Argentina vê domínio brasileiro nas competições continentais e teme que situação possa piorar

Corinthians eliminou o Boca Juniors na Libertadores desta temporada (Foto: JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images)
Corinthians eliminou o Boca Juniors na Libertadores desta temporada (Foto: JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images)

Boa parte da imprensa argentina e torcedores do Boca Juniors tinham certeza: se Arturo Vidal fosse jogar em um clube da América do Sul, seria o de La Bombonera. Ele já havia sinalizado isso no passado e a fé na mística da camisa azul e ouro era inabalável.

Mas quando chegou no momento de decidir, o volante chileno escolheu o Flamengo.

“É impossível para qualquer equipe argentina competir financeiramente com os brasileiros”, concedeu o presidente Jorge Ameal, diante da decisão de Vidal e os cerca de US$ 5 milhões por ano de salários oferecidos pelo Rubro-Negro.

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As diferenças econômicas e técnicas entre times dos dois países se transformaram em preocupação na Argentina. Principalmente pela percepção de que os brasileiros estão na frente na questão de administração e resultados.

“Se continuar assim, é um abismo que vai se aprofundar. Algo precisa ser feito”, queixa-se o zagueiro Oscar Ruggeri, campeão mundial de 1986 e hoje comentarista da ESPN.

Existe a possibilidade real de que a final da Libertadores seja exclusiva para times brasileiros pelo terceiro ano consecutivo. Pelo menos uma presença argentina está garantida nas semifinais porque Talleres e Vélez Sarsfield vão se enfrentar nas quartas. Há também o Estudiantes, rival do Fortaleza. Os outros quatro ainda vivos são Palmeiras, Atlético-MG, Flamengo e Corinthians.

Se acontecer a decisão brasileira será a primeira vez que dois clubes da mesma nação fazem a final por três anos seguidos: em 2020 o Palmeiras bateu o Santos e, na temporada seguinte, derrotou o Flamengo.

“É uma questão conjuntural também. Olha a confusão que foi para o River Plate conseguir comprar o Borja. Quase o negócio deu errado porque não havia como transferir os dólares”, lembra o técnico Ricardo Caruso Lombardi, com passagens por San Lorenzo, Racing e Argentinos Juniors, entre outros.

Ele se refere à saga da agremiação portenha para conseguir usar pesos argentinos para pagar US$ 6,5 milhões ao Junior de Barranquilla e ao Palmeiras. Havia restrição do Banco Central do país para compra e venda da moeda americana por causa da crise financeira.

O domínio verde-amarelo pode se estender à Copa Sul-Americana também. Não há nenhum argentino nas quartas de final, mas estão lá quatro brasileiros (São Paulo, Ceará, Atlético-GO e Internacional). No ano passado, a decisão foi disputada entre Athletico e Red Bull Bragantino.

O problema passa pela economia, claro. O salário de qualquer clube da Série A é superior aos que são pagos pelas equipes argentinas, menos Boca e River, a depender da situação.

“Seja no mercado de técnicos ou de jogadores, a competição é impossível. O Brasil se tornou um atrativo muito forte, algo que chama a atenção dos demais países. Na questão econômica e técnica, é um futebol fortíssimo”, constata o treinador Omar De Felippe, atualmente no Platense, da elite argentina.

O maior salário do futebol nacional é o do atacante Darío Benedetto, do Boca Juniors, repatriado da França para receber 3,1 milhões de euros por ano (R$ 17,7 milhões). O valor é uma exceção. Segundo a Futbolistas Agremiados, o sindicato da categoria, a média salarial dos jogadores da primeira divisão está em cerca de R$ 30 mil mensais.

Mas resumir a uma questão financeira é ter visão estreita do que acontece.

“É uma questão também estrutural. O Brasil se acostumou a um sistema de pontos corridos, turno e returno, com acessos e descensos. É algo estabelecido Na Argentina, cada ano funciona de um jeito. O campeonato nacional é inchado, leva muito tempo e é confuso. A fórmula da segunda divisão é preciso um cientista para decifrar. É tudo confuso”, queixa-se Nicolás Cambiasso, ex-goleiro, comentarista de TV e hoje presidente do All Boys, time que revelou Jonathan Calleri, hoje no São Paulo.

A elite tem 28 times. Desde o início da pandemia, não há rebaixamentos, só acessos. Isso inflou as duas principais divisões. A Primera Nacional, nome da Segundona, é jogada com 37 clubes. A base de apoio de Claudio Tapia, presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) está nas agremiações dos torneios menores.

Se o sistema de sociedades anônimas vingar no Brasil, a distância econômica pode crescer. Este é um tema tabu na Argentina e boa parte dos dirigentes considera absurdo o clube ter um dono.

“Para mim, isso não pode acontecer. O time pertence aos sócios, aos torcedores. No que depender de mim, isso jamais vai mudar”, defende Rodolfo D’Onofrio, ex-presidente do River Plate.

Mesmo com o temor de que o domínio brasileiro nas competições continentais se aprofunde e o país se torne cada vez mais atrativo para os jogadores argentinos, a visão dele é que clube-empresa não é o caminho.

Isso não impede que isso aconteça de forma velada e dê poder a empresários como Christian Bragarnik. Com seus jogadores, ele loteou equipes como o Defensa y Justicia e Godoy Cruz. Carlos Tevez apenas aceitou ser técnico do Rosario Central porque o agente disse que levaria reforços para o time.