Barrichello e a Ferrari: tudo o que não faz sentido

Gerson Campos
Pit Paddock
Barrichello lidera o GP da Áustria de 2002. Pouco depois, cede o lugar a Schumacher
Barrichello lidera o GP da Áustria de 2002. Pouco depois, cede o lugar a Schumacher

Rubens Barrichello falou novamente sobre sua passagem pela Ferrari. Ou melhor: falou sobre uma hipotética volta a Maranello. Isso mesmo: uma volta à Ferrari. O mote foi uma enquete promovida pela revista italiana "Autosprint", que perguntava qual seria o substituto ideal para Felipe Massa na equipe — vai bem o moral de Massa com a imprensa italiana, não? Barrichello venceu a enquete.

Questionado sobre a "vitória" por Reginaldo Leme no programa "Linha de Chegada", do SporTV, Rubens não usou meias palavras. "Se me chamassem de volta, eu iria. Foi a melhor equipe em termos de respaldo, criatividade, foi tudo do melhor."

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Não vi o programa (um dos poucos de qualidade quando o assunto é automobilismo, aliás), mas fui buscar o vídeo depois. Nesse interim, pensei algumas coisas. Por exemplo: se Barrichello reclamou tanto durante seu tempo de Ferrari, disse que era "apenas um brasileirinho" contra o mundo e deu a entender que toda a prioridade dentro da equipe era de Schumacher, como de uma hora para a outra a Ferrari vira "a melhor equipe, tudo de bom?".

De duas, uma: ou ele acredita que com Alonso e Domenicali as coisas seriam diferentes do que eram com Schumacher e Todt ou estaria disposto a ser segundo piloto outra vez.

Vamos por partes. Primeiro: a Ferrari ama Alonso e jamais vai contrariá-lo. Ele é o homem forte, aquele que Luca di Montezemolo considera o melhor piloto do mundo, o responsável pelos títulos, o cara cujo contrato vence só em 2016. Querendo ou não, Barrichello voltaria para ser coadjuvante.

Segundo: Rubens, hoje, não é o tipo de piloto que interessa à equipe. Não é segredo para ninguém que a ideia é preparar um substituto para Alonso, que já tem 30 anos e não é eterno. Sergio Pérez, da Sauber, é o mais cotado. Massa, por ora, não está nessa lista. Barrichello, com quase 40 anos, menos ainda.

Constrangedor: Schumacher empurra Barrichello para o lugar mais alto do pódio no GP da Áustria de 2002
Constrangedor: Schumacher empurra Barrichello para o lugar mais alto do pódio no GP da Áustria de 2002

E ainda tem muito mais coisas que fazem tudo ter menos sentido ainda. Barrichello protagonizou  situações bizarras dentro de Maranello. No GP da Áustria de 2002, foi responsável pelo episódio mais constrangedor dos últimos anos, ao deixar Schumacher passar em cima da linha de chegada.

Reclamou, reclamou, venceu algumas provas, reclamou e deixou o time em 2005, depois de uma temporada em que a Ferrari fez um dos piores carros de sua história.

Aí veio a história do livro que Barrichello escreveria sobre o tempo em que foi piloto da Ferrari, revelando bastidores de Maranello e contando tudo a que teve de se "submeter" — recebendo salários na casa dos US$ 8 milhões, que fique registrado. Algum tempo depois, Rubens disse que havia desistido da história do livro, alegando que ele poderia prejudicar seus filhos se eles viessem a ser pilotos. Belíssima decisão. O que passou, passou. Eram todos adultos, patrões e empregados muito bem remunerados. Ninguém foi forçado a nada no porrete.

Agora, Barrichello voltou com a história do livro. Disse que vai fazê-lo, mas com uma certa "censura". "Tem muita coisa que preciso pensar quando for fazer o livro. Mas as pessoas vão saber de algumas pimentinhas".

Rapaz, quanta coisa mal resolvida. Quem sou eu para dizer se alguém deve ou não revelar "segredos" de uma empresa como a Ferrari, escrever um livro sobre isso. Mas, se vai escrever, que escreva logo tudo, não? Sei lá, mas um livro com o título "Meias Verdades Sobre a Ferrari — Saiba Quase Tudo Sobre os Anos de Barrichello na Equipe" não me parece lá muito atrativo.

Antes de escrever qualquer livro, Barrichello precisa virar algumas páginas de sua vida, isso sim.

300 km/h

- Barrichello não consegue esconder nem por uma entrevista a vontade de voltar à Fórmula 1. É um direito dele. Mas é algo que não parece permitir a ele dedicar-se totalmente à Indy e abraçar aquilo como um desafio a longo prazo, como deve ser feito;

- Robert Kubica, ainda em recuperação, é outro que continua na lista da equipe para assumir o lugar de Massa em 2013;

- Sim, é uma realidade: as chances de Felipe permanecer em Maranello são escassas

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