Campeão no Verdão, Matheus Sales já foi do São Paulo e esnobou o Santos; conheça melhor o volante

Blog do Jorge Nicola - Yahoo Esportes

Matheus Sales tem o menor salário entre os titulares (Geraldo Bubniak/Gazeta Press)

Nenhum jogador tinha mais motivos para sentir o peso da final da Copa do Brasil, na última quarta-feira, do que Matheus Sales. Afinal, o volante palmeirense, de 20 anos, havia feito só cinco jogos como profissional até então. O desconhecido brilhou, anulando Lucas Lima. Mostrou personalidade digna de veterano.

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A fim de descobrir os segredos da grande novidade alviverde nas finais contra o Santos, a coluna conversou com Matheus Sales na tarde de quinta-feira, na Academia de Futebol. E o papo rendeu uma série de revelações.

A começar pela idolatria do garoto ao capitão Zé Roberto. A ponto de o volante ter incluído o nome do capitão palmeirense em seu endereço de e-mail. “Eu sempre o admirei muito. Isso bem antes de ele ser contratado pelo Palmeiras”, explica o jogador, que ainda mora com os pais. Por falar nisso, o primeiro grande objetivo de Matheus Sales fora dos campos é comprar uma nova casa para seu Dagoberto e dona Fátima: “A gente mora a 47 km daqui. Com trânsito, levo 2h30 para chegar”, conta.

Dono do menor salário entre os titulares do time de Marcelo Oliveira, o volante também contou que passou quatro anos nas categorias de base do São Paulo — foi dispensado do dia para noite, em 2008. Ele ainda foi aprovado em um teste no Santos, mas desistiu do clube para não ficar longe de casa.

BLOG_ Já caiu a ficha de que você é campeão da Copa do Brasil jogando como titular?
MATHEUS SALES_ Para falar a verdade, ainda me surpreendo quando penso nisso. Eu não esperava mais que fosse ter uma chance de jogar nesta temporada. Muito menos como titular e que ainda seria campeão da Copa do Brasil. Aconteceu tudo depressa.

É verdade que você pediu para deixar o Palmeiras no primeiro semestre deste ano?
É sim. Foi o meu momento mais difícil no Palmeiras. Eu havia subido para o time profissional no fim do ano passado, mais ou menos na mesma época deste ano. Só que voltei para a base em janeiro, para jogar a Copinha e não subi mais.

Acabou desanimando?
Exatamente. Eu me desanimei, porque vi o Palmeiras contratando um monte de jogador para a minha posição. Pintou a proposta da Portuguesa para disputar a Série C e eu já tinha até aceitado. Mas o João Paulo (coordenador da base) insistiu muito para eu ficar, disse que teria mais oportunidades, que seria um ano diferente…

E você acreditou?
Para ser bem sincero, não muito. Fiquei porque ele estava pedindo. E hoje posso dizer que deu supercerto.

O mais curioso é que, até um mês e meio atrás, você nem estava no elenco principal.
Foi tudo muito rápido nesse fim de ano. Quando o Arouca se machucou (no início de outubro), me chamaram para treinar com os profissionais. Estreei contra o Sport (em 24 de outubro, pela 32 rodada), fui titular na semifinal (da Copa do Brasil) contra o Fluminense e depois estive em todas. Só não enfrentei o Vasco (em partida que os reservas disputaram).

O assédio na rua já mudou?
Completamente. Antes, eu ia ao shopping ou a qualquer lugar e ninguém falava comigo. Agora, depois do título, me reconhecem toda hora. Estava vindo para o CT hoje mesmo (sexta-feira) e um motorista do carro ao lado parou e me pediu uma foto. Quase todo mundo olha. Mudou 100%.

Já comprou a geladeira e o sofá que sua mãe havia pedido caso você fosse campeão?
Ainda não, mas vou resolver isso nos próximos dias. Já estava combinado, né?

Você é dono do menor salário entre os titulares do Palmeiras. O que pretende fazer quando ganhar um aumento?
Primeiro, tenho de ajudar minha família. Em janeiro ou fevereiro, pretendo comprar um apartamento ou uma casa para meus pais. Assim, a gente consegue sair do Itaim Paulista (bairro no extremo leste da cidade). São 47 km daqui e, com trânsito, chego a gastar 2h30 para vir e outras 2h30 para voltar para casa.

Você já tem carro?
Já sim. Comprei no começo do ano. Antes, era bem complicado chegar até o CT da base, lá em Guarulhos. Eu pegava um ônibus de casa até a estação de trem em Itaim Paulista, ia de trem até a Engenheiro Goulart, pegava uma lotação até a Ponte dos Nordestinos… e ainda atravessava a ponte a pé, para esperar o ônibus do Palmeiras que vinha da Barra Funda e seguia pela Marginal Tietê.

Você e seus pais moram de aluguel?
Não, a casa é nossa. Meu pai (Dagoberto) trabalhou por muitos anos no prédio do Deic e agora se aposentou. Além dele, também moram comigo a minha mãe (Fátima) e meu irmão do meio, o Felipe.

E você já tem uma filha de 3 anos, né?
É a Júlia. Ela mora com a minha mulher bem perto de casa. Mais para frente, também penso em casar para morar com as duas ao meu lado.

Por que você foi dispensado da base do São Paulo?
Nem eu sei. Estávamos na metade do ano de 2008 quando eu e mais alguns garotos fomos cortados. Não teve explicação. E eu já estava há quatro anos no São Paulo. Cheguei lá com 9 anos, fiquei um tempo treinando no Morumbi e depois passei a treinar em Cotia.

Chegou a pensar em abandonar o futebol?
Para falar a verdade, fiquei quase um ano sem jogar bola, porque não tinha clube. No fim de 2008, fiz avaliação no Santos e passei, mas era para voltar no começo do outro ano. Acabei não voltando, porque não queria ficar longe da minha família. Aí, na metade de 2009, o professor Márcio, que me conhecia do São Paulo, me colocou para fazer um teste no Palmeiras. Passei, fui contratado para o sub-15 e estou aqui desde então.

Você ainda ganha como atleta da base. Já pensa em pedir um aumento salarial?
Sou bem tranquilo em relação a isso. Vou deixar que meu irmão e o Décio (agente dele) cuidem dessa situação para mim. Mas tenho contrato longo, até o fim da temporada de 2018.

Quais são seus planos em relação ao Palmeiras?
Eu gosto muito desse clube, então, quero confirmar meu espaço, fazer história, ganhar muitos títulos… Somente depois de tudo isso, vou cogitar sair para o exterior. Ah, também quero disputar uma Copa do Mundo pela seleção, como todo garoto que cresceu gostando de futebol.

Você tem algum grande ídolo dentro do futebol?
Eu sempre admirei muito o Zé Roberto. E isso começou bem antes de ele vir para cá. Se eu contar a história…

Conte, por favor.
Sou tão fã do Zé Roberto que o nome dele está no meu e-mail. É matheuszeroberto@… Minha família também o adora, tanto que, lá atrás, minha mãe comprou um livro que ele escreveu. Eu me identifico pelo futebol e pela pessoa de caráter que ele é.

E o Zé Roberto já sabe de tudo isso?
Minha mãe contou tudo. Sou tímido, então nunca falaria. Aí, outro dia houve um churrasco em Atibaia com os familiares e minha mãe abriu o jogo para ele. O Zé Roberto deu risada e ficou conversando com a gente um bom tempo.

Uma das coisas que mais chamaram a atenção foi sua personalidade para jogar a final contra o Santos, tendo de marcar o Lucas Lima diante de 40 mil torcedores. Você não se apavorou?
A gente não pode ter medo para fazer as coisas. Confesso que fiquei ansioso da hora do almoço até a ida para o estádio, mas, quando a bola rola, sou sempre bem tranquilo, com personalidade. E minha confiança tem a ver com a dedicação aos treinos.

Antes de você estrear, o Palmeiras contratou um monte de volantes: Gabriel, Arouca, Andrei Girotto, Amaral, Thiago Santos… Por que os garotos da base têm tão poucas oportunidades no Palmeiras?
Mas eu acho que isso está mudando de uns tempos para cá. Tanto que, na final, tínhamos eu, João Pedro, Gabriel Jesus, Lucas Taylor… O Marcelo Oliveira dá bastante moral para a base e todo mundo da diretoria tem apoiado: o Cícero de Souza, o Alexandre Mattos, o presidente (Paulo Nobre), o João Paulo…

Você só tem 20 anos. O que faz quando não está jogando?
Terminei os estudos e penso no futuro em fazer uma faculdade. Adoro jogar videogame e ficar esparramado no sofá. Tenho um Playstation 4 e jogo sempre Fifa e NBA.

É melhor na vida real ou no videogame?
Não passo vergonha no videogame. Inclusive, jogo on-line. Mas ainda estou aprendendo, na comparação com o futebol de verdade.

Tem algum volante em quem você se espelha?
Não copio ninguém. Assisto bastante ao futebol europeu e procuro olhar os grandes times, como Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique, para entender como os volantes jogam, principalmente com a bola. Admiro o Busquets, o Toni Kross e o Yayá Touré.

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