Chico Anysio e o futebol

Para quem ainda não sabe, além de humorista, ator, dublador, escritor, compositor e pintor, Chico Anysio foi também comentarista esportivo. Primeiro na Rádio Guanabara, do Rio de Janeiro, aos 17 anos; por último na TV Globo, aos 58, durante a Copa do Mundo de 1990. "Penso que não há nada de que eu entenda mais do que futebol", costumava dizer. Ao longo de todo esse tempo em contato com seu esporte predileto, Chico colecionou muitas histórias — engraçadas, é claro — que reproduzo aqui, como uma homenagem à memória dele, que morreu aos 80 anos, no dia 23 de março.

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Essa se deu em uma das primeiras transmissões do futuro comediante Chico Anysio. Durante determinada partida, o locutor, de birra com ele, não lhe passava o microfone para que fizesse seus comentários. Assim foi durante a maior parte da partida, com Chico ficando sempre na dele.

A certa altura, com o jogo já no fim, o locutor resolveu finalmente chamar Chico Anysio, com a seguinte recomendação:
— Chico, duas palavras finais para os nossos ouvintes.
Chico, então, não se fez de rogado. E respondeu ao pé da letra:
— Até logo.
Em seguida, levantou-se e foi embora.

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Chico também contava que certa vez, em uma mesa de bar, o ator Luiz Delfino, famoso por suas participações em diversos humorísticos da TV Globo, soltou a seguinte bomba:
— Zizinho foi meu reserva.
E que ante o ar de dúvida, risos e gozações que tomou conta da mesa, Delfino insistia:
— Foi, sim. Zizinho foi meu reserva.

A história acabou em aposta, valendo o próprio jantar. Chico Anysio tinha o telefone de Zizinho, ligou e, do outro lado da linha, ouviu o velho craque da Copa de 50 confirmar:
— É verdade, sim. Eu estava começando, tinha 16 anos e era reserva do Delfino no Byron de Niterói.
Aliás, Zizinho não só confirmou como ainda disse para Chico:
— Olha, é a quinta ou sexta vez que o Delfino janta de graça com essa história...

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No tempo do Santos de Pelé, um torcedor fanático do Fluminense discutia com Chico Anysio, tentando convencê-lo de que o tricolor carioca era tão poderoso quanto a equipe paulista. Para isso, ia comparando os jogadores dos dois times, um a um, considerando os do Fluminense sempre melhores. Até que a comparação chegou em Pelé.

— Bom, quanto à camisa 10 não há discussão, não é? — imaginou Chico.
— Não sei, não... — teria retrucado o torcedor fanático. — Olha que o Joaquinzinho anda jogando um bolão...

Outra mancada no ar, esta bem mais recente, aconteceu durante a transmissão da Copa do Mundo de 1990, disputada na Itália. Jogavam Colômbia e Camarões, pelas oitavas-de-final. Do estúdio, no Brasil, o locutor narrava e Chico Anysio comentava. Fausto Silva, o Faustão, que também foi repórter de campo, eventualmente entrava no ar com uma observação ou outra, mas encontrava-se em um outro lugar, muito provavelmente já no teatro de onde comandaria a seguir o seu "Domingão".

A certa altura do jogo, um camaronês caiu no gramado com as mãos nas partes baixas e passou a se contorcer. Fausto Silva, para fazer graça, começou a gemer ao fundo da imagem: "Ai, ai, ai..." Mas o locutor não percebeu que era o Faustão, e, talvez querendo valorizar a transmissão da Globo, observou:
— Taí pra você o gemido do jogador de Camarões.
Faustão não perdeu a piada: voltando a imitar a voz sofrida do camaronês que continuava no chão, emendou: "Ai, ai... Ai meu saco!"

Mais engraçado que isso, só quando Chico Anysio completou, tirando um sarro da gafe de quem narrava: "...e ele ainda geme em português, hem?"

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A primeira e única vez em que vi Chico Anysio pessoalmente em toda minha vida também teve a ver com futebol. Era a tarde de 26 de novembro de 2005. Eu e Paulo Vinicius Coelho, o PVC, companheiro de ESPN Brasil, voltávamos de um debate sobre jornalismo esportivo no Rio de Janeiro quando, já no embarque da ponte aérea para São Paulo, ouvimos uma voz ecoar no saguão do aeroporto: "PVC, quanto está o jogo do Náutico?" Era ninguém menos que Chico Anysio, em uma cadeira de rodas, também pronto para embarcar no avião.

Não sabíamos quanto estava o tal jogo do Náutico, que aliás era nada menos que a famosa Batalha dos Aflitos, contra o Grêmio, valendo o acesso para a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Mas PVC tratou logo de ligar para a redação da ESPN e, pelo celular, nos foi transmitindo tudo o que acontecia.

Coincidentemente, a ligação foi feita no exato momento em que o Náutico, depois de muita confusão e muitas expulsões, se preparava para, enfim, bater o pênalti que poderia ter aberto a contagem em favor dos pernambucanos. Mas o goleiro gremista Galatto defendeu a cobrança de Ademar. Em seguida, Anderson marcou o gol daquela heroica vitória do Grêmio, com apenas sete homens em campo.

Esses 71 segundos foram narrados por PVC para mim e para um Chico Anysio empolgado com a narração, totalmente envolvido na disputa, torcendo pelo Náutico, por ser, afinal, um time nordestino, como ele. A última imagem que guardo dele é da cadeira de rodas na direção do embarque e de um Chico Anysio feliz, acenando e gritando: "Sou seu fã, PVC! Sou seu fã!"
Nós também somos seus fãs, Chico Anysio. Fãs para sempre.