Com 'braçadeira de capitã', Aline Pellegrino coordena séries C e D do Brasileiro

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 12.02.2020 - A ex-jogadora de futebol e atual diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, Aline Pellegrino, no Pacaembu, em São Paulo. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 12.02.2020 - A ex-jogadora de futebol e atual diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, Aline Pellegrino, no Pacaembu, em São Paulo. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Aline Pellegrino sempre foi, como ela mesma diz, "grandona".

Quando tinha 12 anos, já próxima dos seus 1,80 m atuais, jogava contra rivais de 17 ou 18 anos e não podia afinar nas divididas. Precisava provar ser tão forte e tão boa quanto eles. Se mostrasse fragilidade, tentariam colocá-la de goleira, o que ela detestava.

Demonstrar confiança se mostrou uma lição valiosa na sua vida. Quando esteve em reunião com os presidentes dos 20 clubes da Série C do Campeonato Brasileiro, ela já sabia o que fazer. Tudo não passava de variação dos jogos nas ruas de São Paulo. Tinha de assumir a responsabilidade e mostrar do que era capaz.

"Coloquei a braçadeira de capitã. Falei: 'Ô, pessoal, eu sou a Aline e sou a responsável. É comigo'. Já me coloquei como a pessoa que faria a intermediação. Qualquer coisa de que precisassem, já sabiam com quem falar", explicou.

Única mulher na gestão de torneios nacionais do país, Aline é gerente de competições da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Está sob sua responsabilidade toda a logística das séries C e D do Brasileiro masculino e a da primeira divisão do Campeonato Brasileiro feminino.

Ela passa boa parte do dia na sede da entidade, no Rio de Janeiro, a conversar com um ou com outro, sempre eloquente, a falar com rapidez e sem hesitar nas palavras. Cuida da organização de competições que demandam muito. A Série D começou com 48 equipes de todas as regiões do país. A final será no próximo dia 25, quando América-RN e Pouso Alegre se enfrentarão na partida de volta.

Os dois já subiram para a Série C, ao lado de São Bernardo e Amazonas.

"A gente costuma olhar para o topo da pirâmide, que são a Série A e a Série B. Mas sem a base isso não acontece. Então, chegar ao final de semana em Pouso Alegre, apertar a mão do presidente do clube e dizer 'parabéns pelo acesso' é muito importante. Traz responsabilidade. A Série C, por exemplo, está muito grande. Tem ali times como Figueirense, Vitória, Paysandu...", afirmou.

Se algum cartola achou estranho tratar sobre suas demandas com uma mulher, isso não chegou aos ouvidos da gerente. Ela não tem problemas em se apresentar, dizer quem é. Não deveria. Aline Pellegrino foi jogadora de futebol por 18 anos. Como zagueira, fez parte da seleção brasileira medalha de prata das Olimpíadas de Atenas, em 2004. Foi ouro no Pan-Americano do Rio, em 2007.

Tudo o que ela fala sobre o presente traz uma história do passado. Como quando foi convidada para dar palestra para filiados da Abex (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol). Subiu ao púlpito e disse exatamente o que estava na sua cabeça.

"Eu já sei quem vocês são, mas vocês provavelmente não sabem quem eu sou. Então, vou me apresentar. Mas, com tudo o que disputei, com tudo o que ganhei no futebol, se eu fosse homem, não precisaria fazer isso", começou, na época.

Hoje ela lida quase todas as semanas, por telefone, com alguns desses executivos que estavam na plateia naquele dia.

Aline começou a trabalhar com gestão no futebol em 2016, quando foi convidada para atuar na FPF (Federação Paulista de Futebol). Quatro anos mais tarde, foi chamada para a CBF. As séries C e D são o primeiro trabalho no futebol masculino. Sua prioridade sempre foi (e, de certa forma, continua a ser) o feminino. Neste domingo (18), ocorrerá a primeira partida da final do Brasileiro, entre Internacional e Corinthians.

O objetivo dela é que o futebol feminino tenha cada vez mais competições. Não apenas profissionais mas na base. Comemora que, em 2023, o Nacional terá três divisões. Quer também que as 27 federações estaduais organizem campeonatos das categorias de base, o que até agora não foi possível.

Ela sabe que a luta é por fazer nascer e crescer a cultura do futebol feminino no Brasil.

"Como seria possível ter essa cultura em um país que proibiu por 40 anos as mulheres de jogar futebol? Isso foi algo que acabou apenas em 1983. O mundo se desenvolveu, e o Brasil foi tirado desse processo", lembrou.

Aline fez parte de diferentes seleções que eram notadas pela mídia e pelo público apenas ao viajar para competições internacionais. E, a cada retorno, as jogadoras ouviam o discurso: "as meninas precisam de apoio", "necessitam de incentivo". Durava dois meses, e nada acontecia. Em parte, acredita, porque não havia competições no país.

"As pessoas veriam o quê? Incentivariam o quê? Hoje as jogadoras voltam para atuar em um campeonato nacional que é televisionado. Voltam para clubes que fazem investimento de quase R$ 9 milhões, são contratadas para jogar em outros países... Montar um campeonato não é algo tão simples, que pode ser feito do dia para a noite. Olimpíadas e Copa do Mundo são de quatro em quatro anos. Mais importante é ter Campeonato Brasileiro, sub-20, sub-17 e estaduais todos os anos", observou.

Aline Pellegrino tem uma meta. Pode estar distante, mas não é tão difícil quanto desafiar o desejo do pai, que não queria ver a filha jogar bola, apesar de ter transmitido a ela o amor pelo esporte. A hoje gestora espera o dia em que a cultura do feminino esteja tão arraigada que as pessoas percebam, sem esforço, que o futebol é o mesmo para homens e mulheres.

Durante a entrevista para a Folha, várias vezes ela disse que "futebol é futebol". Pouco importa o gênero.

"É isso mesmo. Futebol é só futebol. O torcedor precisa saber que o clube do coração dele tem equipe feminina porque a filha dele quer assistir, e, para esse pai ou essa mãe, pouco importa se é masculino ou feminino. É o que a filha deles quer ver, é a paixão dela. É um processo. Eu fui de uma geração que não tinha salário. Não consigo mudar isso. Já passou. Hoje sou uma das poucas mulheres que estão na gestão do futebol, mas daqui a dez anos teremos mais. A gente tem de abrir portas", afirmou.

É algo em que ela, entre um telefonema e outro, entre demandas e pedidos, pensa sempre. Aline Pellegrino é uma agente de mudança no futebol brasileiro.

"Eu faço essa reflexão. Hoje a Aline, aquela menina que jogava bola, lida com a Série C e a Série D. Os homens não estão acostumados com essas mulheres. Tem sido muito rico, e eu tenho estado muito feliz. Dá enorme trabalho, mas, quando surge algum pedido que é solucionado e o dirigente liga para dizer que deu tudo certo... É uma quebra de paradigma gigante. É algo que no futuro vai fazer com que o futebol seja apenas futebol."