STJD é o ‘Grande Irmão’ do futebol brasileiro

Rafael Santos

O irreverente protesto da torcida do Atlético-MG no último jogo contra o Fluminense ainda deve dar muito que falar. Sobretudo no que depender do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). O procurador geral da entidade, Paulo Shimitt informou na última segunda-feira que já solicitou imagens de televisão da partida entre Galo e Flu vencida por 3 a 2 pelo clube mineiro, no estádio Independência.

Shimitt está interessado no protesto da torcida do Galo antes da partida que contou com faixas, cartazes, narizes de palhaço e um mosaico com a sigla CBF ao contrário em um fundo com as cores do Fluminense. "Vou analisar as imagens, ainda não analisei, mas pode haver julgamento, se as mensagens apresentadas tiverem cunho ofensivo a alguém ou alguma instituição, como prevê no código brasileiro e ai o time pode ser multado pelo Tribunal", disse o procurador geral ao UOL Esporte.

Como defendi aqui mesmo no blog, a manifestação do último domingo foi válida. Um protesto pacífico, de origem popular e de uma ironia fina que só os obtusos não são capazes de entender.

Caso ocorra, a punição não será a primeira decisão controversa do STJD em relação ao Galo neste Brasileirão. Há poucos dias o principal jogador do Atlético-MG, Ronaldinho Gaúcho foi suspenso por uma partida e teve que ficar de fora de duelo fundamental contra o Inter de Porto Alegre.

Posteriormente descobriu-se que o relator do caso, Jonas Lopes de Carvalho era torcedor declarado do Flamengo e tinha se mostrado irritado anteriormente com o craque quando ele defendia o rubro-negro carioca em redes sociais. O mesmo relator foi responsável pela suspensão de Loco Abreu do Figueira. Pelo 'crime hediondo' de levantar a camisa e beijar o escudo do Botafogo diante da torcida do Flamengo.

Agora, o STJD deve passar por cima do relato do árbitro Jaílson Macedo Freitas que não fez nenhuma referência na súmula aos protestos feitos pela torcida do Galo contra a arbitragem do Brasileirão e CBF. O polêmico lance envolvendo o atacante Fred e o lateral-esquerdo Júnior César também não foi relatado pelo árbitro, no entanto, deve ser também analisado.

O empenho do entidade em influir em decisões já tomadas pelos árbitros ou alheias ao campo como o protesto da massa atleticana contrasta com a omissão da entidade em relação ao Estatuto do Torcedor. E escrevo isso sabendo que a punição do Galo pode ser baseada no documento. Segundo o estatuto é proibido "portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo".

A punição prevista é multa que pode chegar a R$ 100 mil. E é de se espantar que o STJD se faça valer do documento com tanta frequência em casos de grande alcance midiático. Ora, qualquer um que conheça o Estatuto do Torcedor e frequente estádio de futebol pode constatar que ele não é cumprido por boa parte dos clubes de Série A. Por que a entidade não mostra tanto empenho em resguardar os direitos do torcedor e não pune agremiações que não respeitam as regras?

Vale ressaltar que todas as punições que citei nesse texto foram tomadas com base em gravações de vídeo. Como no romance de George Orwell, o STJD pode ser  encarado como o "Grande Irmão" do futebol brasileiro. Só que os membros da entidade não gozam da sagacidade do clássico personagem do livro 1984. São mais parecidos com  integrantes de outro produto cultural. O "Big Brother", aquele programa global em que todos participantes fazem tudo por cinco minutos de fama.