber utilizá-los. Então a interpretação do analista, com os auxiliares e o treinador é muito importante para o sucesso em relação a análise”, concluiu.