Duas décadas depois, jogadores do Brasiliense não esquecem final da Copa do Brasil contra o Corinthians

Brasiliense fez final da Copa do Brasil contra o Corinthians em 2022 (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)
Brasiliense fez final da Copa do Brasil contra o Corinthians em 2022 (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

Vinte anos depois, a Copa do Brasil ainda é uma lembrança amarga para os jogadores que integraram o elenco do Brasiliense em 2002. Não deveria ser assim. A pequena equipe do Distrito Federal, fundada quase dois anos, conseguiu o inimaginável.

Esteve a 90 minutos de obter o segundo título mais importante do país e ficar com uma vaga na Copa Libertadores.

Foi uma campanha histórica, como poucas vezes foi vista no futebol brasileiro. Mas...

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“Não é um problema ter perdido para o Corinthians. Mas foi daquele jeito, não é? Não foi uma coisa natural, do jogo”, se queixa o meia-atacante Wellington Dias, o principal nome daquela equipe.

“Eu não gosto nem de ver lances daquela primeira partida da final contra o Corinthians. O que aconteceu ainda deixa a gente irritado”, concorda o meia Gil Baiano (não confundir com o lateral que passou por Bragantino, Palmeiras e chegou à seleção brasileira).

A queixa é com a arbitragem de Carlos Eugênio Simon na primeira decisão, no Morumbi. Os paulistas venceram por 2 a 1. O Brasiliense reclamou de um gol de Wellington Dias anulado por impedimento no primeiro tempo.

“Não estava. Só olhar o replay”, se queixa o artilheiro do Brasiliense naquele torneio, com seis anotados.

Mas a revolta maior aconteceu na etapa final, quando Deivid cometeu falta no zagueiro Thiago, o árbitro mandou seguir e o centroavante corintiano fez o gol da vitória. Dias depois, Simon foi suspenso pela comissão de arbitragem da CBF.

Aquele jogo entrou para a história como uma das decisões mais polêmicas da história do futebol brasileiro. Principalmente porque ajudou a acabar com o conto de fadas do Brasiliense diante de um Corinthians que já havia sido campeão do Torneio Rio-São Paulo e depois seria vice brasileiro.

“Vou te dizer uma coisa: mesmo assim, a gente achou que ia mudar tudo em casa e ficar com o título. A gente estava com muita confiança. Era um momento em que o Brasiliense parecia encantado. Tudo dava certo”, lembra o atacante Weldon, revelado pelo Santos e que depois seria campeão português pelo Benfica.

Como o gol fora de casa ainda era critério de desempate, uma vitória por 1 a 0 bastava para o Brasiliense levantar o troféu na Boca do Jacaré, em Taguatinga. Wellington Dias abriu o placar, mas Deivid empatou no segundo tempo e selou a conquista corintiana.

“Apesar de tudo, foi o momento mais especial da minha carreira. Aquela Copa do Brasil me tornou conhecido no país inteiro”, diz Wellington Dias.

Ele passou a ser cobiçado pelo próprio Corinthians. O Brasiliense recebeu uma proposta do Flamengo. Mas o então presidente e dono do clube, o então senador Luiz Estevão, lhe deu aumento salarial e prometeu que a equipe continuaria forte, brigando por títulos. Foi a única final de tal importância da história da agremiação. Cassado e condenado a 26 anos de prisão por corrupção e estelionato, Estevão foi preso, mas obteve a progressão da pena para o regime aberto em 2021.

Ninguém imaginava na época que o Brasiliense pudesse fazer tal campanha na Copa do Brasil de 2002.

“Ninguém conhecia a gente”, admite Gil Baiano. “Só quando passamos pelo Náutico começaram a notar nossa equipe.”

Na estreia, o Brasiliense chegou a ser derrotado pelo modesto Vasco, do Acre. Conseguiu avançar de maneira apertada, por causa do gol marcado como visitante. Na fase seguinte, passou pelos pernambucanos então dirigidos por Muricy Ramalho.

“Não consigo explicar muito bem o que aconteceu. Só sei que o time embalou, começou a ganhar confiança e ninguém conseguia ganhar da gente, não”, tenta analisar Dias.

Se na terceira fase o adversário foi o Confiança, que tinha maior tradição, mas não chegava a meter medo, o rival seguinte parecia ser o fim da linha.

“Quando chegamos nas quartas de final, teve muita gente que pensou: já cumprimos nosso papel. Fizemos uma boa campanha. Vai ser difícil ganhar do Fluminense”, diz Weldon.

O Brasiliense venceu duas vezes por 1 a 0. A segunda, no Maracanã.

“A partida mais especial foi no Mineirão contra o Galo. Aquilo nunca vou esquecer”, relembra Wellington Dias.

Na partida de ida da semifinal, o Brasiliense fez 3 a 0 no Atlético-MG fora de casa. Voltou a ganhar na Boca do Jacaré por 2 a 1.

A lembrança dos jogadores é a risada coletiva que deram ao assistirem a entrevista pós-jogo de Levir Culpi, técnico do clube mineiro. Ele disse que o Atlético havia mostrado ser melhor que o Brasiliense nas duas partidas, apesar do placar agregado desfavorável de 5 a 1.

Eles também se recordam da sensação de que a história era palpável, que o Brasiliense, com aquele futebol mostrado, tinha grande chance de conquistar uma inimaginável Copa do Brasil.

“Poderia ter acontecido, mas teve aquele problema com a arbitragem. A gente fica chateado. Passou, mas a gente ainda se chateia”, constata Gil Baiano.

O Brasiliense chegou a ensaiar repetir a mágica em 2007, mas foi eliminado pelo Fluminense nas semifinais. O clube disputou uma vez a Série A do Brasileiro, em 2005, mas hoje está na quarta divisão.

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