Presidente da Conmebol promete diminuir diferença entre Libertadores e Liga dos Campeões

Juan Ángel Napout cogita final da Libertadores em partida única (Jorge Adorno/Reuters)

Um paraguaio com jeitão brasileiro, que fala português melhor do que muito jogador estrangeiro em atividade no país. Assim é Juan Ángel Napout, presidente da Conmebol desde agosto do ano passado — ele assumiu interinamente após a demissão de Eugenio Figueredo e foi eleito em março deste ano. O dirigente mais importante da América do Sul esteve na festa de encerramento do Paulistão na última segunda-feira e atendeu ao BLOG com exclusividade. E sem cerimônia. Ele prometeu linha-dura contra a indisciplina de times e jogadores — contou que alguns dirigentes já lhe telefonaram para pedir menos rigor —, admitiu aumentar os prêmios oferecidos pela entidade e revelou a criação de cabeças de chave para a edição de 2016.

BLOG_ O senhor nasceu e sempre viveu no Paraguai. Onde aprendeu a falar tão bem o português?
JUAN ÁNGEL NAPOUT_ Os dirigentes brasileiros sempre se surpreendem quando conversam comigo. A verdade é que eu adoro o Brasil. Meu pai chegou a morar seis anos em São Paulo, na década de 60. Ele era contador e eu vinha visitá-lo. E há 44 anos que eu passo as férias em Santa Catarina com toda a família.

É verdade que a ideia de lançá-lo candidato à presidência da Conmebol nasceu no Brasil?
É sim. Tudo começou aqui, durante a Copa do Mundo do ano passado. E digo mais: foram Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Reinaldo Carneiro que me incentivaram.

Então, sua relação com a cúpula da CBF é ótima?
A melhor possível. Tenho todos como grandes amigos.

Falando de futebol brasileiro e paraguaio, que o senhor conhece bem. Dá para o Guaraní eliminar o Corinthians nas oitavas de final da Libertadores – venceu o jogo de ida em Assunção por 2 a 0?
Claro que dá. A Libertadores do ano passado mostrou que tudo é possível. O Vélez, que havia feito a melhor campanha da fase de grupos, foi eliminado no primeiro mata-mata pelo Nacional, do Paraguai, que havia sido o último classificado.

O senhor acredita mesmo?
O Guaraní vive um momento de ascensão. Começou a Libertadores empatando em casa com o Sporting Cristal (2 a 2), depois levou de 4 a 1 do Racing e começou a se recuperar. Chegou ao última rodada sem poder perder e arrancou um empate com o Cristal, no Peru. O Guaraní já cumpriu sua parte e não tem mais nada a perder.

Qual dos brasileiros tem mais chance de ser campeão?
Difícil responder, mas entendo que Corinthians, São Paulo, Cruzeiro, Atlético-MG e Inter são fortíssimos candidatos. Até o Atlético-MG, que começou tropeçando, conseguiu avançar para as oitavas de final.

Esta edição é a mais disputada dos últimos tempos?
Com certeza. A comparação com 2014 diz muito. As semifinais no ano passado tinham quatro times que nunca haviam sido campeões. Neste ano, dos 16 clubes que chegaram ao mata-mata, dez já foram campeões continentais.

Como recebe as críticas de que a Libertadores ainda tem um quê de amadorismo?
Posso garantir que vamos melhorar a Libertadores em todos os sentidos. Na parte financeira, organização, estádios e árbitros, segurança… Há muita coisa a ser feita.

Qual sua prioridade como presidente da Conmebol?
A primeira coisa é melhorar a arbitragem e já percebemos evolução com a ajuda de uma nova equipe, que cuida desse tema, composta pelo brasileiro Wilson Luiz Seneme, pelo colombiano Oscar Ruiz e pelo uruguaio Jorge Larionda. Eles são instrutores da Fifa e têm ajudado a encontrar caminhos.

Até quando veremos policiais com escudos para proteger o jogador visitante na cobrança de um escanteio?
Segurança é um tema complicado, mas vamos trabalhar muito para erradicar a violência, o racismo e a discriminação do futebol sul-americano. Temos contatado governos, federação, responsáveis pela segurança… E o contingente de pessoas cuidando disso nos estádios já aumentou.

A parte de disciplina também é alvo de críticas.
Isso eu posso dizer que já mudou. Tanto que criamos o Tribunal de Disciplina e de Apelação. Coisas que eram aceitas antes não são mais hoje. Pode escrever: teremos tolerância zero com a indisciplina. Inclusive, vários presidentes de clube já vieram até mim para dizer que estamos punindo demais.

Cogita aumentar as premiação em dinheiro?
Já triplicamos os valores em comparação com 2007. O problema é que o futebol brasileiro vive uma realidade financeira muito melhor que o restante da América do Sul. Mas falei com a TV e melhoraremos os prêmios.

É possível evoluir em relação à qualidade dos estádios?
Os estádios têm de ser melhorados. A gente vê algumas arenas novas no Brasil, enquanto há outros estádios bem ruins na América do Sul. O gramado também precisa ser impecável.

Uma das ligas de futebol que mais crescem no mundo é a americana. Já pensou em incluir os clubes dos Estados Unidos na Libertadores?
O problema é a distância. Não é uma coisa fácil de se contornar. Mas os times de lá já enxergam a Libertadores como os mexicanos, ou seja, a veem como o grande torneio para se exibir.

Então, a competição poderia ser inchada em breve?
Não, não. Esse formato com oito grupos de quatro times é exitoso. Não mexeremos.

Já discutiu a hipótese de permitir que dois times de um mesmo país voltem a se enfrentar na final?
(Pensativo) Era assim antes. Tanto que tivemos finais entre São Paulo e Atlético-PR, São Paulo e Internacional. Depois, mudamos. Essa alteração não dependeria só de mim.

E quais mudanças pensa em colocar em prática logo?
É seguro que no ano que vem teremos um ranking dos clubes, de acordo com o desempenho nas últimas edições. Criaremos cabeças de chave na hora do sorteio. O que aconteceu agora, com um grupo com três campeões da Libertadores — Corinthians, São Paulo e San Lorenzo — não pode se repetir.

Algo mais?
Faz cinco anos que a Conmebol estuda realizar a final em jogo único, em um país já definido com antecedência, como na Liga dos Campeões. Só que existem particularidades na América do Sul, que é muito maior do que a Europa. Precisaríamos estudar se é viável o traslado de 20 mil torcedores de cada time para outro país.

A criação da Libertadores sub-20 sairá do papel?
Ela já é uma realidade e estreia em 2016. A diferença é que será em um país só. Começaremos com o Paraguai, no segundo ano provavelmente iremos ao Uruguai e queremos ir a Florianópolis em 2018. O torneio terá 12 times, sendo dois locais e o campeão de cada país.

Falando de Copa, quando imagina que o continente voltará a receber o torneio?
Nossa intenção é que a América do Sul receba a Copa do Mundo de 2030. Falaram da união de Uruguai e Argentina, mas nas últimas reuniões a Argentina não pareceu tão entusiasmada. Então, entendo que o Uruguai deve ser candidato.

Em 29 de maio, ocorre a eleição para a presidência da Fifa. A Conmebol vai votar no Joseph Blatter?
Ainda não me sentei com os representantes das dez federações sul-americanas para discutir o assunto. O mais importante é todos votarem juntos.

E quais as reivindicações da América do Sul?
Nossa maior preocupação é com o número de vagas na Copa do Mundo. E temos dado demonstração da força do continente, já que os cinco participantes que foram à África do Sul chegaram às oitavas de final e, na última Copa, apenas o Equador caiu na primeira fase. Tivemos quatro seleções nas oitavas, três nas quartas, dois na semifinal e uma finalista.

A goleada por 7 a 1 contra a Alemanha no último Mundial mostra que o futebol brasileiro parou no tempo?
Não acho. Tanto que todos os cinco brasileiros conseguiram passar para as oitavas de final da Libertadores deste ano, diferentemente do ano passado, quando três não conseguiram, e na Sul-Americana, quando só o São Paulo estava nas quartas de final. São momentos.

Para finalizar: o senhor afirmou que admira o futebol brasileiro. É fã de algum atleta em especial?
Eu gosto de muitos jogadores , mas amava mesmo assistir aos jogos dos times brasileiros nas décadas de 1960 e 70. Então, não dá para eleger outro jogador que não seja o Pelé. Ele me encantava demais.

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