Artilheira supera depressão e se encontra na várzea: 'Futebol sempre foi uma luta'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando o árbitro sinalizou o pênalti aos 25 minutos do segundo tempo, Suellen Silva do Nascimento, 32, colocou a bola debaixo do braço e esperou. Era uma metáfora da sua vida no futebol. Colocar partidas debaixo do braço por dominá-las em campo. E esperar pela grande oportunidade.

Fez a cobrança, acertou o canto direito e correu para comemorar. Bateu no peito. Apontou com o dedo indicador para o chão, como se fosse Cristiano Ronaldo.

Foi a jogada que deu ao Palmeirinha, de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, o título da Copa Camisa 10, o primeiro torneio gratuito de futebol feminino da várzea da capital.

"Futebol é minha maior paixão. Não sei nem como explicar. É uma relação de amor, apesar de tudo", define.

O "apesar de tudo" é porque a bola já foi a maior esperança na vida de Suellen e enorme decepção.

Tristeza que contribuiu para para seu problema com a bebida, crises de pânico e depressão. "Eu não queria sair de casa", afirma.

A história da atacante é a mesma de várias meninas que tentaram jogar futebol feminino em equipes profissionais de São Paulo nas últimas décadas. Um círculo de esperança, tentativa, erro e decepção.

Foi na várzea, no Palmeirinha, que ela se reencontrou depois de muito tempo e onde se diz contente em atuar pela primeira vez após anos. A página da competição no Instagram fez enquete para escolher a melhor jogadora do torneio. A comunidade se mobilizou para elegê-la.

"Fiquei dois anos sem jogar bola. Eu não pensava em mais nada. Fiquei com ansiedade, crise de pânico. Eu me sentia bem ruim, tinha medo da rua. Não conseguia trabalhar. Uma menina do CATS [Clube Atlético Taboão da Serra] me chamou para jogar no Palmeirinha e, de tanto ela insistir, acabei indo em uma partida", explica.

Foi muito melhor do que esperava.

"Estou há três anos lá, e fui recebida muito bem. Dão condução, alimentação, sempre se preocupam. Tem churrasco para as atletas depois dos jogos. Eu fui mais bem recebida lá do que nos times profissionais em que passei", comenta.

Suellen chamou a atenção cedo em partidas de rua, ao lado e contra meninos. Foi fazer um teste no Juventus, da Rua Javari, aos 16 anos. Acabou aprovada e convidada a ficar no alojamento do clube. Era um sonho. Atuar por equipe tradicional, com elenco profissional. Poderia ser a porta de entrada. Não foi.

"Nasci com o dom para o futebol e nunca liguei quando ouvia aquelas coisas de sempre: vai lavar louça, mulher não tem de jogar bola... Essas besteiras. Mas foi muito difícil no Juventus porque eu não tinha apoio financeiro de ninguém e não ganhava nada. O clube só dava alojamento, e eu tinha de ir e voltar andando para o treino. Era longe. Você imagina o que é uma menina, uma adolescente, fora de casa e sem dinheiro nem para comprar artigos de higiene pessoal...", recorda.

Ela decidiu ir embora. Era sacrificante demais. Voltou para casa, e apareceu vaga no time da cidade, o CATS.

"Era mais perto, mas a mesma história. Não havia apoio nenhum. Nada. A gente treinava todos os dias sem ganhar nenhum centavo. Muitas vezes eu ouvi pessoas que me diziam para desistir. Mas o futebol sempre falava mais alto."

Para ter algum dinheiro, começou a conciliar a vida de jogadora com a de operadora de telemarketing. Às vezes, conseguia ir aos treinos e jogos. Às vezes, não. Apesar da Cristina, sua mãe, dar apoio, não havia muito mais a fazer. O pai de Suellen morreu quando ela tinha 13 anos.

O Juventus a chamou de volta com a promessa de pagar R$ 200 por mês. Ela foi. A estadia foi tão grande quanto o salário. Desistiu e começou a fazer bicos para se manter. Foi auxiliar de produção, trabalhou em restaurante

"Futebol, para mim, sempre foi uma luta. Nunca me dava nada, e eu insistia e insistia".

A recompensa inesperada chegou com a várzea. Ela está bem com o esporte como nunca havia acontecido. Gerencia um bar em Taboão, está casada com sua xará Suellen, que a acompanha em jogos, e atua pelo Palmeirinha.

A artilheira acompanha o crescimento do futebol feminino, fica contente com isso, mas espera mais. Sabe que não será para ela. Aos 32 anos, já não é factível para ela atuar como profissional. Mas, se acontecer para as novas gerações, estará feliz.

"O que espero é igualdade. Essa é minha única luta hoje em dia. Eu não vou viver de futebol. Não quero para mim, mas para as pessoas que vão vir. Acredito nisso. Já joguei com um monte de meninas que conseguiram viver do futebol. Mas a maioria das histórias é de quem não conseguiu", finaliza.

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