Brasil de 1982 continua a imagem do futebol arte, mas fora de campo era diferente

Seleção Brasileira comemora gol na Copa do Mundo de 1982 (Foto: Mark Leech/Offside via Getty Images)
Seleção Brasileira comemora gol na Copa do Mundo de 1982 (Foto: Mark Leech/Offside via Getty Images)

Quando voltou da Espanha, uma das queixas que Serginho Chulapa mais ouviu foi que havia se comportado como um anjo. Nem parecia o mesmo atacante irreverente, ousado e encrenqueiro que vestia a camisa do São Paulo.

“Fui comportado mesmo na Copa do Mundo. Se eu fizesse qualquer coisa diferente, tinha um outro jogador louco para pegar meu lugar e com ajuda de parte da imprensa”, afirma o centroavante, 40 anos depois.

Leia também:

Ele se refere ao seu reserva na seleção do Mundial da Espanha de 1982: Roberto Dinamite. A “parte da imprensa” eram os jornalistas cariocas que acompanhavam a equipe de Telê Santana nos treinamentos, jogos e no Hotel Mas Bador, em Barcelona, a concentração brasileira.

O mais esperado era que Serginho saísse no tapa com o zagueiro Juninho, então do Corinthians. Os dois se detestavam. Quatro anos depois, Chulapa correria quase toda a extensão do gramado da Vila Belmiro atrás do desafeto, em um Santos e Juventus, pelo Campeonato Paulista.

“E não era só eu, não. Para qualquer lado que você olhasse naquela seleção, havia inimizade. É que ninguém ia trazer aquilo à tona no meio da Copa”, recorda-se.

Há quatro décadas, a seleção brasileira de 1982 virou a imagem do futebol bonito, ofensivo, mas que não venceu. A aura em torno do elenco passou também a impressão de que havia harmonia e todos estavam unidos em nome do futebol arte. Isso estava longe da verdade.

“Aquela equipe jogava muito bem. Mas era uma colcha de retalhos. Havia problemas de relacionamento que o Telê tinha de administrar e às vezes tinha dificuldade. Mas isso prova de que nem todos precisam ser amigos para fazer o trabalho bem”, explica o meia Paulo Isidoro, o falso ponta da seleção.

Seu rival dentro e fora de campo era Dirceu. Boa parte dos demais jogadores não gostavam do meia-atacante que atuava na Itália por causa de sua rivalidade com Isidoro, de convivência mais fácil e amigo de quase todo mundo.

Quando foi escalado como titular para a estreia diante da União Soviética, Dirceu não perdeu a chance de mandar seu recado.

“Eu estou na seleção do Telê. Se não estou no time da imprensa, problema de vocês”, disse aos jornalistas.

Ele ficaria contrariado pouco depois porque perderia a posição para Isidoro, que também o alfinetou pelas páginas dos jornais.

Não ficava por aí. Antes do Mundial, manchetes afirmavam ser aquele um time de mercenários porque havia desacordo quanto ao prêmio a ser pago pela CBF em caso de título. Sócrates deu uma entrevista transmitida ao vivo no Jornal Nacional para explicar a posição dos atletas.

Durante a Copa do Mundo, Batista não faria nenhuma questão de esconder sua contrariedade com o treinador. Não por não ser escalado, mas por sequer entrar na lista de reservas.

“Sei que não sou o Falcão. Entendo isso. Mas sou tão ruim assim para não ficar nem no banco?”, questionava.

Os repórteres gaúchos, a cada entrevista de Telê, insistiam no assunto, para irritação do técnico. Um jogador daquele elenco disse ao Yahoo Esportes que Batista chegou a arrumar a mala para ir embora. O volante garante não ter sido “bem assim”. Mas estava contrariado.

“O maior problema aconteceu no jogo contra a Nova Zelândia. Aquilo dividiu o grupo”, relembra o zagueiro Edinho.

O racha aconteceu entre reservas e titulares. Após as vitórias sobre União Soviética (2 a 1) e Escócia (4 a 1), o Brasil chegou á última partida do grupo classificado. Para muitos, era o momento de fazer uma rotação na escalação e dar chance a todos.

“A verdade é que os reservas viram naquela partida a oportunidade de aparecer no Mundial, já que a seleção estava classificada. Mas os titulares reclamaram terem roído o osso nos confrontos mais difíceis e naquele mais fácil não queriam ficar fora”, completa o defensor.

Telê decidiu manter o time das duas primeiras rodadas, para descontentamento de muitos.

Os jogadores também protagonizaram cenas que, se acontecessem hoje em dia, seriam escandalosas. Eder negociou com emissários da Sampdoria, da Itália, dentro da concentração. Edinho foi além. Tirou foto com a camisa da Udinese, equipe pela qual atuaria, do mesmo país.

Enquanto o Brasil vencia e encantava, tudo ficava encoberto. Quando veio a derrota para a Azzurra, outros problemas vieram à tona. Batista voltou a reclamar. Estava pronto para entrar quando Falcão fez o gol de empate, que dava a classificação à seleção. Telê não o colocou em campo para trancar o meio-campo e os italianos fizeram o terceiro.

Foi uma narrativa que ganhou corpo na imprensa. Pouco importa que o terceiro de Paolo Rossi tenha saído de uma cobrança de escanteio em que o Brasil tinha 10 jogadores dentro da área.

Zico também achou ser o momento de deixar claro o seu contentamento. Segundo outros jogadores, dentro do vestiário ele deu bronca em companheiros porque não recebia bolas. A jornalistas amigos, dias depois, repetiria a crítica. No Flamengo sempre era o alvo dos passes, mesmo que tivesse adversários o vigiando de perto.

“Nossa característica era só dar passes para os atacantes que estavam livres, sem marcação e isso poucas vezes aconteceu com ele”, respondeu Sócrates.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos