Curling brasileiro vai ao Pan por vaga nos Mundiais de 2023

Marcelo Mello e Isis Oliveira na disputa do Brasileiro de Curling em São Paulo (Foto: CBDG)
Marcelo Mello e Isis Oliveira na disputa do Brasileiro de Curling em São Paulo (Foto: CBDG)

Pela primeira vez, a Confederação Brasileira de Desporto no Gelo (CBDG) sediou edição do campeonato brasileiro de curling em solo nacional. O palco que recebeu os atletas em agosto foi a Arena Ice, primeira pista da América do Sul e maior da América Latina, localizada no Morumbi, na zona sul da Capital paulista. A modalidade, conhecida pelas curiosas vassouras que varrem o gelo, as pedras (similares às chaleiras) que deslizam e tem muitas estratégias, é regularmente parte das Olimpíadas de Inverno, e trata-se de esporte coletivo dos mais antigos do mundo.

No torneio brazuca, o destaque entre outros competidores ficou para os campeões nas duplas mistas, a paulistana Isis Oliveira e o gaúcho Marcelo Mello. Os dois serão os capitães (skip) das seleções feminina e masculina, respectivamente, na disputa de outro objetivo muito importante nesta trajetória de ascensão: o Pan Continental, entre 31 de outubro e 6 de novembro, em Calgary, no Canadá, país onde o esporte é paixão nacional. Ele surgiu na Escócia no século 16, tendo sido jogado inicialmente em lagos e lagoas geladas. A conquista de espaço por aqui e elevado nível de atletas além da divulgação na mídia só faz a modalidade de gelo expandir num país tropical e que teve seu primeiro campeonato, em 2015, e demais competições nacionais transcorridas no Canadá.

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Sobre o Pan, os cinco primeiros colocados ganharão direito à vaga nos mundiais masculino e feminino em 2023. As mulheres farão as disputas em Sandviken, na Suécia, e os homens participam do torneio também em terra canadense, em Otawa. Além do Brasil, estarão no feminino: Canadá, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, China, Hong Kong e Cazaquistão e Austrália. E entre os homens: Brasil, Canadá, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, China. Taiwan e Nova Zelândia. O Canadá tem o maior numero de títulos mundiais entre os homens (36) e mulheres (17). No entanto, a Suécia tem se notabilizado após muitos anos de espera: levou a medalha de ouro no masculino nos Jogos de Pequim batendo na decisão a Grã-Bretanha. Já as britânicas voltaram ao pódio após duas décadas com o ouro feminino nos jogos chineses.

Mesmo com forte retrospecto dos adversários é momento de expectativas. A capitã Isis Oliveira vive em Vancouver, no Canadá. Formada em Comunicação e Publicidade, trabalha com cinema no pais da América do Norte. Para ela, o curling é mais que um esporte, trata-se de um movimento social e cultural. Durante os jogos há muito incentivo a todos. Ela é treinada pelo coach técnico, o canadense Darin Fenton, campeão mundial em 2000. Segundo a competidora será experiência fantástica disputar o Pan: “Não sei se conseguiremos chegar à medalha. Mas vamos querendo ganhar e classificar”. Ela ressalta a esperança, fazer o melhor, pensar positivo e afirma não ser nada fácil. Existem várias potências: Suíça, Coreia, Suécia, EUA, Canadá, Escócia e Noruega. Além de competir, tem certificação de coach. Está na seleção desde 2015. Lidera o grupo que terá no Pan ainda Sarah Lipi (Third), Kenya Franz (Second) e Marcelia Mello (end), além dos técnicos Christine Mathews e Darin Fenton.

Na opinião do presidente da Confederação Brasileira de Desporto no gelo (CBDG), Matheus Figueiredo, a presença brasileira no Pan Continental traz momento especial para o país com a possibilidade do crescimento internacional, visibilidade já que o curling poderá ter transmissão através de canais digitais, um divisor de águas. “Esperamos das boas chances, chegar a bons resultados e vitórias”, afirma o dirigente gaúcho especialista em gestão que tem sete modalidades sob sua administração (bobsled, curling, hóquei, luge, patinação artística, de velocidade e skeleton).

E se depender de pessoa experiente na modalidade para o Brasil: a história coloca neste patamar o gaúcho Marcelo Mello, de 51 anos. Vivendo no Canadá, formou a primeira equipe brasileira em 2007 junto com os amigos Celso Kossaka, Luís Silva e César Santos. Em 2014, tendo como parceira Aline Lima, disputou o mundial na Escócia e obteve a primeira vitória internacional nas duplas mistas diante do Cazaquistão. Foi o primeiro campeão nacional em duplas mistas, em 2015-2016. É recordista brasileiro em participações de torneios pela WCF (71 jogos) - dados atualizados até agosto deste ano.

Melo comandará o grupo masculino no Pan que terá Ricardo Losso (3rd), Sérgio Mitsuo Vilela (2nd), Filipe Nunes (lead) e Marcio Rodrigues (alternate), com Amélie Blais (coach) e Claudio Alves (team official) fazendo parte da comissão técnica.

Segundo Marcelo, guardadas devidas proporções será o campeonato de maior relevância que o curling brasileiro participará. “O caminho será difícil, mas o objetivo é a vaga mundial. Se não der, ao menos queremos nos manter na primeira divisão já que existem duas divisões neste novo modelo de disputa assim como no campeonato europeu”, afirma o atleta que foi também comentarista dos canais Sportv e Rede Globo entre 2010 a 2018.

Além desta bagagem no esporte, Mello, que já foi 29º no ranking mundial de duplas mistas (2016), é formado em administração de empresas pela UFRGS, Pós-Graduado em Marketing pela FGV e tem mestrado pela Universidade de Scherbrooke, no Canadá.

Curiosidades

O curling é dividido em três categorias: opor equipes (quatro homens e quatro mulheres); dupla mista (um homem e uma mulher) e mista por equipes (com dois homens e duas mulheres).

Apesar de lembrar a bocha, a modalidade que a torna conhecida por xadrez no gelo, tem maior nível de complexidade e consiste no lançamento de pedras em relação ao alvo (casa), e no fim quem tiver mais pontos, vence a partida. As pistas têm cinco metros de largura e 45 m de comprimento com diferentes especificidades em relação às arenas de hóquei e patinação.

O nome do esporte origina-se do verbo em inglês to curl que significa curvar. É pelo fato de as pedras serem levemente giradas no ato de lançamento descrevendo uma parábola em sua trajetória. A pedra do curling é o granito de Ailsa Craig (ilha da Escócia), um dos mais rígidos e puros encontrados no mundo, que mantem sua forma apesar das condições úmidas da superfície no gelo. Elas são padronizadas com 20 kg de peso, largura de 278 mm e altura de 136 milímetros, custando cerca de 480 euros.

A seguir, Marcelo e Isis falam mais da modalidade e suas vivências

Yahoo Esportes – Como é a disputa em duplas mistas?

Isis Oliveira – Eu particularmente gosto muito do time de quatro jogadores. Defendo o Onda Brasil Curling Team. Porém, o jogo de dupla têm algumas características diferentes que fazem-no parecer mais dinâmico. E isto atrai bastante a curiosidade da galera. É um momento de bastante decisão e apenas duas pessoas para lançar, varrer e decidir estratégia. Foi bem legal. Foi um prazer atuar ao lado do Marcelo um pioneiro e uma honra. Só chegamos à vitória no brasileiro porque ambos fizeram acontecer.

Yahoo Esportes – Como você vê o desconhecimento das pessoas ao comentarem apenas da chaleira e das vassouras no curling?

Isis Oliveira – Não há preconceito nenhum. É um esporte diferente que atrai a curiosidade por suas características únicas como deslizar numa posição estranha, jogar pedras (que parecem chaleiras) numa pista de gelo e o mais engraçado de tudo é varrer o gelo. [Ela iniciou no curling após ver Olimpíada de inverno pela TV no Canadá]

Yahoo Esportes – Quais são as melhores equipes do mundo?

Isis Oliveira – Moro no Canadá há muitos anos que é uma potência da modalidade. Hoje em dia a Suíça, Suécia, Coreia, Canadá, Escócia, EUA são grande forças. A Itália também cresceu e ganhou medalha de ouro em olimpíada na categoria dupla. O esporte tem crescido muito ao redor do mundo com a criação de federações nacionais que se uniram à WCF.

Yahoo Esportes – Você atua como skip (capitão), pode detalhar a função?

Marcelo Mello – Sim, sou skip na equipe masculino há muitos anos (curling tradicional de quatro jogadores). Minha função é ser responsável pela estratégia e chamada de jogadores. No Brasileiro tive a felicidade de formar dupla com Isis Oliveira. Ela fez parte de minhas incursões em campeonatos mundiais desde 2014, tendo disputado três edições. Tinha abandonado esta categoria, mas fui para prestigiar o campeonato nacional. Já tinha atuado com Isis no curling misto de quatro jogadores em mundial na Suíça.

Yahoo Esportes – Seu histórico em esportes enumera experiências, não é?

Marcelo Mello – Sim. Sempre fui fã e praticante de futebol. Joguei nas categorias de base do Grêmio dos 13 aos 14 anos, embora meu time de coração fosse o Internacional. Desisti e segui com estudos, mas jogava basquete, vôlei. O Esporte sempre fez parte de minha vida. Desde os cinco seis anos pratiquei o ciclismo.