Atentado de Munique completa 50 anos com indenização e tensão

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma cerimônia marcada para a base aérea de Fürstenfeldbruck, nos arredores de Munique, recorda nesta segunda-feira (5) o atentado que matou 11 membros da delegação israelense nos Jogos Olímpicos de 1972, realizados na capital da Baviera. São esperados cerca de 70 familiares das vítimas, em uma solenidade arquitetada com o intuito de minimizar uma tensão alimentada por décadas.

Foi com bastante dificuldade que se chegou, 50 anos depois, a um acordo para o pagamento de uma indenização aos parentes dos mortos. Eles relutaram, porém, em negociações que se arrastaram nos últimos meses, aceitaram o pagamento de 28 milhões de euros (R$ 145,7 milhões).

O grosso do valor sairá do governo federal da Alemanha, mas o estado da Baviera e o município de Munique também contribuirão. É um gesto simbólico de reconhecimento de sua responsabilidade nos eventos ocorridos entre as madrugadas de 5 e 6 de setembro de 1972.

Na ocasião, oito membros do Setembro Negro, grupo ligado à Organização para a Libertação da Palestina (OLP) invadiram a vila olímpica e fizeram reféns, entre atletas e treinadores, 11 israelenses. Dois deles foram mortos ali mesmo, pouco após a invasão.

Deu-se nas horas subsequentes uma desastrada negociação de resgate que acabou na base aérea de Fürstenfeldbruck, de onde os terroristas pretendiam fugir de avião. Uma mal organizada tentativa de emboscada acabou em mais 15 mortes: os outros nove membros da delegação olímpica israelense, cinco terroristas e um policial alemão.

A Alemanha foi bastante criticada por ter ignorado alertas de segurança, por não ter dado a devida proteção aos israelenses e por ter se recusado a paralisar os Jogos após o episódio brutal. Israel se mostrou particularmente irritada porque os alemães não permitiram sua participação na operação de tentativa de resgate.

"Eles não fizeram um mínimo esforço para salvar vidas. Eles não assumiram um mínimo risco para salvar vidas, as deles ou as nossas", disse à época Zvi Zamir, chefe do Mossad, serviço de inteligência de Israel, aos ministros de seu país.

De lá para cá, a tensão a respeito do tema não se dissipou. As famílias das vítimas sempre reclamaram de falta de transparência por parte dos alemães, que mantiveram secreta boa parte dos arquivos sobre o episódio de 1972.

Alguns detalhes vieram à tona apenas 20 anos mais tarde. Em 1992, duas das viúvas tiveram acesso a fotos cuja existência era negada pela Alemanha. Elas comprovavam que houve tortura com os reféns e ao menos uma castração.

"O que eles fizeram foi cortar seus órgãos genitais e torturá-lo", disse Ilana Romano.

Seu marido, o levantador de peso Yossef Romano, tentou reagir à invasão e levou um tiro, ainda na vila olímpica. Em seguida, foi torturado e largado para morrer. "Você consegue imaginar os outros reféns sentados ao redor, amarrados, vendo isso?", afirmou Ilana.

Ela e outros parentes das vítimas também sempre se queixaram da ausência de uma indenização mais substancial. Ao longo dos anos, de acordo com um memorando do governo alemão obtido pelo jornal The New York Times, foram pagos 4,8 milhoes de euros (R$ 25 milhoes, na cotação atual) como compensação. Em rodadas mais recentes de negociação, foi feita uma oferta de 5,4 milhões de euros (R$ 28,1 milhões), algo que Ankie Spitzer, viúva do técnico de esgrima Andre Spitzer, chamou de "piada".

O impasse ameaçou que o evento programado para os 50 anos da tragédia se tornasse um fiasco, sem a participação de familiares dos mortos ou de membros do governo israelense. Foi só na última quarta (1º) que houve um acordo, anunciado em conjunto pelo presidente de Israel, Isaac Herzog, e o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier.

As famílias hesitaram, mas, pressionadas por Herzog, acabaram aceitando os termos do acerto. E os membros do governo alemão, nos últimos dias, têm procurado demonstrar que finalmente assumem o papel de seu país no episódio de cinco décadas atrás.

"É um importante passo", disse Steinmeier, que deu crédito ao líder maior do país, o premiê Olaf Scholz, pelo esforço na tentiativa de um acordo.

"O governo alemão, liderado pelo chanceler Scholz, está assumindo responsabilidade e fazendo reparações pela injustiça histórica cometida com as famílias", acrescentou. "Após 50 anos, chegou a hora de finalmente dar algum alívio às famílias de luto e reafirmar as lições dessa tragédia, inclusive a importância de lutar contra o terror, para as próximas gerações."

Além da compensação financeira, a Alemanha diz que pretende estabelecer uma comissão conjunta com Israel e abrir acesso a todos os arquivos do caso, para que haja "escrutínio de todas as fontes" e uma "avaliação acadêmica".

Ainda há alguma desconfiança. E a expectativa é de palavras duras na solenidade em Fürstenfeldbruck.