Atletas usam prestígio para alavancar ações sociais para crianças

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Uma carreira vitoriosa. Medalhas de competições nacionais e internacionais. Notoriedade. Fama. Atingir esse patamar é o principal objetivo de atletas que escolhem o esporte de alto rendimento como profissão.

Durante ou após esse percurso, no entanto, muitos percebem que seu papel pode ir muito além dos pódios: impulsionar também transformações sociais.

O Brasil conta atualmente com dezenas de atletas e ex-atletas que, por meio de projetos sociais, apostam no esporte como ferramenta para mudar a vida de crianças, adolescentes e jovens. O movimento é tímido se comparado a países como os EUA, mas já provoca impacto social importante. E forma campeões.

Um dos mais notórios exemplos é o Instituto Reação, criado em 2003 pelo ex-judoca Flávio Canto, bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004.

"Cresci no Rio de Janeiro, uma cidade que tem as favelas espalhadas pelos morros, onde você consegue ver claramente as diferenças de oportunidades. Tive uma vida nômade, morei fora do país, e quando você volta reflete de outra forma sobre essas desigualdades. Foi daí que veio a inspiração para fazer algo", conta o ex-judoca.

Canto tinha vontade de desenvolver um trabalho social. Primeiro, desenhou um curso de alfabetização, que nunca saiu do papel. Depois, ao começar a dar aulas de judô, percebeu que essa poderia ser sua ferramenta.

Os treinos de judô são o carro-chefe do instituto, que tem 12 polos espalhados por Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Norte e atende cerca de 3.000 crianças e jovens.

O Reação é hoje uma das principais equipes competitivas do país —Rafaela Silva, formada no projeto, ganhou o ouro nos Jogos do Rio-2016.

O projeto acolhe crianças a partir dos 4 anos e as acompanha até o primeiro emprego com bolsas de estudo e capacitação profissional. As mães participam de um grupo que discute questões de saúde, família, trabalho e empoderamento feminino.

"Os resultados no esporte acabam dando ao atleta força, voz e capacidade de mobilizar parceiros. Mas acho que todos, independentemente de serem atletas bem-sucedidos ou não, têm que pensar em qual pedaço pegam para si [em relação ao combate às desigualdades]", diz Canto.

Foi esse o mesmo impulso que moveu os velejadores Lars Grael, Torben Grael e Marcelo Ferreira. Incomodados com o fato de a vela ser um esporte elitizado, restrito aos clubes, eles tiveram uma ideia ousada em 1996: oferecer a modalidade a alunos da rede pública de ensino em Niterói (RJ).

Naquele ano, a vela brilhou nos Jogos de Atlanta, e os atletas voltaram com mais respaldo para iniciar a empreitada. O Projeto Grael surgiu em 1998, com dois containers e uma lona esticada na areia. Era uma escolinha de vela.

Em 2000, foi criado o Instituto Rumo Náutico para aprimorar o caráter social e educacional do projeto que hoje oferece oficinas náuticas profissionalizantes, biblioteca, aulas de educação ambiental, inclusão digital e marcenaria e já atendeu 19 mil jovens. Dali também saíram campeões mundiais de vela.

"Frequentei o projeto por 8 anos. Lá sempre fui estimulada a estudar, pensar no futuro e acreditar que o esporte é capaz de realizar a mudança social", diz Isabela Sant’ana, 26, formada em educação física e professora do projeto.

O atual presidente do Instituto Rumo Náutico, Jonata Gonçalves, e a gerente-adjunta, Laís Carvalho, também foram alunos. "Ver ex-alunos responsáveis pela gestão do instituto e tantas outras histórias é um motivo de orgulho", avalia Torben.

O financiamento de projetos sociais tocados por atletas e ex-atletas se apoia, principalmente, em três pilares: investimento próprio, patrocinadores diretos e financiamento público via lei de incentivo fiscal ao esporte e convênios.

Manter o aporte é um desafio grande. Paula, campeã mundial em 1994 e prata com a seleção de basquete em Atlanta-1996, por exemplo, fechou as portas do Instituto Passe de Mágica em 2020 por dificuldades em captar recursos. Foram 16 anos de atuação.

O triatleta Juraci Moreira, que representou o Brasil em três Olimpíadas, utiliza a lei de incentivo para manter os 18 núcleos de sua Escolinha de Triathlon em quatro estados e o DF —pela lei, empresas podem doar até 1% do Imposto de Renda devido a projetos esportivos.

"Meu maior desafio é conseguir continuidade. Todos os anos tenho que inscrever 18 projetos para captar recursos. Temos grandes empresas conosco e torço pelo sucesso delas", afirma Moreira. O projeto, criado em 2014 em Curitiba (PR), oferece aulas de triatlo a cerca de 900 crianças em vulnerabilidade social.

O ex-zagueiro Edmílson, pentacampeão mundial de futebol, bancou o início de seu projeto no campinho de terra em que começou a jogar em Taquaritinga (SP). Atualmente conta com doações de instituições internacionais e verba captada via lei de incentivo. A Fundação Edmílson José Gomes de Moraes atende 240 crianças com esporte, cultura e recreação.

"Eu vi a necessidade de devolver um pouco para a comunidade, de ajudar o local em que vivi e de dar oportunidade aos filhos dos meus amigos, que não tiveram as mesmas chances que eu", diz.

Criado em Pirituba, na periferia de São Paulo, Serginho é outro atleta que contou com o esporte para mudar sua história. O ex-líbero, bicampeão olímpico com a seleção de vôlei, abriu o Instituto Serginho 10 em Guarulhos (SP) em 2019 e oferece reforço escolar e aulas de vôlei a mais de 300 crianças a partir dos 7 anos.

"Nosso objetivo não é formar atletas de alto nível. O que a gente almeja é que eles sejam bons cidadãos, gerar coisas boas e retribuir o que o vôlei me deu", diz. Encontrar recursos para manter o projeto tem sido um desafio. Serginho ainda tenta cobrir o prejuízo de duas invasões à sede do instituto, quando foram roubados até fios elétricos.

Neymar não esperou o fim da carreira para investir na região em que cresceu, em Praia Grande (SP). Iniciado em 2010, o Instituto Projeto Neymar Jr. impacta mais de 10 mil crianças, adolescentes e jovens em vulnerabilidade social.

Ele foi erguido em uma área de 8.400 m² cedida pela prefeitura e oferece aulas de idioma, robótica, informática, música e cursos profissionalizantes, entre outras ações.

Os frequentadores também têm acesso a atendimento médico, academia, campo de futebol, piscina e quadras.

"A gente sabe que é uma comunidade carente e proporcionar isso é motivo de orgulho e agradecimento", diz Neymar, via assessoria de imprensa.

Ele ressalta que uma das preocupações é tornar o ambiente agradável para estimular o aprendizado das crianças. "Quando eu ia para a escola era tudo muito sério. Aqui a gente pode colocar a seriedade com outras atividades lúdicas, entreter os alunos", explica.

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PROJETOS DE EDUCAÇÃO PELO ESPORTE

Escolinha de Triathlon

Idealizador: Juraci Moreira

Projeto: Oferece treinos de triatlo para mais de 900 crianças e adolescentes em núcleos no Paraná, em Santa Catarina, em São Paulo, no Distrito Federal e no Ceará.

Site: escolinhadetriathlon.com

Fundação Edmílson

Idealizador: Edmílson, futebol

Projeto: Foi criado em 2005, em Taquaritinga (SP), e atende crianças e adolescentes no contraturno escolar com atividades esportivas, recreativas e cursos profissionalizantes.

Site: fundacaoedmilson.org.br

Gol de Letra

Idealizadores: Raí e Leonardo, futebol

Projeto: Já atendeu mais de 20 mil crianças, adolescentes e jovens desde 1998. Oferece na Vila Albertina (SP) e no Caju (RJ)projetos de desenvolvimento comunitário, igualdade de gênero, arte, esporte, educação integral e qualificação para o trabalho, entre outros.

Site: goldeletra.org.br

Instituto Esporte

e Educação

Idealizadora: Ana Moser, vôlei

Projeto Sediado na Vila Tramontano (SP), proporciona atendimento a crianças e adolescentes em atividades esportivas e socioeducativas e formação de professores e estagiários. Coordena uma série de núcleos em parceria com escolas, associações comunitárias, Sesi e Sesc em regiões e comunidades com baixo nível socioeconômico e alto índice de vulnerabilidade.

Site: esporteeducacao.org.br

Instituto Guga Kuerten

Idealizador: Gustavo Kuerten, tênis

Projeto: Localizado em Florianópolis (SC), já impactou mais de 104 mil pessoas. Desenvolve programas que oferecem oportunidades educacionais, sociais e esportivas para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social; dá apoio financeiro e técnico a ONGs de Santa Catarina com ações para pessoas com deficiência.

Site: igk.org.br

Instituto Neymar Jr.

Idealizador: Neymar, futebol

Projeto: Impacta atualmente mais de 10 mil crianças, adolescentes e suas famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social. Promove ações de educação, cultura, esporte e saúde. Está localizado no Jardim Glória, em Praia Grande (SP).

Site: institutoneymarjr.org.br

Instituto Reação

Idealizador: Flávio Canto, judô

Projeto: Atende cerca de 2.500 crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social em 12 polos no Rio de Janeiro, em Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Promove ações de educação, cidadania e treinos de judô, da iniciação ao alto rendimento.

Site: institutoreacao.org.br

Instituto Serginho 10

Idealizador: Serginho, vôlei

Projeto: Inaugurado em 2019, em Guarulhos (SP), oferece reforço escolar, aulas de vôlei para crianças a partir de 7 anos, jovens e adultos e apoio a projetos sociais.

Site: institutoserginho10.com.br

Projeto Grael

Idealizador: Lars Grael, Torben Grael e Marcelo Ferreira, vela

Projeto: Baseado em Niterói (RJ), atende cerca de 700 crianças e jovens da rede pública de ensino. Oferece aulas de vela, natação e canoagem, além de oficinas náuticas profissionalizantes, biblioteca, educação ambiental, inclusão digital e aulas de marcenaria.

Site: projetograel.org.br

Mempodera

Idealizadora: Aline Silva, wrestling

Projeto: Tem como objetivo empoderar meninas de 6 a 15 anos por meio do esporte. Oferece aulas de wrestling, inglês e empoderamento em Cubatão (SP).

Site: mempodera.com