História de um abraço

Daniel Cassol
Daniel Cassol

O River Plate renasceu. Em um Monumental de Núñez repleto na noite desta quarta-feira, venceu o Atlético Nacional por 2 a 0, gols muito parecidos, primeiro com Mercado, depois com Pezzella, em dois escanteios cobrados por Pisculichi. Assim, conquistou a Copa Sul-Americana pela primeira vez. E voltou a dar uma volta olímpica internacional, 17 anos depois da conquista da Supercopa Sul-Americana e três anos depois do rebaixamento para a segunda divisão do futebol argentino.

Foi uma grande decisão. O time da casa começou no ataque e só não inaugurou o placar desde cedo porque Armani, torcedor confesso do River mas goleiro do Atlético Nacional, fechou o gol. Os colombianos reagiram e chegaram a ameaçar o River Plate, que também pôde contar com seu goleiro, Barovero. No segundo tempo, os millonarios decidiram que era hora de abreviar o drama, e no espaço de cinco minutos chegaram aos dois gols que fizeram explodir o Monumental numa festa de causar inveja aos clubes brasileiros que desdenham da Copa Sul-Americana.

O torneio pode ser pouco lucrativo, mas representa taça no armário, volta olímpica e estádio lotado com festa da torcida, que é o que importa, afinal.

O nome do título certamente é Marcelo Gallardo, que se converteu em um mito do River Plate. Jogador formado na base do clube, foi campeão da Libertadores de 1996 e da Supercopa de 1997, as últimas conquistas internacionais da equipe. E agora se torna campeão internacional como treinador do River, seis meses depois de assumir o comando técnico da equipe que o revelou como jogador.

Mas a vida não é das coisas mais fáceis e, entre as duas partidas da semifinal contra o Boca Juniors, Marcelo Gallardo viveu a tristeza de perder a mãe. Ana María morreu muito jovem, aos 55 anos, após uma derrota para o câncer, esse adversário implacável que não respeita mando de campo.

Gallardo quis dedicar o título da Copa Sul-Americana a ela. Porque um filho, afinal, ama sua mãe acima de todas as coisas.

À sua frente estava o conhecido repórter da TV Pública argentina, Titi Fernández, 63 anos, que neste mesmo ano viveu a dor que nenhum pai quer viver. A vida é difícil. Titi perdeu a filha Maria Soledad, 26 anos, também jornalista. Ela estava no Brasil cobrindo a Copa do Mundo para a Directv e morreu em um acidente na BR-381, em Minas Gerais, na madrugada do dia 2 de julho.

Então Marcelo Gallardo e Titi Férnandez se encontraram no centro do Monumental de Núñez em meio à festa pelo título da Copa Sul-Americana.

Gallardo gaguejou, porque era difícil falar. Muitas coisas se passaram nos últimos tempos. Mas Titi Fernández insistiu, pois é um profissional, e pais e mães sabem como arranjar forças para seguir vivendo depois da perda de um filho. A vida é difícil, Marcelito, disse o velho jornalista, mas vamos buscar o lado positivo, estás na história do River, és o único que foi campeão internacional como jogador e treinador, tem muito valor o que fizeste.

Marcelo Gallardo respondeu, agradeceu aos jogadores e dedicou o título à sua mãe. Interrompeu o choro com um abraço sincero em Titi Fernández. Ali se entenderam. O abraço foi breve e logo os dois seguiram seu caminho.

A vida é difícil, mas o futebol concede estes breves movimentos de felicidade.