PVC: "Não posso renunciar à notícia"

Paulo Vinícius Coelho, o PVC, é um cara feliz. Foi feliz durante os 15 anos em que trabalhou na ESPN Brasil, e está feliz neste quase um ano de Fox Sports, onde se acostumou a trabalhar num ambiente diferente, mas sem deixar de fazer aquilo que o consagrou: jornalismo puro, sério, informativo. Como aquele que fez durante a Copa do Mundo, quando aceitou um convite de Felipão para, com outros jornalistas, discutir assuntos ligados à Seleção.

Nesta entrevista, concedida em dois dias diferentes e com mais de duas horas de duração, ele nega que a conversa com Felipão tenha forçado sua saída da ESPN, defende algumas ideias para a melhoria do futebol brasileiro e conta que vence a timidez e a resistência em falar de si mesmo a cada nova entrevista.

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Foto: Edu Moraes/Fox Sports

Sei que os jornalistas em geral têm um pouco de medo dos blogs de televisão…

- Não. Acho que jornalista não é pra dar entrevista. Mas, a partir do momento que alguém acha que sou uma pessoa pública, tenho que aceitar o ônus. Se alguém corneta o que eu falei, prefiro que me liguem para me ouvir, porque isso é jornalismo. Se eu discuti com Trajano no ar, por exemplo. Uma coisa é você fazer a nota, promover o escândalo e o cara ficar puto. Outra é você me ligar, ligar pro outro cara e a gente falar sobre o que aconteceu.

Mas você virou um personagem cult. Tem consciência disso?

- Sei que as pessoas gostam de mim e isso é muito bom. Mas gostam por uma coisa inexplicável, talvez porque eu falo de futebol como quem gosta de futebol. Não sei se é isso. Eu trabalho porque eu gosto… não, eu trabalho porque preciso de dinheiro [risadas]. Se as pessoas estão vendo e gostando, pra mim é muito importante, porque preciso continuar trabalhando.

E como começou tudo isso?

- Já tinha feito Copa do Mundo em 1994. Em 1996, criei coragem e fui pedir emprego para o José Trajano na ESPN, ainda trabalhava na Placar. Nem era PVC ainda. Eu gosto desse apelido, é mais forte que eu [risadas]. Primeira vez que me chamaram assim, eu odiei, foi o Chico Silva que inventou. Hoje em dia, eu adoro…

Você precisou de coragem para pedir emprego? Está brincando?

- Não. Era repórter de revista… Eu sou um moleque de classe média baixa, filho de comerciante, que um dia gostou da ideia de ser jornalista. Sabia que era muito tímido, que poderia não funcionar, que eu não ganharia dinheiro. Mas resolvi apostar que ia ser legal porque achava que era o que eu gostava de fazer. Quando entrei na faculdade, arrumei meu primeiro emprego em 1987, depois de bater na porta de um jornal de bairro em São Bernardo e fazer vários frilas. Depois passei pelo Diário do Grande ABC, Curso Abril de Jornalismo. Entrei na Abril, fui selecionado para a revista Ação, o Juca [Kfouri] disse que tinha uma vaga de repórter. Duas semanas depois, confirmaram o boato de que a revista fecharia. E minha realidade continuou sendo ter que arrumar emprego. Mas dois meses depois me chamaram para trabalhar em Placar, que ia fechar, mas resolveram reformular a redação porque passou a vender mais por causa da Copa. Tive 10% de aumento, mas ganhava dos piores salários de lá. Em 1995, eu não estava feliz. Em 1996 eu tinha decidido a voltar a ser feliz. E fui atrás do Trajano. Ele nem lembra dessa história.

E ele te tratou bem?

- Super bem. Levei pra ele matérias que fiz na África, que tinha sido minha primeira viagem internacional, ele olhou, deixei umas cópias pra ele. Mas o Trajano tem aquela coisa assim, né… Quando ele me chamou depois, em 1999, porque aí saí de Placar, fui para o Lance, comecei a assinar uma coluna de futebol internacional… Ele nunca me disse isso, mas eu tenho certeza, que me chamou porque lia minha coluna no Lance. Cravo pra você que ele não se lembra da minha visita lá em 1996. Ele me chamou, comecei a tentar ficar, esse era o cenário. Não conseguia mais conciliar e voltei para a Placar por causa da TV, porque eu podia fazer uma revista por semana e tocar a TV. E foi o que ajudou a sedimentar a minha presença na equipe e aprendendo a fazer.

[Fábio Sormani, outro comentarista da Fox, interrompe a entrevista, dizendo que a conversa estava boa porque Paulo falava há 45 minutos sem parar]

Você disse que era tímido. Não foi assustador enfrentar as câmeras?

- Não. Se você pegar meu primeiro programa na ESPN, Futebol no Mundo, você olha hoje, eu estava cabeludo, barbudo e completamente duro. Só que, quando eu falo de timidez, é uma coisa anterior, embora persista até hoje, em um certo nível. Mas as coisas vão mudando. Eu sei o dia exato em que decidi ser jornalista, na decisão de terceiro lugar da Copa de 1986, França x Bélgica. Conversei com a minha mãe e disse: prefiro viver sete dias da semana trabalhando a morrer cinco pra viver dois. Estava no terceiro colegial, liderei meu grupo para a apresentação de trabalho e essa foi a primeira lição que dei a mim mesmo para vencer a timidez. Isso se refletiu, um ano depois, na minha primeira entrevista, com o chefe dos Correios de Santo André. Precisei superar. Fiz uma listinha porque eu não tinha profundidade para falar sobre o assunto. Chegar num cara que tem certa autoridade é diferente de você chegar numa menina, por exemplo…

É diferente por que?

- Chegar numa garota é sempre mais difícil, até hoje [risadas]. Mas hoje não preciso mais, estou casado e tenho dois filhos. Não é um problema porque não faço bobagens. A timidez no trabalho é mais fácil de resolver por necessidade. Na medida que o tempo passa, você ganha segurança pra fazer aquilo. “Sou repórter da revista Placar”. Vão te respeitar por isso, não porque sou eu. E isso te dá uma casca.

E a entrevista com o cara dos Correios foi boa, por fim?
- Nunca foi publicada [risadas]

[PVC interrompeu a entrevista para se maquiar e entrar ao vivo no programa noturno da Fox Sports. Mas disse que poderia falar mais um pouco e continuaríamos no dia seguinte]

Como é ficar 15 anos numa mesma empresa de comunicação, especialmente no nosso mercado, em que a faixa etária já não favorece?

- Um amigo meu da Abril dizia que jornalista precisava de mobilidade para ganhar dinheiro. Nunca acreditei nisso, embora sejam, de fato, os momentos em que consegui subir um pouquinho. Acredito mais em felicidade, estar ou não estar feliz. Meus movimentos foram em busca de felicidade. Recebi uma proposta num momento em que aconteceram algumas coisas anunciando que podiam se quebrar. Se as coisas se quebrassem daqui um ano, seis meses depois, pra mim seria muito difícil. Entendeu? [pausa]. Como disse o Tiago Leifert, quando saiu do Globo Esporte, você sair quando está tudo bem é como ganhar a Champions League. Saí porque estava tudo bem. E está tudo bem a ponto da gente continuar se amando. A gente ainda se ama…

Vocês ainda namoram?

[risadas] Não namoramos. Adoro as pessoas de lá, tomo café, nas viagens internacionais, convivemos, adoro tudo isso, mas a gente não namora [risadas]. Eu só tive a sorte de receber uma proposta absolutamente tentadora. Pensei: “Cara, daqui a pouco, não vai ser igual. É hora de ir”.

E você está satisfeito com a troca?

- Estou muito feliz na Fox. São maneiras diferentes de se trabalhar, de construir um canal. Você vê o canal crescer, com todo mundo junto, gente que te via em outro canal dizendo “pô, que legal que você falou isso” e você responder “pô, que legal que você tá vendo”. As pessoas falam sobre o público da ESPN, mas esse mesmo público tem controle remoto. Todas as pessoas veem TV assim. Quando não estão felizes, elas mudam. Tem uma equipe muito boa, com uma maneira diferente de enxergar as coisas. Tem dois jeitos, no mínimo, de enxergar as coisas.

Você consegue descansar? Já se acostumou com essa rotina?

- Lembra que eu te falei quando eu disse que decidi ser jornalista? Que ia viver sete dias a morrer cinco para viver só dois? Minha mulher também é jornalista, entende bem. Mas, de vez em quando, ela enche o saco [risadas].

Você falou em mudanças e o ritmo. O tom na Fox é um pouco diferente do que você fazia antes, uma carga menos sisuda do que o Linha de Passe, por exemplo. Você já se acostumou com isso, prefere leveza?

- Não, eu gosto de profundidade. A gente também tem isso aqui, mas acho que temos mais diversidade também. Como a Globo tem Jornal Nacional e Zorra Total. Não temos humorístico, mas programas com perfis diferentes. Mesmo o Fox Sports Radio tem um perfil diferente de dia e à noite, quando temos sempre um entrevistado, o que dá um tom quase de Bola da Vez. Tenho pra mim que a informação me protege, e a minha análise terá essa informação como base. E isso vale em qualquer lugar. Já tive situações na minha vida, antes da Fox, em que eu tinha a informação e as pessoas trabalhavam com opinião.

O Cosme Rímoli, na sua saída da ESPN, publicou que a sua reunião com a comissão técnica da Seleção, antes do fracasso na Copa, tinha sido um dos motivadores da troca de emissoras. Você se sentiu realmente constrangido em participar daquilo, como ele descreve no texto? Foi mesmo um momento crítico?

- Não foi crítico, foi importante. Em 2006, o Parreira convidou um elenco de colunistas que tinha Fernando Calazans, Tostão, Alberto Helena Jr, para jantar, conversar sobre futebol. Isso significa prestígio, o cara está prestando atenção no seu trabalho. Em 2014, em plena Copa, fui um dos convidados. Felipão confiava em algumas pessoas para falar algumas coisas. E saí da reunião e isso foi escancarado, as pessoas sabiam o que tinha sido conversado. Sou comentarista e repórter. Não posso renunciar à notícia. E esse burburinho não foi só na ESPN. As pessoas querem o quê? Que você renuncie à notícia? Você é convidado para uma reunião com presidente da República. Você recusa? Além de falta de educação, é renunciar à notícia. Mas isso não teve interferência na minha saída, não criou constrangimento, só teve debates no ar. E disse a mesma coisa que estou te dizendo agora: “Vocês querem o quê?”. As pessoas podem não se lembrar, mas o Juca também estava lá…

E ele também foi questionado sobre isso?

- Sim. Ele também estava na reunião. Jornalista não tem lado, eu tenho que estar do lado da notícia! Uma coisa que me chamava muito a atenção naquele episódio, por exemplo, era como o time estava fora de si emocionalmente. Não explica totalmente o fracasso, mas é parte do cardápio. Queria conversar com Felipão sobre isso. Eu não falei com Parreira, Zagallo, Dunga, exceto em coletivas, durante Copa. Em 2014, eu tinha acesso ao Felipão, falava com ele por telefone. A reunião não tinha nada a ver com isso. Naquele mesmo dia, eu cheguei a ligar pra ele pra saber do Daniel Alves, diziam que ele ia paraa reserva. Depois de deixar tocar duas vezes, desisti e ele me ligou de volta. Isso é relação de jornalista com a fonte! E isso é a coisa mais delicada que existe. É fio da navalha o tempo inteiro. Se você ficar duas semanas sem ligar, não está mais grudado. E se ligar todos os dias, você passa do ponto e vira amigo do cara! Quem é jornalista bom, sabe que não se pode ficar longe da informação, nem passar do ponto. Não pode ser distante da fonte, nem ser amigo dela. Jornalista não tem amigo, tem fonte. E tem muitos que estão falando muito e ouvindo pouco. Certas intimidades não são necessárias, mas não se pode perder o contato. Você precisa poder perguntar pro cara se tal coisa o está afligindo. Se o time está abalado emocionalmente. Se passou do ponto. Se convocaria os mesmos jogadores hoje. E isso você não faz normalmente numa Copa do Mundo. Agora, a gente esqueceu de fazer jornalismo?

Talvez sim…

- Mas isso não tem a ver com a minha saída da ESPN. Saí porque tive uma proposta muito boa. Em outros momentos, ela não me pegaria. Estavam acontecendo algumas coisas que eu olhava e achava: “Pô, estão abrindo a minha geladeira”. Mas aí você coloca os pés no chão e reflete: “Espera, essa geladeira não é minha. É da ESPN”. E ela tem total liberdade de abrir e retirar a manteiga, o leite, o suco, e o que compete a mim é analisar a configuração e ver se eu gosto ou não. E nesse momento, surgiu a Fox com uma proposta prazerosa, vantajosa, que me deixou muito feliz, pensei muito sobre o que fazer e tomei uma decisão.

E como é que você, PVC, enxergou a Copa do Mundo no Brasil?

- Um dos debates que tínhamos na ESPN, no caloroso Linha de Passe [risadas], era justamente a questão psicológica. Achava que a parte emocional estava interferindo muito, e acho até hoje. Foi por causa dela? Em parte, sim, mas não se pode atribuir exclusivamente. Pra muita gente, a percepção de que os treinos eram ruins interferiam na parte emocional do time. Pra mim, a frase que define a copa do mundo foi a que o Marcio Santos me falou, cheguei a escrever uma coluna sobre isso, imediatamente depois da vitória nos pênaltis contra o Chile: “Tá todo mundo com medo de ser Barbosa”. Você não ganha Copa do Mundo com o maior craque do time aos 22 anos. “Ah, o Pelé tinha 17 anos”. Mas o craque do time era o Didi, que tinha 29. Ele era a referência. Isso faz toda a diferença. O time estava uma pilha de nervos. Naquela reunião, perguntei sobre isso, sei que Parreira e Felipão discutiram o assunto depois, e o time fez na sequência contra a Colômbia o melhor jogo do Brasil na copa. Foram 60 minutos de bom futebol. Aí o time perdeu o capitão e o craque. Foi só isso? Não. Alemanha foi melhor, treina junto há oito anos, o nosso técnico estava no cargo há 18 meses, após uma demissão, em que teve que começar tudo de novo… Você pode até dizer que a escolha foi ruim, mas a gente quer, o tempo inteiro, começar de novo!

E começando de novo sempre, não temos tempo para preparação, é isso?

- Exatamente! E ninguém aqui vai ter a pretensão de explicar tudo como um decreto. É uma mistura de coisas…

Você chegou a ver a entrevista do Daniel Alves para o Bola da Vez sobre o assunto? É mais ou menos isso que estamos falando aqui…

- Vi, mas me incomoda o Daniel estar dizendo isso hoje e não ter dito em 2014, nem logo depois da Copa. Acabou a competição, faz o retrato!

Ele pode ter dito isso só agora porque talvez não terá outra chance numa próxima oportunidade, não?

- Mas ele estava na Copa América, continuou. Dificilmente vai continuar, mas pode sim. Falou porque sentiu que deveria falar as coisas que ele pensa. Mas tem uma coisa importante: uma pessoa dentro de um processo diz uma série de coisas. Essa série de coisas reflete a verdade de alguém que estava dentro do processo. Não significa que isso seja exatamente a verdade. A verdade de fato é a soma de todos os pensamentos de todas as pessoas que estão dentro desse processo. Acho Daniel um grande personagem, está num momento de libertação da vida dele, economicamente, o que lhe dá a possibilidade de expressar tudo o que pensa. Mas nem tudo o que ele pensa é a mais pura expressão da verdade. É a verdade dele.

E na Copa América, a história se repetiu pra você, mesmo com todos os erros cometidos lá atrás?

- A gente está decretando muito ferozmente um final trágico para o futebol brasileiro, e não é bem assim. Tem um diagnóstico que pouca gente faz: ano passado, jogamos com seis jogadores da Copa anterior. É um número baixo. Na Copa América de 2011, o Brasil jogou, sabendo que perderia, com três referências no campo de ataque: Neymar, então com 19 anos, Ganso, com 20, Pato, com 21. Não se ganha Copa América assim, nem Pelé ganhou. Quatro anos depois, o Brasil foi de novo pra competição com apenas dois titulares daquele grupo de 2011 e sete na reserva. E com uma referência no ataque com Neymar, Phillipe Coutinho, Firmino, Douglas Costa, todos com 23 anos. Você pode até ganhar assim, mas não é a lógica. Um time jovem demais, com apenas sete jogadores iguais. E aí você decreta que o Brasil não revela mais jogadores. Como não revela, se eu tenho 16 jogadores diferentes, que alguém acha que podem defender a Seleção? Eu não estou deixando de revelar, estou desperdiçando demais. O Brasil teve 43 convocados em três campanhas de Mundial Sub-20, participando de três finais. O time era bom, chegamos à elite daquela faixa etária. Desses 43, só três estavam na Copa América.

Você acha que conseguirá dar estes pitacos lá na Comissão de Desenvolvimento da CBF? Foi chamado?

- Já sinalizaram que gostariam de me ouvir. E eu gostaria de falar e não ser chamado de chapa branca, porque estar ali não significa que compactuo. “Eu penso isso, isso e isso”. Viro as costas e vou embora, ainda que eu ache que não vai levar a lugar nenhum. Não posso ajudar, mas posso dizer algumas coisas. Se o cara te pede um conselho, e você oferece, não tem mal nenhum nisso. O teu tom crítico pode ser exatamente o mesmo. Não é papel do jornalista ser ouvido, mas, se quiser me ouvir, não vou renunciar a falar. Em 2002, quando Lula foi eleito, Ana Moser, Juca, Trajano, Paula fizeram parte de um corpo de ideias pra política esportiva do Brasil, colaboraram muito e nada foi aplicado. E a culpa é de quem ofereceu a ideia? Ou de quem não aplicou?

Acredita que, mesmo com as aparentes boas intenções, esse tal conselho não vá levar a lugar nenhum mesmo?

- Não sei. Ouvi do Gilmar Rinaldi que, se for para não levar a lugar nenhum, ele também não ficaria ali. Se vai se conseguir fazer, não sei. É uma questão que não é só Seleção Brasileira, mas do nosso futebol. Quantas pessoas você conhece, por exemplo, que incluíram em seu roteiro de férias a Espanha? Quem vai pra lá escolhe prioritariamente Madri e Barcelona, certo? Pois bem. Sevilha é uma cidade espetacular. Não conheço ninguém que conheça e não goste. Mas ela não entra no roteiro de ninguém porque não tem um time competitivo, charmoso e visível como o Barcelona e o Real Madrid. O futebol está no roteiro. O Brasil também poderia ter isso. O cara vai para o Rio, visita o Maracanã, os museus do Flamengo e da CBF, vem a São Paulo, vai ao Pacaembu, ao estádio do Corinthians, desce a serra e vai ao Museu da Vila… A indústria do futebol tem uma dívida de R$ 4 bilhões. É muito dinheiro. Por que não refinanciar isso antes que quebre? Uma hipótese é: fecha o Corinthians, fecha o Botafogo etc. Outra hipótese é você refinanciar, não pra dar esmola, mas da mesma forma como se faz com a indústria automobilística, por exemplo, já que é fundamental porque paga imposto e gera emprego. O futebol tem que ser setor da economia também, gerando emprego e pagando imposto, dando dinheiro pro Estado. Temos potencial para repetir o sucesso dos clubes espanhóis, por exemplo, que geram tanto dinheiro. O cara pode vir pra cá também, onde teoricamente, ainda é o país do futebol…

Você ainda acredita nisso?

- Eu acredito que é possível trabalhar para que isso aconteça. Brasil sempre foi o país do futebol jogado. E não tô falando do profissional, tô falando que aqui se joga futebol na praia, no asfalto, na terra batida, na floresta, no rio. No meio da floresta amazônica, tem alguém jogando bola. Se você pensar em dimensões territoriais, não há nenhum país igual. É desse ponto de vista que somos o país do futebol. Nunca fomos o país do futebol do estádio. Somos o país do maior estádio vazio do mundo, o Maracanã. Porque você o lotava três vezes por ano. É diferente da Alemanha, da Inglaterra, que qualquer jogo tem estádio lotado. Sempre fomos do estádio cheio em jogo grande e de estádio vazio em jogo pequeno. Isso é possível mudar, criar um plano de fidelidade para o torcedor. É possível ir ao estádio.

Mas mesmo com as gestões que temos hoje, conseguiremos chegar a esse nível de projeto?

- Tem que chegar! Não tenho a ilusão de que não temos dirigentes corruptos, tanto aqui como na Espanha, suíços, franceses… não é um privilégio brasileiro. Você tem que criar um mecanismo que seja imune à corrupção. O sistema tem que funcionar. E o corrupto você descobre e prende. A gente acredita piamente na impossibilidade das coisas. Por exemplo: quando aparece uma proposta como a do Manchester United pro Lucas, que o São Paulo recusou, a gente grita: mas como recusou? Você não presta atenção que a relação dívida/receita de um de outro é muito parecida. O São Paulo tem uma dívida de R$ 130 milhões e uma receita de R$ 250 milhões. E o Manchester tem uma dívida de 500 milhões de euros e uma receita de 650 milhões. Claro, recebem em euros, mas por que, mesmo com uma dívida monstro, quer comprar o Lucas? Ora, pra ganhar títulos. E por que o São Paulo não quer vender? Porque também quer ganhar títulos e ainda novos patrocinadores, torcedores, consumidores, parceiros, mais receita. Só que a nossa lógica, há 30 anos, é: revelo, vendo. Revelo, vendo. E na ponta dessa cultura, está a Seleção. Temos que reformar o futebol brasileiro inteiro, seleção é a ponta do iceberg. A mesma frase, de que estamos nivelados por baixo no futebol, se repete há 30 anos.

Essa cultura empresarial do futebol não nos fará perder a paixão? Sejam torcedores ou profissionais do futebol? Ou já perdemos?

- O futebol é paixão e sempre vai ser. A questão é quantas pessoas você consegue mobilizar apaixonadas. Na Inglaterra, hoje o maior mercado do mundo, lotam os estádios e são apaixonados. Se você mobiliza 60 mil pessoas que vão todas as vezes a todos os jogos, você pode chamar o cara de qualquer coisa, até de rico, mas apaixonado ele é. A questão é como criar essa mobilização. Torcedor apaixonado é adolescente e jovem. Quando você passa dos 35 anos, sua lógica é apontar pro passado. É igual na música, no cinema. O que quebra isso é a evidência de que tem alguma coisa que me arrasta pro estádio todo jogo. E o que faz isso é, sei lá, a necessidade de ir ao próximo jogo, por um programa de milhagem, como têm feito Corinthians e o Palmeiras, que não via um público desses de 30 mil desde 1993…

Mas essa média do Palmeiras também não se deve a essa trajetória dramática dos últimos anos? A sensação que tenho é que isso deu um sabor diferente à história e foi mais um motivador…

Esse drama o Palmeiras já tinha em 2004, 2011, 2012… Dois fatores são motivadores: um é a novidade do estádio, sem dúvida. A outra, menos dita, é a milhagem. Os planos de sócio-torcedor de Palmeiras e Corinthians são semelhantes aos de companhias aéreas: quanto mais você vai, mais benefício tem. O Corinthians tinha um hiato de 2 mil torcedores que compravam e não iam ao jogo. Percebeu isso, mudou, agora pra ter benefício você precisa passar o ingresso na catraca e a média de público pulou de 26 para 29 mil. Neste ano, a média é de 31 mil. Pode ser pela novidade do estádio? Pode. Mas está subindo. O Palmeiras é parecido, tem um plano em que você precisa ter 80% de presença pra continuar sendo 5 estrelas, que é medido pela catraca. Muito se fala da elitização, da violência, da falta de estacionamento… Elencamos todos os problemas pra não ir ao estádio. Durante anos, me perguntavam se eu levaria meu filho ao estádio e eu respondia que “levaria não, eu levo”. Hoje ele tem 15 anos e vai sozinho.

E não te aflige isso?

- Não. O estádio é habitat natural dele, como o meu. Tenho um sobrinho, mais velho, que o levava. Hoje em dia, conquistou essa confiança para ir sozinho. Ele sabe por onde entra, sai, sabe como não se meter em confusão… Há 30 anos ouvimos gente dizer “não vá ao estádio”. Como assim? Eu pago imposto para ter segurança, para dirigir meu carro, parar no farol, ir ao cinema, para fazer o que quero. O Estado me dá segurança. Como alguém pode me dizer não vá ao estádio? Cobre do Estado a sua capacidade de ir ao estádio. E isso é uma coisa que o futebol não faz! Por isso ele precisa ser tratado como indústria, como setor da economia. O futebol não se pronuncia sobre isso! Imagine alguém decretando “Não compre um carro da Volkswagen”… imagine em quantos minutos não apareceria o primeiro processo?

Temos casos de colegas que disseram “não vá ao estádio”, mas depois mudaram o discurso em promoções de ingressos de marcas multinacionais…

- Não lembro quem fez, mas jornalista não faz anúncio. Se eu fizer anúncio da Adidas e a marca entrar em litígio com o Palmeiras, eu defendo quem?

Já foi convidado pra fazer?

- Teve um caso da Samsung no Twitter que eram três ações, colocar um link, a ESPN queria que eu fizesse e eu fiz. Mas a lógica é não fazer, não ter vínculo. Uma hora, vai ter uma bola dividida. Consigo cuidar da minha família e ter um salário legal apenas com meu trabalho jornalístico.

Sua memória sempre foi assim, impressionante?

- Quando você é moleque, você sabe o time que está jogando porque é louco por isso. E depois você passa a ter outras responsabilidades, como por exemplo, saber que todo dia 1 tenho que pagar a escola dos meus filhos, e não lembrar a escalação do Corinthians no jogo do dia anterior. Você passa a esquecer essas coisas, mas eu me cobro lembrar, porque minha memória de elefante é o que me faz lembrar, até hoje, que o Guarani de 1978 jogava com Neneca, Mauro, Gomes, Édson e Miranda; Zé Carlos, Zenon e Renato; Capitão, Careca e Bozó. Mas se eu não tomar cuidado, não lembro a escalação do Cruzeiro do ano passado (repete a escalação). É mais fácil falar do time de 1978. Adoro esse exercício de pegar o Flamengo de 1981 e descobrir que eles jogaram juntos quatro vezes - e mesmo assim me lembrar de Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico…

Você já se deu ao trabalho de contar o tempo em que diz essa escalação? Eu tive. Menos de três segundos.

- Mas a do Cruzeiro de 2014 eu demoro mais [risadas], o dobro do tempo. O Cruzeiro é um time que eu aprendi aos 45 anos, e não com 13. E com 45, eu tinha que pagar a conta da escola. E um cruzeirense também vai ter dificuldade de lembrar porque o elenco de 2014 não jogava há dez anos juntos. Aliás, nem o Flamengo de 1981 jogou tudo isso, foram só quatro vezes. Mas é um clássico que todo mundo lembra. O time clássico do Santos, de 1963, que todo mundo lembra, jogou junto 10 vezes. Esse time sobreviveu uns seis anos juntos, mas não jogava junto o tempo inteiro.

Você reserva uma hora do dia pra isso, pra pesquisar, ler?

Nenhuma hora especialmente. Vou almoçar sozinho, leio, organizo coisas, às vezes escrevo. Não tenho hora para ir ao cinema com a minha mulher [risadas].

Você almoça sozinho?

- Porque eu leio, eu gosto…

Tem outras coisas que você faz sozinho?

- Ver futebol sozinho é bom. Eu consigo fazer essa divisão de assistir como torcedor e comentarista. Fui com meu filho na inauguração do Allianz Parque. Mas prestei atenção no jogo, precisava escrever sobre ele depois. Não fico pulando feito um débil mental, quero entender o jogo. Na Copa América agora, por exemplo, passei trabalhando na maioria dos jogos, por causa do blog, do jornal, fazendo ficha técnica, etc. Contra a Colômbia, não tinha coluna no dia seguinte, deixei o computador fechado e fiquei vendo o jogo. Pensei: nossa, que diferente…

Isso é melhor ou pior?

- É melhor quando você pode assistir ao jogo sem fazer mais nada, mas assistindo ao jogo, e não sem compromisso com o jogo. Não gosto de ir em grupo, ficar falando da vida e nem prestar atenção em quem foi o melhor da partida, por exemplo. Quando você sai do filme, num cinema, comenta a atuação de alguém, o enredo, o roteiro, a fotografia… pra mim é a mesma coisa.

Quando você vai ao jogo, as pessoas te incomodam, ficam te fazendo perguntas?

Até que não. No intervalo, antes e depois do jogo, elas falam comigo. Digamos que o jogo seja sagrado [risadas].

Você tem noção de que tem muitos fãs por aí? Que virou um personagem?

[risadas] Entendo o trabalho dos blogs de TV, mas acho que jornalista não é pra isso. Por outro lado, entendo também quando passo a ter um papel ou faça algo relevante a ponto de um jornalista identificar como notícia. Assim, como posso entender que alguém dê uma notícia dizendo que o Marcos estava no Villa Country, e eu acho que isso não é notícia, mas alguém achou que era e o Marcos ficou puto. Da mesma maneira, quando tem uma briga minha com o Trajano no Linha de Passe, respeito porque algum jornalista entendeu que isso era noticioso. Tenho que me relacionar com isso, lembrando sempre que sou jornalista. Não sou um personagem, o que criam é a partir de mim. O João Saldanha é um jornalista que virou uma pessoa relevante. Eu não vou ser nunca um popstar, uma celebridade. Meu papel é apurar, checar e analisar informação. Todo o resto é ônus ou bônus. É penduricalho. A gente precisa tratar tudo de uma maneira equilibrada. Quem gosta ou de desgosta de você é pelo que você faz, e o que você faz é jornalismo.

Esse penduricalho te incomoda?

- Não, pelo contrário, eu gosto. Porque é reconhecimento. Eu só não posso esquecer nunca quem eu sou. As pessoas gostam de mim? Genial. Mas fazer jornalismo é notícia? Não. Te promove a celebridade? Não. Eu tenho que atender bem quem me trata bem como o Roberto Carlos faz? Sim. Mas isso não significa que eu tenha que ser celebrado. As pessoas perdem os limites. Quando a gente vai pra televisão, quase cai na tentação de achar que o que você pensa é mais importante que a notícia.

O jornalismo esportivo sofre disso nos últimos anos? Esporte como entretenimento?

- Acho que sofre há muito mais tempo. O Tiago Leifert, por exemplo, foi, de certa maneira, o Osmar Santos 30 anos depois. Ele também fez um Globo Esporte diferente nos anos 80. Em 1983, estava na TV, e em 1984, foi o “apresentador” das Diretas Já. Ele não tinha que fazer? Em teoria, o apresentador de um não é o de outro. Isso sempre se misturou um pouco, na tv e no rádio. Sempre fizeram jornalismo paralelamente ao entretenimento. O Osmar Santos fazia publicidade e era narrador, tinha uma parte artista. Mas o jornalista que lida com informação não pode fazer isso. Se você está envolvido com uma empresa, uma hora, vai ser notícia. Tem que saber como funciona nossa ética: como um médico não pode negar socorro, a gente não pode fazer jabá. As pessoas podem me tratar como celebridade, eu é que não posso me tratar assim. O que existe é a informação.

*Colaborou Fernando Cesarotti

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