Nocaute

Fatos e ficções – UFC no Brasil

Wagner Silva
Nocaute

No próximo dia 3 de agosto, o UFC voltará ao Brasil para o UFC 163, ou UFC Rio 4. Será o nono evento realizado no Brasil, o oitavo em um intervalo de apenas dois anos - o primeiro foi em 1998, em São Paulo. A popularização do MMA como um todo e do UFC no Brasil fez com que algumas conclusões fossem tiradas. E, dentre tudo aquilo que li e ouvi, resolvi pegar algumas afirmativas e, dando sequência à série, classifiquei o que é fato e o que é ficção. Confira:

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O UFC realmente veio para ficar no Brasil - Fato. Disso não há dúvida. Depois do evento que marcou a volta da maior organização de MMA do mundo ao Brasil, em 2011, tivemos três eventos em 2012 e, além de três eventos já realizados em 2013, há outros dois oficialmente confirmados e um saindo do papel. E ainda há chance de aparecer outro, fechando em sete o número de aparições do UFC no Brasil neste ano, conforme o que foi prometido por Dana White. E não há qualquer indicativo de que este número diminua em 2014.

A sigla UFC já está na boca de todos os brasileiros - Ficção. O MMA já cresceu no Brasil? Muito. Já ultrapassou outros esportes? Quase todos. Mas ainda há espaço para crescimento. Muita gente ainda desconhece o esporte e sua maior organização, o que é até natural em um país que se encaminha para os 200 milhões de habitantes. Além de pessoas que desconhecem completamente, há outras que só ouviram falar e as que se recusam a conhecer, pelo pré-conceito criado por uma parcela da sociedade, rotulando o esporte como violência gratuita. Mas isso não é uma aberração. Nem mesmo nos EUA, onde o MMA é legalizado em 47 dos 50 estados e popular em quase todos eles, o UFC é conhecido por todos. Tive a oportunidade de estar duas vezes na Florida em 2012 e uma vez na Louisiana, neste ano. E, em ambos os lugares, conheci muita gente que não sabia sequer do que se trata o UFC. Isso no país onde o UFC foi criado e se popularizou muitos anos antes de voltar ao Brasil. Até mesmo lá, o processo de popularização continua.

Os eventos do UFC no Brasil viraram porta de entrada para muitos lutadores - Fato. Desde o primeiro UFC Rio, são vários os brasileiros que ganham chances na maior organização de MMA do mundo, seja compondo cards preliminares, seja escalados de última hora para cobrir ausências por lesão - é muito raro ver um gringo escalado de última hora para lutar pelas bandas de cá. É só pegarmos os números da quantidade de brasileiros no UFC antes e depois que eventos voltaram a ser realizados no país e vamos perceber este fenômeno. Revelamos muitos talentos e, sem dúvidas, ter o UFC por aqui é fundamental para que uma parcela maior deles seja aproveitada.

A estrutura do UFC no Brasil é igual à dos EUA - Ficção. Apesar da evolução estrutural dos ginásios brasileiros, não dá para comparar com as arenas norte-americanas. Cobri todos os eventos do UFC no Brasil, exceto o de Fortaleza, e, até mesmo na HSBC Arena, o único local que lembra o que temos na Terra do Tio Sam, faltam algumas coisas que encontramos nos States. Há muito improviso e muitas estruturas provisórias montadas para a realização de um evento do UFC no Brasil. Em Fortaleza, soube que não havia ar condicionado no ginásio (terá sido o primeiro UFC da história sem ar condicionado). Em Belo Horizonte, os fãs pagaram caro e, em sua maioria, sentaram em arquibancadas de cimento. Isso sem falar em estruturas improvisadas para coletivas e outras atividades. Por outro lado, pude cobrir um evento no MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas e, lá, tive mais facilidade para gerar material sozinho do que com equipes maiores no Brasil. Acessibilidade, funcionários prontos para dar qualquer tipo de informação, Internet a todo vapor, enfim, são inúmeras as vantagens das arenas americanas. Mas não dá para negar que estamos evoluindo. A HSBC Arena é uma prova disso. E a Arena Jaraguá foi uma surpresa muito positiva.

O Rio de Janeiro ainda está à frente de outras cidades brasileiras - Fato. O Rio possui vantagens inegáveis em relação a outras cidades. Possui a melhor arena, para começo de conversa. A HSBC Arena é um palco bem parecido com os que recebem eventos do UFC, jogos da NBA e outras atividades esportivas nos EUA. Tive tal impressão desde a primeira em que estive lá, nos Jogos Pan-Americanos de 2007. E isso se estende à estrutura de backstage e para a imprensa. Além de estrutura hoteleira, fãs ensandecidos e o fato de ser uma cidade ótima para turistas, o Rio tem uma grande vantagem: os lutadores adoram a capital fluminense. Isso sem mencionar que um UFC no Rio ainda é mais fácil de ser comercializado. Não é à toa que, desde o retorno da organização ao Brasil, dos cinco eventos de pay-per-view - aqueles que, na teoria, possuem os melhores cards - realizados, quatro terão sido no Rio de Janeiro após o UFC 163.

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O Brasil já é um dos principais mercados do UFC no mundo - Fato. Dana White já percebeu o potencial que o MMA tem em terras tupiniquins. Somos um país com alguns nomes já consagrados, com a capacidade de revelar muitos talentos e, ainda por cima, somos o berço do jiu-jitsu. Além disso, nossa economia vive um momento bem melhor do que a da Europa. O clima criado pelos fãs brasileiros é sem igual. Invariavelmente, os ingressos para eventos do UFC por aqui se esgotam rapidamente. Assim, já nos tornamos o segundo país que mais recebe eventos do UFC no ano, atrás apenas dos EUA. Por outro lado, o Canadá ainda nos supera em termos de relevância dos cards - todos os três eventos marcados para lá em 2013 foram ou serão de pay-per-view - mas, de qualquer forma, estar à frente de Inglaterra, Japão, China e de todo o continente europeu é motivo de muito orgulho.

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UFC Rio 4: nono evento no Brasil traz reencontro de José Aldo com a torcida.

Muitos gringos não gostam de lutar no Brasil - Fato. 9 horas de viagem, clima bem diferente, torcida hostil, estrutura que ainda fica devendo um pouco à que se encontra nos EUA. Nem todos os atletas se empolgam muito quando são chamados para lutar por aqui. Ainda mais quando os eventos não são no Rio de Janeiro. Vemos muitos estrangeiros escalados para cards no Brasil se lesionando e provocando um incessante troca-troca, geralmente abrindo vagas para lutadores brasileiros. O card do UFC Rio 4 já mudou bastante. Só no card principal teremos dois brasileiros substituindo gringos. Nem acredito que todos eles finjam estar impossibilitados de entrar no octógono. Mas, na minha opinião, sempre rola um "migué" entre um caso e outro.

Em breve, poderemos ver campeões de outros países, como Jon Jones, lutando no Brasil - Ficção. O único país que vê isso acontecendo é o Canadá, dada a proximidade geográfica com os EUA. Em setembro, Jon Jones fará sua terceira defesa de cinturão em solo canadense. Brasileiros também são muito acionados por lá. Recentemente, tivemos uma exceção no Japão. Mas aqui no Brasil, além da já discutida questão da distância, ainda há o fato de termos nossos próprios talentos. Mesmo um atleta sem cinturão, como Vitor Belfort, Wanderlei Silva e Rodrigo Minotauro, chama muito mais atenção da mídia e do público locais do que campeões como Jones, Cain Velasquez ou Georges Saint-Pierre. Isso sem mencionar o fato de ainda termos dois campeões em José Aldo e Renan Barão.

Mais cidades menores poderão ter chance de receber um evento do UFC - Fato. Para isso, basta ter uma arena em condições de receber o UFC. Mesmo usando a estrutura hoteleira de Joinville e outros serviços de cidades vizinhas, Jaraguá do Sul foi aprovada pela organização e, em breve, pode receber um novo evento. Neste ano, chegou a circular um rumor apontando para um evento em Campinas. Portanto, não há qualquer coisa que impeça o UFC de desembarcar em cidades que não sejam capitais ou grandes centros.

Os cards de eventos do UFC no Brasil são de primeiro nível - Ficção. Não vamos confundir bom nível com primeiro nível. Não quero desmerecer os atletas que lutam no Brasil, mas a verdade é que ainda faltam grandes nomes. Nomes que vendam, por exemplo, pay-per-views. Mesmo nos pay-per-views brasileiros, o nível às vezes não é tão alto, exceto pelo UFC Rio 1, que teve Anderson Silva, Rodrigo Minotauro e Maurício Shogun no card principal. Mas, se compararmos com a quarta edição realizada na HSBC Arena, veremos uma diferença brusca. Vamos deixar de lado os substitutos, pois isso já não é culpa do UFC. Mas muitos atletas que entram em cards principais no Brasil não fariam o mesmo em eventos no exterior. Repito: não estou desmerecendo os atletas que lutam no Brasil. Além disso, há o lado positivo, pois muitos deles acabam ganhando oportunidades únicas de lutas com maior destaque.

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