CBF registra 'boom' no futebol do Brasil no primeiro semestre de 2022

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O futebol brasileiro viveu um "boom" no primeiro semestre de 2022. Em comparação com anos anteriores, houve aumento no número de novos clubes e no registro de jogadores, intermediários e treinadores.

Os dados da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), obtidos pela Folha, mostram que 71 novas agremiações foram registradas nas federações estaduais nos primeiros seis meses de 2022 contra 47 no período correspondente em 2021. Um aumento de 66%.

Se analisados os números em comparação aos do primeiro semestre do último ano antes da pandemia da Covid-19, 2019, o crescimento foi de 59% (71 a 42).

Foi constatado também incremento, entre 2022 e 2019, na quantidade de jogadores registrados sob contrato (23.424 a 9.354) e de empréstimos de atletas entre equipes (3.012 a 1.929).

Nem a confederação tem uma explicação definitiva para a estatística, mas há algumas teorias. Uma delas é a demanda reprimida pelo novo coronavírus, que paralisou o futebol por cerca de três meses em 2020. Quando houve a retomada, foi sem público e com queda de receita de todos os times.

"As federações estaduais retomaram as suas competições em todas as faixas etárias, o que obriga as equipes a ter mais jogadores. Houve uma mudança no regulamento nos Brasileiros das séries C e D, com mais partidas", explica Énio Gualberto, diretor de registro e transferências da CBF.

No total, o futebol nacional encerrou o primeiro semestre deste ano com 1.153 clubes, sendo 795 profissionais e 358 amadores. Um crescimento que só não foi constante por causa da queda em 2020. Em 2019, por exemplo, eram 959 (689 profissionais e 270 amadores).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, outra teoria é ligada ao mecanismo da solidariedade na venda de jogadores. Os clubes formadores recebem uma porcentagem a cada vez que o atleta revelado por eles é negociado durante a carreira.

"Essa poderia ser uma das razões para o crescimento, especialmente no número de jogadores amadores registrados, já que o período de formação do atleta, para efeito de pagamento do mecanismo de solidariedade, é iniciado aos 12 anos de idade", opina o advogado Eduardo Carlezzo, especializado em direito esportivo.

A CBF concorda que essa é uma possibilidade porque apenas a formalização do contrato garante o direito do clube formador.

"Hoje a Fifa tem um processo bem mais rápido para o pagamento. Antes demorava, às vezes era preciso contratar advogado", diz Gualberto.

Há também uma questão prática. Ainda é comum agentes de futebol colocarem seus atletas em clubes e fazerem acordos para a divisão do dinheiro em caso de venda. Mas para a Fifa (e, por consequência, para a CBF) apenas o direito da agremiação é reconhecido, não o do empresário. E a equipe pode receber no futuro um dinheiro pelo mecanismo de solidariedade que o intermediário talvez considere que deveria ser seu. Daí a criação de novos times, pelos próprios agentes.

Carlezzo cita o crescimento no número de atletas amadores registrados porque é um dos dados levantados pela confederação que mais chamam a atenção. No primeiro semestre de 2019, existiam 3.287 contratos amadores ativos. Mesmo com pandemia, em 2020, o número subiu para 6.364 e, depois, em 2021, para 9.462.

Neste ano, foram 45.933 acordos. De 2019 para 2022, houve um aumento de 1.397%.

Também houve uma explosão no registro de intermediários autorizados pela CBF. Em parte, pela demanda para fazer negociações de jogadores. O número evoluiu no primeiro semestre de cada ano: 49 (2019), 124 (2020), 148 (2021) e 209 (2022).

Pela explicação da CBF, de que há mais partidas e campeonatos nas federações estaduais, a consequência é haver mais treinadores formados pela academia da entidade no mesmo período. Se em 2019 foram 18, 2020 teve 42; 111 certificados acaram emitidos em 2021, e, nos primeiros seis meses de 2022, 660.

"A questão dos intermediários está ligada a isso, a expectativa que o profissional tem de poder fazer essa negociação. É o sinal de que existe essa demanda. Mas credito também à imagem do futebol como uma potência dourada. Cada vez mais jovens têm o sonho de ser atletas. Há o fator pós-pandemia, que igualmente não podemos desprezar", afirma o diretor de registro e transferências.

As estatísticas aparecem também um ano após a promulgação da lei das sociedades anônimas. E a possibilidade de virar SAF (Sociedade Anônima do Futebol) se tornou o caminho dourado para quem deseja investir no futebol nacional.

"Com a aprovação da SAF, esses investidores sentiram que existe a segurança que antes não existia. E, além do ato de construir o clube, há o crescimento deste segmento de quem participa desse processo, que são atletas e agentes", analisa Renê Salviano, especialista em gestão esportiva com passagem pelo Cruzeiro.