Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era

Vou ao estádio para torcer porque não posso entrar em campo. Preferia estar fardado com as cores do meu time, dando carrinho, correndo, botando o dedo na cara do juiz. Como não posso, grito para que aqueles onze desgraçados o façam por mim.

Eu também jogo, mas da arquibancada. Grito, vaio o adversário, oriento a marcação, tiro a bola com os olhos, canto bem alto quando meu time ataca, que é pra saberem com quem estão lidando. Sacudindo as mãos, sei que estou afastando o perigo da nossa grande área. Desenvolvi um sinal secreto com os olhos que é fatal para desarmar o adversário. Funciona, é claro que funciona.

Torço com intensidade, disciplina tática e compactação. Sou um jogador que torce, ou um torcedor que joga. Tento, pelo menos. Com as armas que tenho. E assim como os que entram em campo, também preciso estar concentrado durante os 90 minutos na posição em que a vida me escalou para jogar. Na arquibancada, como um falso ponteiro-esquerdo.

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(As novas arenas. Foto: Pedro Martins/Agif/Gazeta Press)

Procuro nunca abandonar meu posto. Vou ao banheiro antes que o jogo comece, para evitar que a cerveja ingerida do lado de fora do estádio faça efeito ali pela metade do primeiro tempo. Comida, só em caso de muita fome e no intervalo, único momento em que concedo sair de minha posição, isso quando o time não precisa que meu grito seja ouvido lá do vestiário.

Não preciso de distrações, estímulos ou passatempos. Estou ali para jogar, digo, torcer. Dá no mesmo.

Não quero o jornal promocional da partida. Não preciso de bastões, bandeirolas ou qualquer outro adereço para torcer mais. A garganta basta. Não preciso que o locutor do telão me diga o que fazer, não quero que o sistema de som me diga o que cantar. Nem se incomodem em me convidar para subir aos camarotes, lá eu não vou conseguir jogar, digo torcer, dá no mesmo, como aqui.

Não, não quero o copo da promoção, muito obrigado. Não quero aparecer no telão. Não é hora para fotos, meu amigo. Larga esse celular e te concentra no jogo, por favor. Olha o que o juiz está fazendo com a gente. Pipoca, cachorro quente, pizza, sushi? Não, obrigado. Sushi? Meu senhor, o senhor já levantou três vezes só no primeiro tempo. O time nessa situação e o cara tomando cerveja sem álcool. O jogo, por favor. Olha lá, olha lá. Uuuuuhhhh!

Vou ao estádio para torcer, como disse. Não para consumir, não para me comportar conforme as ideias do departamento de marketing. Entendo que não haja mais lugar para mim. É do jogo. Só não adianta me chamar de volta quando o time precisar.

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