Entrevista: Flávio Gomes fala sobre automobilismo na TV, F1 e conta histórias envolvendo Galvão e Reginaldo Leme

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Foto: reprodução/Facebook

A poucos dias da abertura da temporada 2015 da Fórmula 1, o TV Esporte Blog convidou Flávio Gomes, especializado em automobilismo, para falar sobre cobertura de automobilismo na televisão. De quebra, o jornalista do Fox Sports e dono do site Grande Prêmio relembra histórias envolvendo Galvão Bueno e Reginaldo Leme, a famosa dupla da TV Globo nas transmissões da F1.

Confira, a seguir, esse bate-papo:

Em seu blog no site “Grande Prêmio”, você é apresentado como jornalista multimídia. Assim diz o loooongo perfil a seu respeito e que menciona as suas passagens por vários veículos de imprensa. Pois bem, o que acha bom e ruim na cobertura esportiva feita especificamente pela televisão brasileira, seja a aberta ou fechada? Se achar válido comparar ao que se faz nas TVs do exterior, fique à vontade.

Ah, que pergunta genérica… Poderia ficar horas aqui falando sobre coberturas esportivas, há muito o que dizer e é difícil uma resposta que resuma tudo. Mas vou tentar. Não sem antes perguntar a você o que é que tem de errado com meu perfil loooongo… A carreira é longa, e me orgulho de cada minuto dela. Não teria por que omitir nada, nem ser seletivo. São 33 anos falando e escrevendo, quase sempre em casas importantes, como Cultura, Folha, Abril, Pan, Bandeirantes, ESPN, Fox… Seria maior ainda, este perfil, se eu descrevesse minhas glórias nas pistas. Mas deixa pra lá. Cobertura na TV…

Bom, ela me satisfaz, porque tem para todos os gostos. Só em casa tenho sete canais só de esporte, fora as emissoras abertas. É suficiente, não? Na verdade, acho até que há futebol em excesso. Mesas redondas intermináveis, cagação de regra, bobagens, gente querendo ser engraçadinha o tempo todo, gente chata, enfadonha, gente que não entende nada, gente que engana… E também mesas redondas interessantes, inteligentes, análises precisas, gente séria, gente que é realmente engraçada, divertida, programas bem produzidos, ótimas reportagens, transmissões excelentes. Tem de tudo, e não tenho muito que reclamar, na condição de telespectador. Como considero que tenho discernimento, escolho para ver aquilo que me agrada.

O que mais me incomoda na cobertura esportiva brasileira é o “pachequismo” que contamina quase todo mundo quando se tem Brasil na parada. Especialmente a Globo, que vende qualquer esporte como se tivesse sido concebido para brasileiro ganhar. Onde não tem brasileiro, não tem esporte. Gol da Champions, só se for de brasileiro. Surfe, só se brasileiro for campeão do mundo. Tênis, idem. E por aí vai. Domingo de manhã é um horror, tem torneio de peteca, desafio mundial de futebol de areia, copa intercontinental de vôlei de praia, mundialito de futsal, campeonato universal de asa-delta, meia-maratona de Itapecerica da Serra. Tudo para tocar vinhetinha Brasil-sil-sil, uma babaquice monumental. Aí, chega uma Copa do Mundo, fica aquele puta oba-oba e o Brasil toma de sete. Como explicar para o pobre coitado que está há meses acreditando nas previsões otimistas cheias de brasilidade? Isso se reproduz de certa forma em outras emissoras, mas como a Globo é dona de tudo, dita padrões e tendências, acaba chamando mais a atenção.

Lá fora? Sei lá, deve ser igual. Na Espanha, a cobertura de F-1 é um lixo. Só existe o Alonso. Na Inglaterra e na Alemanha, é boa pacas. Nos EUA se faz coisa muito boa nos canais de esportes. Fox e ESPN são sensacionais. Na América do Sul, se puxa muito a brasa para a sardinha local. Tecnicamente, Europa e EUA estão um pouco à frente, mas acho que o Brasil não dá vexame. Fazemos coisas boas, temos nossos defeitos, mas acho que todos têm.

Você é especialista em um esporte de nicho, automobilismo (se discordar, corrija-me), mas em televisão tem falado mais de futebol, esse, sim, o esporte que interessa a mais gente. Até a quem não entende tanto. Sente falta de cobrir automobilismo na TV? Ou já está conformado que o espaço seja mais restrito em televisão?

Sinto falta de automobilismo na TV. Cobrir, na TV, nunca cobri. Tinha um programa na ESPN, o Limite, que era bem legal. Mas tinha mais do que corrida, tinha meu quadro de carros antigos que era ótimo, a química entre nós três, eu, João e Mauro, era muito boa e a gente se divertia muito fazendo o Limite. Hoje não tem quase nada na TV. Os canais fechados ainda mostram algumas competições, a gente tem a Nascar e a Fórmula E na Fox e o trabalho é muito bom, mas falta, sim, ao menos um programa semanal para falar de corridas e carros com conhecimento de causa – tem muito programa idiota de carro em canais fechados, e muito jabá em TV aberta; são programas irrelevantes do ponto de vista jornalístico.

Conformado? Sei lá, não é exatamente um problema meu, não sou um “defensor” do automobilismo como existem militantes de outros esportes como MMA e pôquer, o que eu acho meio ridículo – ambos. Essa gente, quando se fala mal dos esportes “deles”, dá chilique e parte para a hostilidade virtual. Eu não me importo com quem acha que automobilismo não é esporte, é uma merda, não tem graça. Não tenho procuração de ninguém para defender esporte algum. Gosto do que gosto, e ponto. E tem muita gente que gosta de automobilismo. É para esses que eu falo. Não para os que não gostam, para esses, não dou muita importância. Não tenho a menor intenção de convencer as pessoas de que corrida é legal, nem de converter ninguém à causa do automobilismo. Cada um gosta do que bem entender.

Automobilismo é esporte para TV aberta do Brasil, país cuja maioria dos telespectadores costuma se interessar mais quando há esportistas vencedores? Até hoje se ouve entre o telespectador médio (não falo do realmente fanático por esporte, mas do “torcedor de vitória”) referências a Senna e Piquet para justificar o interesse menor pela Fórmula 1.

O telespectador médio é, em geral, um obtuso quando se trata de Fórmula 1. O sujeito diz que adorava F-1, mas que parou de ver quando o Senna morreu. Oh, que tristeza. Às vezes acho que é algo quase sexual. Que história é essa? Se você parou de ver quando o cara morreu, então você não gostava de Fórmula 1, gostava do Senna. É essa educação global de décadas: um esporte só é interessante quando tem um brasileiro ganhando. Esse cara achava tênis o máximo quando o Guga jogava e ganhava. Hoje, não sabe nem quantos games tem um set. É um torcedor pelo qual não me interesso minimamente.

F-1 é legal, sempre foi e sempre será, tenha brasileiros correndo, ou não. Quando alguém chega para mim com esse papo de que “no tempo do Senna é que era legal”, encerro a conversa. O cara não quer falar de F-1, quer falar dele mesmo, de como se sentia feliz “nas manhãs de domingo”. Não tenho nada a ver com as manhãs de domingo do cara. Não me interessa saber que ele era feliz antigamente e não é mais agora. É problema dele.

A Globo transmite a Formula 1 e ela recebe muitas críticas dos telespectadores amantes de automobilismo (aqueles que acompanham mais, mesmo sem brasileiro vencendo) pelo estilo de cobertura que faz, torcendo e por vezes distorcendo por pilotos do país. Diante do perfil do telespectador médio brasileiro, aquele que “torce por vitórias brasileiras e só”, dava para a Globo fazer diferente, ser mais isenta na sua cobertura?

É chato falar de colegas, então falarei genericamente. A linha editorial da Globo é essa. Poderia ser diferente? Não. Deveria. É um tiro no pé. Nos tempos do Barrichello na Ferrari, era ridículo. Sábado à noite, Jornal Nacional, William Bonner sorri e diz que Rubinho larga em segundo em Imola. Aí entra o repórter igualmente sorridente e puxa toda a matéria para a possibilidade de Rubinho vencer. Rubinho, na Globo, vira favorito à vitória. É a linha do canal, em todos os esportes. Aí o cara vê aquilo, acredita, e se programa para ver a corrida de manhã no dia seguinte, para reviver seus domingos dos tempos do Senna. Acorda cedo, leva o cachorro pra passear, vai na padaria, diz pro chapeiro que precisa voltar logo para ver o Rubinho ganhar, fica todo animadinho porque, finalmente, vai ouvir a musiquinha do Senna, afinal a Globo disse que o Rubinho ia ganhar. Aí o Schumacher vai e ganha, porque é mil vezes melhor. Então o cara fica louco da vida e xinga o Rubinho. Por quê? Porque foi enganado pela Globo. Rubinho não tinha chance de vencer. É mentira em cima de mentira, e isso acontece em muitas modalidades.

Na Olimpíada de Londres, lembro de chamadas clamando o povo a “torcer para os heróis brasileiros”. Na F-1, “vamos torcer amanhã para Felipe Massa”. Pô, e se o cara não quer torcer para o Massa, nem para “nossos heróis”? E que história é essa de heróis? Uma necessidade de autoafirmação que muitas vezes soa ridícula. No caso da F-1, todos os pilotos erram, menos os brasileiros. Os brasileiros são sacaneados, por isso não vencem. Os outros roubam e são antipáticos. É um festival de bobagens que condiciona o público a gostar do negócio só se brasileiro ganha. É um equívoco, desvalorizam o evento deles mesmos inexplicavelmente. Evento que é bom, independentemente do desempenho dos brasileiros. Cobrindo F-1 assim, não se fideliza o telespectador. Educa-se o cara a ver corrida para ver brasileiro ganhar. Faz cinco anos que não ganha. E aí? O telespectador some, a audiência cai. Não seria melhor falar da F-1 como esporte globalizado que é, destacar talentos como Schumacher, Vettel, Alonso, Hamilton? Falar de tecnologia, estratégia, política, bastidores?

Ainda assim, a Globo dá furos espetaculares graças à bagagem do Reginaldo Leme, como no caso do Nelsinho Piquet, que bateu de propósito em Cingapura em 2008. Mas que dava para fazer melhor, dava. A tentativa com Barrichello no grid foi um desastre. Despreparado, infantil, atrapalhado, a presença dele não acrescentou nada, isenção zero, gracinhas sem graça, uma chatice constrangedora. Eles deviam ver como se faz na Inglaterra e copiar. E, talvez, colocar nos canais fechados para ter mais tempo de transmissão, antes e depois das provas. Talvez as corridas não sejam mais apropriadas para canais abertos, o público está se desinteressando justamente porque não tem mais aquilo que a Globo gostaria que tivesse: um brasileiro ganhando.

O que acha da cobertura da Indy pela Band?

Não acompanho muito, mas sei que é errática. Às vezes passa, às vezes não, os fãs reclamam muito. Mas a cobertura da corrida no Brasil, dessas que foram realizadas em São Paulo, é a ruindade da Globo multiplicada por dez. Os caras ficam batendo bumbo para eles mesmos o tempo inteiro, “olha aqui o que fizemos, como o Anhembi é lindo, que cenário maravilhoso do rio Tietê”, o tom é ufanista e nacionalista, um exagero total. Aí, acaba a etapa brasileira, os caras esquecem o resto do campeonato. Mas a Indy também não ajuda, é uma categoria que perdeu a importância nos últimos anos. E agora ainda cancelaram a corrida de Brasília. A coisa vai mal.

Na ESPN Brasil, você participava de um programa semanal de automobilismo, o “Limite” (aliás, muito bom, o programa e as trilhas sonoras), mas que acabou saindo do ar. Foi frustrante?

Foi, claro. Porque não havia motivo nenhum para acabar, e o canal ficou sem nada de automobilismo na grade. Foi muito frustrante.

E no Fox Sports? O canal transmite a Nascar e a Formula E (tem mais algum outro evento automobilístico lá??). Um programa que analise/repercuta automobilismo, nos moldes do “Limite”, faria todo o sentido. Você já propôs isso? Ou a casa, mesmo, já te prometeu um programa assim?

Temos WRC também, fizemos o Dakar, até que temos bastante coisa. Como disse, Nascar e Fórmula E têm um tratamento digno da Fox. E sim, já propus um programa, temos projetos em estudo, vai acabar saindo.

Você foi demitido na ESPN Brasil por xingar o Grêmio, clube, e seus torcedores, chegou até a insinuar coisas envolvendo o clube e a comissão de arbitragem da CBF. Tudo por conta de um pênalti marcado contra a sua Portuguesa. Foi um comportamento de torcedor seu, possivelmente não falaria o que você falou ao vivo na TV, só que o Twitter não é só uma rede social para brincar, mas um canal de divulgação de informações sérias, por parte da emissora e também por seus jornalistas. “Furos” são anunciados ali, com link para empresa e tudo. Você divulga seus textos e do seu site Grande Prêmio. Logo, há que se ter cuidado com o que fala. Hoje, você entende isso?

Vamos deixar algumas coisas claras. Não insinuei nada envolvendo o Grêmio e a CBF, quem fez isso foi o Arnaldo Ribeiro, também pelo Twitter, o que acabou motivando a carta de repúdio do Grêmio. Meu caso foi mais prosaico. Apenas xinguei o juiz, como xingaria num estádio. Então houve a reação de outros torcedores e tudo não durou mais do que três minutos. Eu estava de folga, meu Twitter é pessoal e eu torço para a Portuguesa. E comento futebol no Twitter fazendo graça, brincadeira, palhaçada. Claro que eu não falaria aquilo na TV, como nunca falei. Uma coisa é minha atuação como jornalista. Outra, como torcedor. Você escreve no seu portal aquilo que diz num estádio? Ninguém faz isso. Sua definição de Twitter é um pouco ortodoxa. Onde está escrito e determinado que o Twitter “é um canal de divulgação de informações sérias”? Se for uma conta institucional, OK. Se eu fosse o responsável pela conta da ESPN, não xingaria o juiz. Mas uma conta pessoal? Falo o que bem entendo. Twitter não é veículo de comunicação. Facebook não é veículo de comunicação. Essas redes sociais, ou mídias, são quando muito distribuidores de informação, não produtores, replicam conteúdos, e são também canais de expressão pessoal. Podem ser usadas para um monte de coisa, inclusive furos jornalísticos. Mas não só isso.

Eu sou muito autêntico no Twitter, falo de tudo, política, música, cinema, putaria, futebol, automobilismo, cultura, não é uma mídia engessada. Não tenho patrão no Twitter, tenho mais de 60 mil pessoas que me seguem e se interessam pelo que eu tenho a dizer, mesmo que seja para xingar um juiz. Engraçada a formulação de sua pergunta, especialmente no final: “Há que se ter cuidado com o que fala”. Por quê? Se eu não estiver disseminando mentiras, notícias falsas, discursos racistas, qual o problema de falar o que quiser sem grandes cuidados? Entrei num bate-boca com meia-dúzia de torcedores retardados que chegaram até a ameaçar meus filhos, dizendo os nomes deles e indicando endereço e onde estudam. Eu ia ficar quietinho? Mandei todos para o inferno e não me arrependo. Assim, respondendo sua pergunta, não é “hoje” que eu entendo “isso”, seja lá o que for “isso”. Eu já entendia “isso” antes. Meu comportamento no Twitter não mudou em nada por causa desse episódio. Antes dele, eu nunca tinha batido boca daquele jeito no Twitter. Depois, também não. Foi um episódio isolado. Não aceito patrulha de ninguém. Aliás, sua pergunta tem esse tom. Desculpe, mas essa doutrinação não cola comigo. “Hoje você entende isso”… Entendo o quê?

Voltaria a trabalhar na ESPN Brasil com a mesma chefia que ali está atualmente?

Não.

De quem sente mais saudade/falta dos ex-colegas no canal? O “canalha” João Carlos Albuquerque?

Fiz muitos amigos na ESPN, foram oito anos de casa sem atrito nenhum, nem mesmo com o [João] Palomino, que me demitiu. Sempre me dei bem com ele, fui demitido, saí e acabou. Mas sinto falta, claro, da convivência com o João [Carlos Albuquerque], com o Mauro [Cezar Pereira], com o [Paulo] Calçade, com o Dudu Monsanto, com o Cledi Oliveira, com o Amigão, com o Antero [Greco], com o pessoal de trás das câmeras, com o PVC [Paulo Vinicius Coelho]… Ops, o PVC não, ele já está com a gente agora. Além, claro, do José Trajano, o maior jornalista com quem já trabalhei. De certa forma, sucedi o Trajano como editor de Esportes da Folha, entre a gestão dele e a minha houve mais dois, acho. É uma honra enorme. E depois, trabalhar com ele, foi uma verdadeira escola e uma honra maior ainda. Aliás, para ser justo, coloco dois jornalistas com quem trabalhei num olimpo pessoal: o Trajano e o Matinas Suzuki Jr. Profissionais especiais, diferentes, criativos, batalhadores, convictos. Mas voltando à ESPN, sinto falta de todo mundo, em resumo.

Assim como sinto falta de um monte de gente com quem trabalhei em outros lugares. Poderia fazer uma lista enorme, esquecendo algumas dezenas. João Bosco Jardim de Almeida, Nivaldo Freixeda, Anita Natividade, Edgard Alves, Mario Andrada e Silva, Emerson Figueiredo, Pedro Basan, Paulo Cesar Martin, Álvaro Pereira Júnior, Cida Santos, Luciano Borges, Fernando Galvão, Fernando Santos, Flávio Prado, Luis Carlos Quartarolo, Wanderley Nogueira, Clóvis Rossi (hoje moro num apartamento que foi dele…), Paulo Francis, Mario Vitor Santos, Mário Magalhães, Flávio Palhares, Cláudio Zaidan, Ricardo Caprioti, Sérgio Patrick, Carlos Belmonte, Sylvestre Serrano, Milton Neves, Fábio Seixas, Leão Serva, Haisem Abaki, Marcelo Duarte, Carlos Maranhão, Sérgio Kraselis, Antenor Braido, Barbara Gancia, Andrea Fornes, Cristina Zahar… Muita, muita gente.

Não faço inimigos. Gostava de lá, como gostava da Folha, da Pan, da Bandeirantes… O que não quer dizer que eu trabalharia nesses lugares de novo. Em alguns, de jeito nenhum. A Jovem Pan, por exemplo, virou um reduto da direita mais abominável do país. É um lugar de onde me demitiria no exato momento em que certas pessoas entrassem pela porta.

Ao ser contratado pela Fox, recebeu algum tipo de orientação sobre comportamento nas redes sociais, sobre o que pode ou não escrever? Como é?

Nenhuma. A Fox é uma empresa livre e democrática, que respeita a individualidade de quem trabalha lá. E não poderia ser diferente, tendo os comandantes que temos: Eduardo Zebini, Márcio Moron, Mário Quaranta, Rogério Micheletti. Eu conhecia todos, sabia o que ia encontrar. Não iria se fosse diferente, tinha outras propostas, e escolhi a Fox por saber quem estava lá. Hoje, é disparado o melhor canal de esportes para se trabalhar no Brasil. O ambiente é delicioso, somos amigos de verdade e vamos fazer muita coisa legal.

Você fala muito mais de futebol nos programas da Fox, mas não costuma se meter muito a fazer análises mais aprofundadas de times, questões táticas e estratégicas do jogo em si. Como você se define falando de futebol na TV, um pitaqueiro com mais responsabilidade?

Não falo dessas coisas porque não dou importância a elas. Meu interesse por futebol vai em outra direção, o esporte como fenômeno social, antropológico, espaço de convivência. Não ligo para essas coisas do tipo “atacante que joga pelos lados”, “volante de contenção”, “zagueiro que tem bom passe”, porque não vejo futebol assim. Quando assisto a uma partida, é para torcer para alguém, ou contra alguém. Sou um torcedor típico, que tem a sorte de ser jornalista. Temos gente no canal que vê futebol com esse olhar técnico e tático, gente que entende pacas, e eu não acrescento nada ao que eles dizem. Não nisso. Em compensação, sou o cara que mais vai a estádio, que melhor compreende a cabeça do torcedor, porque sou realmente um cara de arquibancada. Sou o cara que defende os times pequenos, que ainda vê o futebol de um jeito lúdico, que se importa com o América do Rio, com o Brasil de Pelotas e com o CRB.

O olhar técnico sobre o futebol não me interessa, me interessa o lado humano, a história dos clubes, as grandes tragédias, o tanto que o futebol mexe com a vida das pessoas. Acho que temos um equilíbrio raro nos nossos programas, porque há espaço para tudo isso. Para caras como o PVC, o Eugênio Leal e o Pascoal, profundos conhecedores de técnica e tática, para caras como o [Fábio] Sormani e o Paulo Julio Clement, sensíveis e preocupados com os rumos do esporte, para caras como o Benja [Benjamin Back] e o Mano [Maurício Borges], que vêm do rádio e possuem uma incrível capacidade de comunicação, além de serem bem informados e muito inteligentes. E para um doido como eu que torce para a Portuguesa e entende como é dura a vida de quem não se entrega e não se conforma com esse processo espúrio de elitização do futebol. No pasarán!

Diante do que falamos sobre como se cobre Fórmula 1 na TV Globo, você se sentiria confortável comentando corridas lá ao lado do ufanista Galvão Bueno…ou “vendedor de emoções”, como ele se define?

A Globo não me contrataria porque minha forma de ver e analisar corrida é muito diferente da linha editorial que ela adota. O Galvão é muito competente no que faz, o ufanismo faz parte do estilo dele. Não tem problema em ser ufanista. Eu não gosto, mas e daí? Milhões de pessoas gostam, é preciso respeitar isso. Agora, se eu fosse comentar corrida com o Galvão, ele desfiaria seu ufanismo e eu, minha racionalidade e meu conhecimento. Não haveria desconforto, ao menos do meu lado. Mas causaria um certo estranhamento no telespectador. “Lá vem o Felipe pra brigar pela vitória!”. “Galvão, o Felipe está em sétimo e vai chegar no máximo em sexto”… Ia ficar esquisito.

O blog repercutiu em 2013 uma edição do “Jornal Nacional” no qual se fez merchan ao vivo ali das marcas patrocinadoras da Fórmula 1, algo bem incomum em se tratando de Globo, e vez ou outra se fala sobre a emissora abrir mão da categoria. Como você analisa isso? Basicamente, F1 continua lá enquanto tiver quem patrocine, independentemente de baixa audiência?

Não lembro direito disso, mas se é o que estou pensando, o JN anunciou quais seriam seus anunciantes. Achei meio bobo. A Globo não vai abrir mão da F-1, tem contrato vigente e os horários das corridas não atrapalham muito a grade. O caminho, a médio prazo, é passar tudo para o Sportv, acho. Quanto aos patrocínios, os cotistas não compram a F-1 porque amam corridas e automobilismo. Na verdade, eles compram o pacotão de entrega de mídia, que inclui comerciais nos telejornais da casa e em outros programas o ano inteiro. Na ponta do lápis, deve ficar mais barato comprar a F-1 e levar de lambuja um monte de propaganda nos telejornais do que comprar os horários nobres diretamente.

Alguma história engraçada envolvendo Galvão durante encontros de vocês em coberturas de F1?

Uma vez, na Austrália, o Galvão começou a pedir uns vinhos caros e nós, os duros das rádios e jornais, começamos a nos preocupar com a conta daquele jantar em Melbourne. Depois de umas e outras, ele levantou e foi ao banheiro. Disse aos colegas: “Se a gente pagar essa conta, estamos fodidos. Vou dar um jeito de o Galvão pagar, senão a verba da viagem toda acaba aqui mesmo”. E era quinta-feira, ainda. Quando ele voltou, eu comecei a falar do Luciano do Valle. “Galvão, o Bolacha tá rico pacas. Comprou uma mansão em Porto de Galinhas, tem avião, helicóptero, cabeças de gado”, e falei um monte, e ele “você tá louco, não é tudo isso não”, e a discussão foi embora, até que eu disse: “Os caras da Bandeirantes dizem que ele paga todas as contas dos jantares nas viagens…”, e foi batata: “Ah é? Então hoje quem paga isso aqui sou eu!”. E pediu mais uma garrafa de vinho. Nos livramos de uma boa. E o vinho era muito bom, devo reconhecer. Galvão sabe escolher.

E do Reginaldo Leme, alguma história boa?

Com o Regi… O Regi é um cara excepcional, um companheiro de viagem extraordinário, divertido, culto, afável, solidário. São várias historinhas, as memórias que tenho dele nas viagens são mais ligadas à convivência em si do que a algum episódio em especial. Mas vá lá… Reginaldo é muito esquecido, um dia saímos do hotel em Budapeste, dei carona a ele, e quando já estávamos pegando a estrada para Hungaroring ele lembrou que tinha esquecido algo no quarto. Voltamos para o hotel, ele subiu e cinco minutos depois estava de volta. Entrou no carro e disse “vambora!”. E eu: pegou o que tinha de pegar? Era um gravador, uma bolsa, sei lá. E ele: “Putz! Não!”. O cara subiu no quarto, desceu e esqueceu de novo. É uma figura, um dos grandes amigos que tenho, um exemplo de seriedade e entusiasmo pelo que faz. O Reginaldo tem um papel muito importante na história do jornalismo esportivo brasileiro. E não é só na F-1, não.

O blog agradece pela entrevista, Flávio.

My pleasure.

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