Ayotzinapa e o futebol

Daniel Cassol
Daniel Cassol
Daniel Cassol

“En un potrero forjó una zurda inmortal con experiencia, sedienta ambición de llegar, de cebollita soñaba jugar un mundial y consagrarse en primera.”

Quando criança, entre os mais chegados, era o “Pollito”. Para os amigos do futebol, era o “Zurdo”. O canhoto. Aos 15 anos, David Josué García Evangelista demonstrava que a habilidade com a perna esquerda poderia levá-lo longe no futebol. De pollito, Zurdo sonhava se consagrar na primeira divisão.

A realidade, por ora, era a terceira. David era meio-campista do Club Deportivo Chilpancingo, clube do estado mexicano de Guerrero que milita no grupo seis da terceira divisão profissional daquele país. Entre os companheiros do “Avispones de Chilpancingo”, como o clube é conhecido, era visto como um meia habilidoso e com grande potencial.

El Zurdo, no entanto, morreu. Foi numa noite trágica de setembro, que desencadeou uma grave crise institucional no México, desnudando um país consumido pela violência do narcotráfico. Acontecimento que se misturou ao futebol, como não poderia deixar de ser.

(Foto: Eduardo Guerrero/AFP)

A data é de 26 de setembro. A cidade é Iguala, a pouco menos de 200 quilômetros da capital mexicana. O prefeito é José Luis Abarca Velázquez e sua esposa, María de los Ángeles Pineda Villa, acusados de íntima ligação com o narcotráfico local. Naquele dia, eles participariam de um ato público da prefeitura, como parte da estratégia para a futura candidatura da primeira-dama.

Circulava pela cidade um grupo de estudantes da Escola Normal Raúl Isidro Burgos, da localidade de Ayotzinapa, distante cerca de 125 quilômetros de Iguala. Escola de formação de professores, voltada para filhos de camponeses, sempre foi conhecida como um celeiro de lideranças sociais. Eles estavam “ocupando” ônibus que seriam utilizados para levá-los até a Cidade do México, no dia 2 de outubro, quando se relembra um massacre ocorrido durante uma manifestação estudantil em 1968. Depois de amealhar os ônibus necessários, prática relativamente comum, estavam retornando para Ayotzinapa. Um dos motoristas teria avisado a polícia municipal, que suspeitou que os estudantes quisessem protestar contra o prefeito e a primeira-dama, contra quem tinham um histórico de enfrentamentos.

Na tentativa de furar o bloqueio imposto pela polícia, um estudante foi morto. Muitos foram presos, outros conseguiram escapar. Mais tarde, policiais e homens sem farda atiraram em um segundo grupo de estudantes, matando mais dois. Em um terceiro ataque, o ônibus dos Avispones de Chilpancingo também foi alvejado por um grupo armado que, provavelmente, imaginou que ali estivessem estudantes de Ayotzinapa. Outras três pessoas morreram, entre elas David, o meia habilidoso da equipe de Chilpancingo, e o motorista da delegação que voltava de uma partida contra o Unidad Deportiva Iguala, na estreia do campeonato.

A noite trágica terminou com seis pessoas mortas e 43 estudantes da escola de Ayotzinapa desaparecidos. Moradores disseram ter visto vários deles entrando em carros da polícia. Suspeita-se da participação de narcotraficantes nos ataques, uma vez que são tênues os limites entre o narcotráfico e as autoridades públicas na região. Entre os desaparecidos, outro jogador de futebol além de David. Adán Abraján de la Cruz, 24 anos, jogava no time amador “Los Pirotécnicos de El Fortín”.

(Foto: Jorge Dan Lopez/Reuters)

O governador de Guerrero renunciou ao cargo. O prefeito e a primeira-dama foram presos. Há cerca de duas semanas, a Procuradoria Geral da República anunciou que as investigações apontavam para a pior das conclusões: os 43 estudantes teriam sido mortos por integrantes do cartel Guerreros Unidos, a quem os jovens foram entregues pela polícia local.

Os pais dos estudantes não aceitaram. “Vivos se los llevaron, vivos los queremos”, afirmam. Os protestos, realizados desde a noite do desaparecimento dos estudantes, aumentam e pressionam o governo do presidente Enrique Peña Nieto, que num primeiro momento não quis admitir a gravidade dos fatos, demorou para assumir as investigações e ainda manteve uma viagem de negócios à Ásia em meio à turbulência política. O massacre de Iguala mostrou que execuções e desaparecimentos, mais associadas ao período do ex-presidente Felipe Calderón, continuam vigentes no México. Pressionado por organismos internacionais, o país mergulha em uma grave crise institucional, porque o caso Iguala escancara o fracasso da guerra às drogas e revela um narcotráfico entranhado em setores do poder público.

Em um país como o México, o futebol não poderia ficar alheio a um acontecimento trágico deste porte, não apenas por haver um jogador de futebol entre as vítimas. Torcedores e jogadores mexicanos pelo mundo seguem manifestando solidariedade às vítimas e descontentamento com o governo. Mas não é todo o futebol mexicano que está com Ayotzinapa. Oficialmente, não está nem aí.

A manifestação mais rumorosa até agora aconteceu no dia 12 de novembro, durante amistoso da seleção mexicana contra a Holanda, em Amsterdã. Mexicanos residentes naquele país realizaram protestos dentro e fora do estádio, gritando “justiça” e erguendo lenços negros e cartazes durante a execução do hino nacional e no minuto 43 da partida. Jogadores da seleção mexicana e técnico Miguel Herrera manifestaram solidariedade aos familiares das vítimas e declararam que, pelo menos, puderam dar um pouco de alegria ao México, que venceu por 3 a 2 a seleção que os eliminou no Mundial disputado no Brasil.

A rodada 16 do campeonato mexicano, um dia após o anúncio oficial de que os 43 estudantes estavam mortos, foi marcada por vários protestos nas arquibancadas. Integrantes da torcida organizada “Sangre Azul”, do Cruz Azul, exibiram cartazes com pedidos de justiça e gritaram “Ayotzinapa! Ayotzinapa!” na partida contra o Pumas.

O que aconteceu com o León, porém, evidencia que nem todo o futebol mexicano está envolvido no caso Ayotzinapa.

Durante partida contra o Puebla, na mesma rodada, torcedores da organizada “Los de Arriba” exibiram cartazes com o número 43, em referência ao número de estudantes desaparecidos, e uma faixa que dizia “governo assassino”. Foi o que bastou para a Federação Mexicana de Futebol aplicar uma multa ao clube, por infração ao regulamento que impede manifestações de cunho político nas arquibancadas.

Oficialmente, o futebol mexicano não se manifestou sobre o caso Ayotzinapa. Parece que nada aconteceu. Nem os clubes nem a Federação Mexicana deram pronunciamentos ou realizaram homenagens. Sequer um minuto de silêncio foi respeitado antes das partidas, o que me foi confirmado pela assessoria de imprensa da Federação. “Somos apolíticos”, me disse por telefone um funcionário da entidade.

Houve manifestações em outros esportes. Na final da liga de futebol americano universitário, entre Pumas e León, o placar eletrônico do estádio olímpico Ciudad Universitária exibiu a frase: “Queremos a nuestro México en paz”.

Não falta quem atribua o silêncio do futebol mexicano à proximidade da Federação Mexicana e da emissora Televisa com o governo Peña Nieto.

Uma grande marcha liderada pelos familiares das vítimas, com apoio de milhares de manifestantes, deve chegar nesta quinta-feira à capital mexicana.

Os Avispones de Chilpancingo voltaram a campo duas semanas depois da tragédia de Iguala, com uma goleada de 8 a 0 sobre os Vikingos de Chalco. O time está numa posição intermediária da tabela, em função de várias partidas adiadas, mas já somam quatro vitórias no total. Os jogadores usam camisetas com o rosto de David, el Zurdo, e prometem uma grande campanha em sua homenagem. Marcha clube: Terminar com os jogos do time depois da tragédia.