História (e histórias)do Come-Fogo

Celso Unzelte
Causos do Futebol

Depois de mais de 25 anos, o Campeonato Paulista trouxe de volta à primeira divisão em 2012 o clássico Come-Fogo, entre o Comercial e o Botafogo, os times da cidade de Ribeirão Preto. Vitória comercialina por 2 a 1, de virada, em pleno Estádio Santa Cruz, o campo do adversário. Aqui, um pouco mais da história (e das histórias) deste confronto, que, em se considerando a fase amadora, acontece desde 1927.
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Em 19 de dezembro de 1954 — jogo que terminou empatado por 1 a 1, no antigo Estádio Luís Pereira, do Botafogo —, os dois times se enfrentaram pela primeira vez na era do profissionalismo, inaugurada no Brasil em 1933. Um mês e dez dias antes, o radialista Lúcio Mendes, já antecipando a possibilidade da realização do confronto pela segunda divisão paulista, escreveu uma crônica para o suplemento esportivo do jornal Diário da Manhã, de Ribeirão, em que cunhou a expressão que ficaria para sempre:

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"Imaginem um clássico entre o Botafogo e o Comercial, dentro do torneio de acesso. Um autêntico Come-Fogo! Sim, um clássico do nosso futebol principal, no futuro, na segunda divisão do futebol profissional bandeirante, será qualquer coisa de grandioso".
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Além do nome do clássico, há duas outras denominações, em princípio pejorativas, pelas quais as duas torcidas se tratam: Chulé, para o Botafogo, e Bafo, para o Comercial.

O "chulé" dos botafoguenses refere-se ao fato de o antigo estádio do clube, o Luís Pereira, ficar na Vila Tibério, região originalmente sem calçamento, da qual os botafoguenses voltavam sempre com os pés sujos da terra roxa de Ribeirão.

O "bafo" do Comercial referia-se ao fato de o Botafogo ter subido primeiro para a principal divisão do Paulista, em 1956. A partir dali, os comercialinos, enciumados, teriam passado a dizer que também subiriam logo da segunda para a primeira divisão de São Paulo — e segundo o Dicionário Aurélio, "bafo" também quer dizer "conversa fiada, bazófia, gabolice, prosa; bafo de boca. Só que, de fato, a vez do Comercial chegou pouco depois, já em 1958, e o grito de "Bafo, Bafo" acabou incorporado pela torcida, como sinônimo do próprio clube.
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17 de maio de 1955. O goleiro Pininho estreia no Comercial sofrendo uma goleada por 5 a 0 justamente para o Botafogo. Seria sua primeira e última partida: no dia seguinte, Pininho foi proibido até de treinar no clube.

Quem apitou aquele jogo (até hoje a maior goleada botafoguense na história do clássico) foi um juiz russo, chamado Vladimir Alexander. Que teria passado quase uma semana hospedado na casa de um ex-diretor do Botafogo.
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15 de janeiro de 1956. O empate por 3 a 3 levanta uma dupla suspeita de suborno, ambas de jogadores do Comercial. Os dirigentes do clube estranharam o fato de o goleiro argentino Bonelli, mesmo ganhando pouco e estando com seus salários atrasados, ter aparecido para treinar depois daquele jogo pilotando uma moto do ano. Já os dirigentes do Botafogo vanglorivam-se de ter subornado o atacante Mairiporã, também do Comercial, por 20 mil cruzeiros.

O folclore da cidade conta, ainda, que já no domingo à noite Mairiporã apareceu para cobrar o dinheiro, mesmo tendo marcado os três gols do Comercial naquele empate.
— Mas como, se você acabou fazendo os três gols do seu time? — teriam questionado os botafoguenses.
— É, mas aos 44 minutos do segundo tempo eu, da marca de pênalti, de onde não costumo errar, cabeceei uma bola na bandeirinha de escanteio — teria respondido Mairiporã. — Se eu fizesse o gol, o Comercial teria vencido...

Velhos torcedores que até hoje repetem essa história garantem ainda que, no fim, as duas partes acabaram acertando tudo pela metade do preço. Um ano depois, o Botafogo comprava Mairiporã (dessa vez para valer) por 400 mil cruzeiros, a maior transação já realizada entre os dois clubes rivais.
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O maior artilheiro da história do Come-Fogo é o centroavante Geraldão, com 8 gols. Todos marcados pelo Botafogo, de onde sairia para conquistar pelo Corinthians o histórico título paulista de 1977, pondo fim a uma espera de 22 anos. Geraldão conta que, contra o Comercial, ele sempre deu sorte, mesmo quando dava azar.

"Naquela época, quando o jogo era no campo do Comercial, nós íamos com o próprio carro do hotel para o estádio Santa Cruz [do Botafogo] e seguíamos dali para o local da partida de ônibus", conta Geraldão. "Em um desses jogos, eu tive uma batida fortíssima no meu carro justamente neste trajeto. Foi um negócio feio mesmo, tinha um Chevette e o outro carro era um Fusca. Não me machuquei, mas tive que largar o veículo com um responsável e ir correndo para o jogo. Acabei marcando dois gols e fui o destaque."
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Já o maior ídolo da história do Comercial, o meia Carlos César, que chegou a jogar até na Itália e faleceu em 2011, aos 72 anos, tinha fama de fugir do clássico, arranjando as mais diversas desculpas para não atuar. Conta-se que, para isso, ele chegou a apelar até para dona Olga, a mulher do técnico Alfredo Sampaio, o Alfredinho.

Até que certa vez o treinador comercialino fingiu concordar em deixar Carlos César de fora. Levou-o para a concentração prometendo que não o colocaria em campo, mas, na hora agá, escalou Carlos César, que depois daquilo nunca mais tremeu em Come-Fogos. "Eu disse a ele que o jogo seria fácil porque o juiz estava comprado", divertiu-se Alfredinho em uma reportagem publicada pela revista PLACAR em 1979. "Só que naquele dia não estava!"

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