DIÁRIO DO JAPÃO – hora de fechar a conta e voltar pra casa

Pronto, voltei. Como voltou o Corinthians em 2007 para iniciar uma sequência fantástica de títulos a partir do inferno da serie B. Vieram Paulista, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e agora o Bi-Mundial. Sim, bi! Porque não adianta o torcedor rival agora tentar menosprezar o feito do Corinthians ontem aqui em Yokohama atacando a edição de 2000 do Mundial de Clubes. Aquela não teve o charme dessa? Não. Mas não é por isso que não seja válida. O Corinthians foi, sim, Campeão Mundial em 2000 e agora repetiu a dose em 2012.

Prometi a vocês que contaria detalhes do que aconteceu ontem aqui no Japão. Caros leitores, foi um dia histórico. Independente para qual time você torça, acredite no que eu estou escrevendo: o capítulo que a torcida corintiana escreveu aqui no Oriente entrou para historia. Não sei se um dia o que aconteceu por aqui será igualado. Não em termos numéricos. Na paixão, com certeza, muitos torcedores de tantos outros clubes virão ao Mundial e demonstrarão historias de amor e sacrifícios pelo seu time. Palmeirenses, rubro-negros, vascaínos, são-paulinos, santista, cruzeirenses, gremistas, colorados, todos já fizeram loucuras pelo seu time. Mas com a intensidade que nós vimos aqui, não sei.

A própria FIFA — aposto! — está estourando champanhes até agora pelo o que aconteceu. A vinda da torcida do Corinthians em peso só valorizou a competição. A invasão virou notícia no mundo inteiro e, sem dúvida, terá repercussões nas próximas edições. Tomara que a FIFA incremente mais o torneio. Não sei até onde deveria ser feito em locais com interesses meramente comerciais (o jogo em Toyota, por exemplo, lá no meio do nada, foi inacreditável!). Um aumento do número de clubes sulamericanos e europeus (dois por continente, talvez) seria ótimo também. Acho que o Senhor Blatter já está começando a fazer como o Tio Patinhas e ver cifrões por todos os lados! Esse Mundial tem um potencial enorme, com certeza!

Mas voltemos ao dia do jogo. Yokohama amanheceu um dia lindo, de céu azul e sem uma nuvem no céu. Pela manhã, deu até para sentir calor. Como dia de decisão é sempre mais complicado, fui bem cedo para o estádio e, ao sair da estação de trem de Shin-Yokohama, tomei um susto. Parecia que estava chegando ao Pacaembu mesmo! Até churrasquinho, espetinho e pastel tinha por aqui. Sensacional! Aos poucos, os corintianos foram chegando — aos montes — e se juntando numa praça onde cada patrocinador do Mundial tinha o seu stand para fazer marketing. Umas 4 horas antes da partida, o local estava tomado por torcedores do Corinthians. Muitos gritos de guerra e brincadeiras com os japoneses que passavam com camisas do Chelsea — os ingleses mesmo foram por outra entrada do estádio e por lá ficaram. Sem violência e com muito bom humor, alguns japas até viraram a casaca. Aliás, achei que o apoio dos japoneses seria 100% destinado ao Chelsea, mas teve muito nêgo de olho puxado se juntando ao bando de loucos na última hora!

Duas horas antes da partida, já busquei minha posição na Tribuna de Imprensa. Optei, como no jogo da quarta-feira, por ficar num local mais reservado. O fato de estar aqui em interesses profissionais diminui muito a intensidade do "torcedor" André Henning. Foi bem diferente da Libertadores, por exemplo. Eu não estava trabalhando, não iria entrar no ar assim que terminasse a partida nem nada disso. Pude assistir ao jogo apenas como torcedor, gritando, xingando, vibrando. Aqui no Mundial, preferi assistir com calma, perto de um monitor onde tivessem os replays e num local onde não poderia me manifestar como um torcedor maluco — apesar de que alguns jornalistas brasileiros torcedores do Corinthians (lembrem que cada um tem um time, não tem jeito!) perderam a linha e comemoraram, mesmo na área de imprensa, como se estivessem na Curvinha do Pacaembu...

Antes do jogo, matei minha vontade de torcedor. Encontrei alguns amigos, primos e tios que atravessaram o planeta para torcer pelo Corinthians. Lembramos de grandes partidas que assistimos nos tempos de criança começando a descobrir o futebol e a paixão pelo time. Cantamos juntos muitas músicas de incentivo ao Corinthians — atenção para o espetacular hit que tomou conta de Yokohama: "êêê, fóki iú Tchéélsêêê, fóki iú Tchéélsêêê, fóki iú Tchéélsêêê êêêê"... Fino, né?? Mas faz parte, hehe... Nota para as crianças: não repitam isso pois é muito feio, mas entendam que o papai (e às vezes até a mamãe tem uma "licença" de vez em quando para xingar no estádio, tá? Não fiquem bravos com eles! Um dia vocês farão o mesmo...)

Quando a bola rolou, acho que o jogo foi muito igual. Cássio, meu Deus, pegou tudo! Mas isso não quis dizer que o Corinthians foi dominado pelo Chelsea. Pelo contrário. Na segunda etapa, até se impôs mais e, no fim, mereceu a vitoria. Foi um daqueles jogos que, se tivesse perdido por 1 a 0 também, não teria sido injusto. Um grande jogo foi visto aqui em Yokohama. Brilhou a estrela de Guerrero que, mesmo jogando no sacrifício depois de ter sido ameaçado de nem vir para o Japão, marcou os dois gols do Timão no Mundial. E brilhou a estrela de Tite. Esse vale um parágrafo à parte.

A lição do Santos serviu muito para o técnico corintiano. Tite viu o que aconteceu quando o Santos largou o Brasileirão do ano passado para se dedicar exclusivamente ao Mundial. Perdeu ritmo, competitividade, "tesão". Chegou morto aqui no Japão. E Tite conseguiu fazer com que os jogadores do Corinthians mantivessem o brilho nos olhos, a gana pela disputa por uma vaga no elenco, a vontade por saber que ninguém tinha escalação garantida no time. Sabíamos, claro, que alguns tinham, mas ele deu um jeito de manter a disputa aberta. Trabalharam sério, treinaram duro e foram dignos de merecimento do titulo mundial. Aliás, gosto muito disso que o Tite sempre destaca: um time tem que merecer. E o Corinthians mereceu.

Volto para casa feliz. Como profissional, por ter feito o que imagino ser um grande trabalho. Deixando a modéstia de lado, acho que cumpri meu papel de marcar presença do Esporte Interativo num momento tão importante como esse. O pessoal da retaguarda no Brasil deu show. Nos programamos tão bem que pareceu para o telespectador em casa que eu nem dormia por aqui. Foram muitas entradas ao vivo, horários para o descanso fora do comum (mas esperado com esse fuso) mas muitas recompensas. Que venham outras...

E pessoalmente saio feliz em dobro. Quando estava crescendo e descobrindo o amor pelo Corinthians, o Japão era um sonho muito distante. Nossas preocupações, como corintianos, eram outras bem mais simples — cresci vendo o time não ter um titulo brasileiro!!! Em 1990, tudo começou a mudar. Neto nos deu aquele titulo histórico e o Corinthians passou a ser um pouco maior do que era. Veio o Mundial que muitos insistem em colocar um asterisco, diversos Brasileiros, várias Copas do Brasil, a tão esperada Libertadores e, agora, o mundo de novo! E no Japão! Fosse em Dubai ou no Marrocos, não teria sido tão legal pra mim. Atravessar o mundo para conquistá-lo era questão de honra!

Nesse momento, me junto aos milhares de corintianos aqui no aeroporto de Narita que retornam pra casa. Com as mais variadas conexões possíveis, não há um deles que não esteja com um sorriso no rosto por aqui. Os herois corintianos já foram. Terça-feira verão uma festa poucas vezes vista em São Paulo quando desembarcarem com o caneco na mala. Será a vez dos fiéis que não puderam atravessar o planeta mostrarem a sua força! A dura viagem pra casa será mais amena que a tensão que tomava conta da vinda. O corintiano retorna para os braços da família de alma lavada. Obrigado a quem me acompanhou por aqui. O blog segue com outros temas. E espero, honestamente, poder contar aqui mesmo historias como essas, mas de outros clubes. Serão especiais também! Esposa, filho, família: estou voltando! Com o objetivo profissional alcançado e uma felicidade enorme! Até já, Brasil!

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