Com novo contrato de TV e Copa do Mundo, a MLS pode virar a maior liga da América?

Seatte tem se firmado como uma das principais cidades da MLS (Foto: Craig Mitchelldyer/ISI Photos/Getty Images)
Seatte tem se firmado como uma das principais cidades da MLS (Foto: Craig Mitchelldyer/ISI Photos/Getty Images)

Carlos Vinicius Amorim (@ocarlosvini)

O futebol nos Estados Unidos viveu uma era semi-amadora em plena década de 80 e começo de 90. Com a extinção da NASL (North American Soccer League) em 1984, jogadores que atuavam no país norte-americano viveram na “escuridão” sem disputar o esporte profissionalmente por 12 anos. A mudança de chave veio em 1994, quando os estadunidenses sediaram a Copa do Mundo e plantaram uma semente para florescer uma cultura futebolística no território.

Dois anos após a realização da Copa, que culminou no tetra brasileiro, foi fundada a Major League Soccer. Mesmo com ideias questionáveis no início, como a prática de “shootout” ao invés de empate ao final dos jogos, a liga aos poucos foi ganhando seu terreno. Após apostar nos experientes jogadores europeus para ter repercussão, a MLS agora foca na capacitação das categorias de base e tornou-se caminho de jovens promessas das Américas do Sul e Central.

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Nomes como Gabriel Pereira (ex-Corinthians), Thiago Almada (ex-Vélez Sarsfield) e Facundo Torres (ex-Penãrol) são as mais recentes contratações dos clubes por cifras milionárias. Mas anteriormente Miguel Almirón e Ezequiel Barco, em 2017 e 2018, respectivamente, pavimentaram esse caminho aos sul-americanos.

O Brasileirão, além de perder jovens jogadores para a MLS, vê a liga norte-americana ser superior em alguns aspectos. Um estudo do CIES Football Observatory apontou que entre 2013 e 2018, a elite do soccer teve mais público, em média, do que a Série A do futebol brasileiro (21.358 contra 17.402). Outro indicador de força veio em um levantamento da Sports Value, empresa especializada em marketing esportivo, que apontou crescimento de 175% em receitas operacionais da Major League Soccer, maior número entre campeonatos emergentes.

Além de tudo isso, dois fatores podem impulsionar ainda mais o cenário favorável da MLS: a Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, e o novo acordo bilionário dos direitos televisivos. Esses acontecimentos podem tornar a Major League Soccer a maior liga da América? O Yahoo Esportes ouviu especialistas para comentarem sobre a evolução do campeonato e projetarem o futuro do soccer.

Caminho de jovens da Américas

Dos 800 jogadores que estão espalhados nos 28 clubes da MLS, 200 deles são de origem sul-americana ou da América Central, de acordo com o site especializado Transfermarkt. Atrás apenas de atletas dos Estados Unidos e Canadá, a Argentina é o país com mais representantes: 36. O Brasil e Colômbia vem logo atrás com 34 e 23 jogadores, respectivamente.

Nos Estados Unidos há três anos como Diretor Técnico do FC Dallas, o brasileiro André Zanotta comentou sobre esse “trampolim” que a MLS pode ser na carreira de jogadores. “Hoje a MLS é tida por jogadores e agentes como um importante passo para jovens, principalmente saindo da América do Sul, para vir para cá, desenvolver e, de repente, ter uma sequência no futebol europeu ou mesmo continuar aqui”, afirmou.

Na mesma linha de Zanotta, o comentarista dos canais Disney, Gustavo Hofman, aponta a mudança das contratações na liga. “A MLS hoje é uma liga absolutamente consolidada. No passado houve sim uma aposta forte em jogadores veteranos, com a carreira já consolidada. Esse perfil mudou e hoje a MLS é uma liga onde os clubes investem muito em jovens e vão buscar muitos jovens talentos na América do Sul e Central”, analisou.

Foco na base

O investimento em jovens não se limita apenas aos outros países. As franquias apostaram em suas academias e colheram os frutos com vendas ao futebol europeu. A liga acredita nisso e em 2020 criou a MLS Next, competição para desenvolvimento de atletas sub-13, sub-14, sub-15, sub-16, sub-17 e sub-19.

“Na formação de atletas a MLS vem sendo bem sucedida com o número excessivo de jogadores norte-americanos fazendo a transição para Europa. Tem o FC Dallas com uma base muito forte, o Philadelphia Union, que recentemente vendeu o McKenzie e o Brenden Aaronson, e o New York Red Bulls que também forma bastante jogadores, como o Tyler Adams”, comentou o jornalista Gustavo Guimarães, que cobre a liga pelo portal brasileiro Território MLS.

Essa qualidade na formação colhe frutos na seleção norte-americana. No ano passado, os estadunidenses conquistaram a Copa Ouro após 15 anos de jejum e a Nations League da Concacaf pela primeira vez, ambas em cima do México. A média de idade dos 11 titulares nas duas decisões não passou dos 25 anos.

Direitos televisivos

O grande “case de sucesso” das principais ligas de futebol é a Premier League. Um dos principais motivos é o seu contrato televisivo, responsável por injetar muito dinheiro nos clubes. São 5 bilhões de libras no acordo atual que se encerra em 2025. A Major League Soccer, obviamente, não está no nível do Campeonato Inglês com a renovação de suas cotas, mas a quantia especulada na mídia estadunidense alcança cifras que chamam atenção.

A liga norte-americana acabou de firmar um novo acordo exclusivo com a Apple TV válido por 10 anos a partir de 2023. Apesar de não divulgar os números oficiais, o site The Athletic apontou um contrato de 2,5 bilhões de dólares pela exibição na plataforma de streaming, sendo 250 milhões anuais.

Comparado ao contrato anterior, válido entre 2015 e 2022, as cifras do novo acordo tiveram um acréscimo de 160 milhões de dólares. Isso quer dizer muito mais dinheiro para ser dividido entre as franquias da liga. Com a adição do St. Louis City SC em 2023, serão US$ 8,6 milhões para cada uma delas anualmente. Vale ressaltar que a MLS tem a expectativa de adicionar um 30º clube com sede em Las Vegas, o que pode diminuir a quantia para cada um.

“Quanto mais dinheiro entrar na liga, mais competitivos estarão essas franquias no mercado internacional em busca de jogadores. Já estão fazendo grandes contratações aqui no Brasil, na Argentina e agora na Europa, como a chegada de Insigne (no Toronto FC)”, disse Gustavo Hofman.

Copa do Mundo de 2026

Estados Unidos serão a casa da maioria das partidas da Copa do Mundo de 2026 (Foto: Doug Zimmerman /ISI Photos/Getty Images)
Estados Unidos serão a casa da maioria das partidas da Copa do Mundo de 2026 (Foto: Doug Zimmerman /ISI Photos/Getty Images)

A Copa do Mundo de 2026 será a primeira com a nova proposta da FIFA de 48 seleções. Apesar de ser uma sede “tripla”, os Estados Unidos receberam 60 jogos. México e Canadá ficaram com apenas 10 partidas cada.

O Mundial de 1994 foi o responsável pela disseminação do futebol em solo estadunidense. Para 2026 o impacto será menor, mas ainda sim muito importante. ”Vai colaborar, porque vai levar o futebol internacional das grandes seleções, os melhores jogadores do mundo para os estádios norte-americanos. Vai gerar uma cobertura maior de toda imprensa. Então, vai colaborar. Não será tão impactante como 1994 porque foi um marco na história do soccer”, comentou Hofman.

O legado da Copa em infraestrutura de estádios e centros de treinamento, investimentos e crescimento do esporte é destacado por Zanotta. “Uma série de pontos são levados em conta pela própria FIFA na hora de escolha da sede que fazem com que o esporte como todo tenha um crescimento naquele local. Nos Estados Unidos não vai ser diferente”, salientou.

A maior liga do continente?

Em questão de infraestrutura, a MLS talvez já esteja no topo da América. Muitas das franquias herdaram estádios de outras modalidades, como o campeão continental Seattle Sounders, que compartilha o Lumen Field com os Seahawks da NFL. Mas também há equipes que inauguraram novas arenas específicas para o soccer. A maior delas, o moderno GEODIS Park, acabou de ser construído no estado do Tennessee para abrigar jogos do Nashville SC.

Nas questões técnicas e táticas, a liga norte-americana realmente está atrás das concorrentes no continente. Nem mesmo a Copa do Mundo de 2026 e o novo contrato televisivo convencem Gustavo Hofman de que a MLS irá ultrapassar os campeonatos do continente.

“Acho um exagero imaginar isso agora. Ainda vejo Brasil, Argentina e México tecnicamente à frente, mas a MLS vai diminuindo a distância que existe e o título do Seattle Sounders na Conchampions é um bom exemplo”, analisou.

Para o comentarista, os clubes do campeonato norte-americano teriam que contratar os grandes jogadores do futebol mundial no auge físico para ultrapassar os rivais do continente, um papel que hoje é das grandes ligas europeias e não deve mudar tão cedo.

Gustavo Guimarães segue o mesmo raciocínio de seu xará: a MLS está crescendo, mas ainda segue atrás de Brasil e Argentina, locais onde o futebol está “enraizado”. “Acho que nem é o objetivo da liga (ser a melhor da América), é mais ser uma ponte, formação de atletas e revenda para o mercado europeu”, finalizou.

Na contramão, o diretor do Dallas está otimista e aponta o Mundial como o principal motivo para o soccer estadunidense superar os outros campeonatos da América e até alçar voos maiores.

“2026, sendo a sede (da Copa) aqui, tem tudo para ser uma catapulta realmente, para impulsionar a MLS e tornar ela uma das principais ligas da América. Hoje já é, mas ficar nitidamente no topo e também competir com grandes ligas do futebol europeu”, concluiu André Zanotta.