Futebol e memória: quando o estádio virou prisão

Em qualquer país sul-americano, o futebol guarda vergonhas do passado. A relação com as ditaduras talvez seja a maior delas. Clubes, dirigentes, federações: em algum momento da história, o futebol manteve uma relação estreita com a manutenção de regimes autoritários na América do Sul.

Há duas maneiras de lidar com esse passado incômodo. Uma delas é fingir que a história não existe. Numa dessas, um governador biônico da ditadura pode até se tornar presidente de confederação. Outro caminho é expor as feridas e cultivar a memória do que passou, justamente para que não passe outra vez.

Palco da partida entre Chile e Uruguai nesta quarta-feira, pelas oitavas de final da Copa América, o Estádio Nacional de Santiago se transformou em um “lugar de memória” sobre a ditadura militar de Augusto Pinochet, instalada em 11 de setembro de 1973 e encerrada somente em 1990.

Transformado em prisão política e centro de torturas nos primeiros meses da ditadura, o Estádio Nacional teria recebido até 40 mil presos, muitos deles estrangeiros, torturados nas áreas internas do estádio. Algumas dezenas de pessoas teriam sido mortas pelas mãos dos militares ali onde hoje se joga a Copa América. O estádio só deixou de ser utilizado como prisão política da ditadura chilena em novembro de 1973, antes da partida entre Chile e União Soviética pelas eliminatórias da Copa de 1974, partida que seria boicotada pelos soviéticos.

Por uma iniciativa do governo chileno, os lugares históricos do estádio foram restaurados. Entre eles, a chamada “escotilha 8”, uma parte da arquibancada que fica na altura do centro do campo. O lugar seria o preferido dos presos: ali podiam ver e serem vistos pelos familiares do lado de fora do estádio. “Os presos levantavam os braços para que seus entes queridos ficassem tranquilos depois de dias buscando-os”, disse Wally Kunstmann, representante dos presos políticos do Estádio Nacional, ao jornal El País.

Em 2013, no aniversário de 40 anos do golpe, o fotógrafo chileno Andrés Bravo, integrante da Associação Independente de Fotógrafos de Santiago, realizou um projeto de recuperação da memtória do Estádio Nacional como local de torturas e execuções. O projeto consistia em sobrepor fotos da época em que o Estádio Nacional foi prisão política sobre imagens atuais. As imagens originais, de Marcelo Montecino, Köen Wessing, Chas Gerretsen e David Burnett, foram escolhidas por Andrés com auxílio de Manuel Méndez, ex-preso político, que ajudou a identificar os locais retratados nas fotos antigas. Com a Copa América sendo disputada no Chile, o projeto de Andrés Bravo voltou à tona, com novas imagens sendo divulgadas.

Andrés Bravo tinha nove anos quando houve o golpe militar no Chile. Quand criança, ele costumava jogar bola no Estádio Nacional, com seus irmãos e seu pai, que se tornaria um preso político, não só do Estádio Nacional como de outros locais utilizados como prisão. Apesar da preservação da memória no Estádio Nacional, Andrés acredita que ainda é muito difícil discutir o assunto no Chile.

“Até acho muito pouco que o Estádio Nacional tenha sido declarado Sítio de Memória, com lugares protegidos em seu interior, mas segue sendo um assunto sobre o qual não se fala com a liberdade desejada”, diz o fotógrafo, nesta breve entrevista concedida ao blog.

Como começou o projeto e como os chilenos receberam o trabalho?

O Estádio Nacional era como o jardim da minha casa. Jogava quase todos dias neste lugar, desde muito pequeno, junto com meus irmãos e pais, porque viviamos muito perto. Tudo mudou no dia 11 de setembro de 1973, não só para mim, mas para um país inteiro. Milhares de pessoas começaram a chegar a este recinto esportivo como “prisioneiros de guerra”, trazidos desde suas comunidades e indústrias onde trabalhavam. Um deles era meu pai. Desde esse momento, o Estádio Nacional se transforma para mim em um lugar de morte e sofrimento. Por sorte, meu pai sobreviveu, não só a este lugar, se não a outros três lugares de tortura e extermínio por onde passou: o Estádio Chile, o Estádio Nacional e o Cerro Chena. Lamentavelmente, milhares de famílias seguem sem poder encontrar a seus entes queridos, e por isso o projeto ainda continua.

Parece interessante que o Estádio Nacional tenha preservado locais do período em que serviu como prisão para que o público possa visitar. Mas você diz que no Chile é muito difícil discutir esse tema.

No Chile, a violação de direitos humanos segue sendo um tema inconcluso, no qual a justiça e a reparação, apesar do tempo, não chegaram à sociedade. Os pactos de silêncio que as Forças Armadas negociaram com os políticos para deixar o poder não fizeram mais que deter os processos judiciais que permitam chegar à toda a verdade que necessitamos. Até acho muito pouco que o Estádio Nacional tenha sido declarado Sítio de Memória, com lugares protegidos em seu interior, mas segue sendo um assunto sobre o qual não se fala com a liberdade desejada. Estamos trabalhando com o Grupo de Ex-Presos Políticos do Estádio Nacional, dirigidos por Wally Kuntsmann, para que isso mude.

Conte um pouco sobre o processo do teu trabalho com as fotos no Estádio Nacional. Como foi encontrar as imagens antigas e escolhê-las?

A ideia era poder recriar os duros e difíceis momentos vividos no estádio, por homens e mulheres depois do golpe militar de 1973. Muitos foram torturados e assassinados neste lugar, violentados em seus direitos mais básicos de vida. Os fotógrafos que puderam entrar no Estádio Nacional obtiveram imagens que hoje são a cara visível para mostrar ao mundo o que ocorreu ali. Uma vez que escolhi estas imagens, junto a Manuel Méndez, um ex-preso político, buscamos os lugares e voltamos a enfrentá-lo depois de 40 anos. Foi um momento mágico e muito emocionante. Tudo parecia voltar a ter vida.

Há algum tipo de envolvimento dos jogadores da atual seleção chilena com este assunto?

Creio que são poucos os jogadores desta seleção que se deram ao trabalho de investigar ou visitar os lugares de memória que existem no mesmo lugar onde estão jogando, nem de saber que onde hoje se joga a Copa América foram assassinados chilenos, uruguaios, brasileiros, peruanos, norte-americanos. É um tema distante para eles e para grande parte da sociedade chilena, que ainda vive sob efeito das políticas criadas na ditadura Pinochet.

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