'Conseguimos com sua passagem que o mundo todo veja as nossas mazelas', diz Beto Marubo em carta para Bruno Pereira

Amigo inseparável de Bruno Pereira, Beto Marubo se despediu em tom de homenagem nesta terça-feira, por meio de carta enviada ao GLOBO, do companheiro de tantas missões e expedições dentro e fora da Funai. No dia em que completa um mês do assassinato brutal de Bruno e do jornalista inglês Dom Phillips, o coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) falou sobre a saudade do parceiro e da promessa de continuar a sua luta pelos povos da floresta.

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Confira a íntegra

“Grandão, O acampamento está pronto, feito com palhas de cocão. Ouço o barulho das folhas das grandes árvores vindo do leste. Os macacos zogue-zogue anunciam o amanhecer. A terra enlameada do acampamento logo estará vazia, pois as equipes da expedição seguirão viagem rio acima. Os igarapés nas margens dos rios Curuçá e Itaquaí estão secos, onde um bando de queixadas passou ontem. A anta assobia solitária pelo alto rio Jaquirana.

A jacutinga canta triste pelas cabeceiras do Jutaí e lá pelas bandas do rio Ituí. Os isolados estão tocando suas flautas, feitas com ossos de macaco preto. Os Korubo estão querendo retornar às suas terras no rio Coari. Os Matis voltaram às pazes com os Korubo, e agora planejam tomar cipó tatxik nas cabeceiras do rio Branco. Ah, Grandão! Meus parentes Marubo estão nos convidando para tomar rapé nas cabeceiras do rio Kumãya. Os Kamamary querem tomar ayahuasca (rami) nas aldeias do rio Itaquaí.

Os Mayoruna querem planejar andanças pelos seus territórios ancestrais, no alto rio Jaquirana. Infelizmente, com a sua passagem, nós conseguimos! Conseguimos que todos vejam as nossas mazelas. Expomos quão esquecidos nos encontramos, nós, povos indígenas do Vale do Javari. Um monte de pessoas no Brasil e ao redor do mundo inteiro estão falando sobre você, Grandão, e sobre o Dom.

Agora o mundo inteiro sabe que, no Vale do Javari, reina a omissão, a inação e a política negacionista, a ausência total do Estado em nossa terra, mesmo após um mês do seu assassinato. Sabem até que a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) perseguia e continua perseguindo você. O atual presidente desse país tentou de todas as formas desconstruir a sua história, mas ela se manterá por gerações, pois nós, povos do Vale do Javari, sabemos que você morreu por nós, pela nossa terra. Nunca vamos nos esquecer disso. A sua luta continuará através de nós e de nossas gerações. Já arrumei a minha mochila. Já até calcei as minhas botas – aquelas que você tanto desdenhava, mas elas são boas, são impermeáveis.

Afiei o meu facão – aquele que você também achava pesado demais para uma expedição. Já tomamos o café amargo. Já aconteceu uma primeira rodada de rapé. Todos estão prontos para a partida. Temos de seguir viagem, Grandão. Daqui a pouco o sol ficará quente demais. Há muitos troncos de árvores espalhados em nosso trajeto. Teremos de seguir, tristes, sem a sua companhia. Fique bem, prossiga a sua expedição pelas matas da minha terra. Vamos nos falando pelos sonhos da ayahuasca.

Oshatso, Grandão!

Beto Marubo”.

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