Negociação de Neymar tem pontas graves soltas e ‘beiça’ no DIS

Blog do Vitor Sergio

A transação que deveria tornar o Barcelona “assassino” novamente está gerando uma avalanche interna no clube. A contratação de Neymar, usada por Sandro Rosell como motivação para deixar a presidência do clube (não foi só por isso!), foi detalhada nesta terça-feira, pelo pai do jogador, primeiro em um pronunciamento e depois em uma entrevista à ESPN Brasil. E embora tenha deixado alguns pontos claros, ainda tem muita coisa a ser questionada, inclusive judicialmente. Vamos a eles.

1) Contrato com o Barça em 2011 – Neymar Pai afirmou que em agosto, setembro ou outubro de 2011 foi procurado pelo Barcelona para acertar um contrato em que o Neymar não renovasse mais com o Santos (até então tinha acordo com o Santos até 2014) e que fosse para a Catalunha quando terminasse esse compromisso. Por essa “intenção de se juntar ao Barça”, como disse Neymar Pai, o clube espanhol emprestou 10 milhões de euros à empresa criada pelo pai do jogador para “fazer a gestão da carreira dele quando estivesse livre”.

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Problema: Essa ligação pode ser configurada como um pré-contrato ilegal, uma vez que as regras da Fifa só permitem que se faça um pré-contrato seis meses antes do fim do compromisso em vigor. O Santos poderia reclamar de aliciamento do Barça, mesmo com o pai de Neymar dizendo que é uma gestão da carreira quando o jogador estivesse livre.

2) Neymar, Barça e o Mundial de 2011 – Com as informações do item anterior, fica claro que o acordo foi fechado em um momento em que o mundo inteiro sabia que Barcelona e Santos poderiam se enfrentar na decisão do Mundial de Clubes da Fifa, em dezembro daquele ano, no Japão.

Problema: É eticamente questionável saber que Neymar entrou em campo tendo a empresa que faz a gestão de sua carreira recebido 10 milhões de euros do Barcelona para o jogador se juntar ao Barça em julho de 2014 e mantendo isso em segredo. Não dava para congelar o acordo e retomá-lo após o Mundial?

3) O Grupo DIS levou uma “beiça” do Santos e do Barça – Quando o Barcelona detalhou todo o custo da contratação de Neymar, na semana passada, deixou claro que o clube espanhol e o Santos conseguiram um subterfúgio para o Peixe receber mais por Neymar, sem dividir com o Grupo DIS, que tinha a outra metade dos direitos do craque. Não faz nenhum sentido incluir na operação de comprar de Neymar os quase 8 milhões de euros para ter prioridade na compra dos jovens Victor Andrade, Gabriel e Giva. São coisas diferente, que parecem serem usadas para maquiar o valor pago ao Santos (17 milhões de euros, com metade disso indo para o DIS).

Problema: O DIS pode ir à Justiça para tentar provar que esses 8 milhões de euros faziam parte do negócio e por isso ele teria direito à metade.

4) Outros itens e os amistosos – Na contratação de Neymar ainda existem 2 milhões de euros pagos a empresa do pai de Neymar para fazer trabalho de identificar novos talentos no Brasil nos próximos cinco anos (400 mil euros por ano), 2,5 milhões de euros em um contrato da Fundação Neymar com a Fundação Barça para ações sociais no Brasil, além de dois amistosos entre Santos e Barça (um deles, no Camp Nou, já foi realizado).

Problema: É mais uma situação esquisita demais ver que coisas que não têm relação alguma com a contratação de Neymar em si estão envolvidas na operação. Se o Barça quer a empresa do pai do Neymar como scout, por que colocar isso tudo na mesma negociação? Caso o segundo amistoso (obrigatoriamente no Brasil) não seja realizado, o Santos recebe 4,5 milhões de euros. O DIS pode entrar na Justiça pedindo metade desde dinheiro, pelo mesma lógica do item anterior.

Agora, a aparição de Neymar Pai deixou algumas coisas bem esclarecidas para mim.

A) Os 40 milhões de euros para Neymar e os 17 milhões de euros para Santos / DIS – Acho que tem lógica considerar que Neymar receberia uma valor gigantesco em junho de 2014 tendo 100% dos seus direitos econômicos (que seriam integralmente seus no fim do contrato que tinha com o Santos). É perfeitamente possível imaginar que um clube pagasse esse valor para “seduzir” Neymar. O que o Barça fez foi dar ao jogador uma compensação por estar indo para a Catalunha um ano antes. Se é muito ou pouco, é uma questão de juízo de valor. Mas faz todo sentido mercadológico.

Dentro desse prisma, até o valor recebido pelo Santos faz sentido. Em 2011, a multa de Neymar era de 45 milhões de euros, faltando três anos de contrato. Como sabemos que o valor da multa diminui conforme o tempo passa, no meio de 2013 (fazendo uma conta simples) essa multa seria de 15 milhões de euros. O Santos (e o DIS) receberam 17 milhões de euros. De novo, fez sentido.

B) O bônus de assinatura e o dinheiro do agente – Neymar recebeu 10 milhões de euros como bônus de assinatura do contrato, que seria divididos em 2 milhões de euros por temporada (assinou por cinco temporadas). É uma prática comum no futebol.

Outra questão é os 2,7 milhões de euros que Neymar recebeu do Barça para pagar o seu agente. O Barcelona tem como prática não ter relação oficial com agentes de jogadores. Então o clube paga 5% a mais no salário anual para ser repassado pelo atleta ao seu agente. Normal. A dúvida acaba existindo porque o agente de Neymar é... seu pai!

Apontadas todas essas questões, fica claro que a transação que levou Neymar para o Barcelona não tem nada de transparente, como querem fazer parecer o novo presidente do Barcelona e o pai (e agente) do jogador. Tenho a impressão de que ainda vamos ouvir falar muito dessa negociação...

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