André Domingos relembra prata em Sydney ‘sem estrutura’ e prevê bons resultados em Paris

Equipe brasileira comemora a medalha nas Olimpíadas de 2000 (Foto: JO SYDNEY 2000/Gamma-Rapho via Getty Images)
Equipe brasileira comemora a medalha nas Olimpíadas de 2000 (Foto: JO SYDNEY 2000/Gamma-Rapho via Getty Images)

André Domingos, personagem, herói da prata olímpica nos confidenciou de forma exclusiva os bastidores do pódio olímpico nas Olimpíadas de Sydney, em 2000.

Projetos, futuro do atletismo, os seus favoritos pela conquista da medalha olímpica em Paris. Domingos, em papo bem descontraído, aproveitou para projetar o esporte brasileiro. Atuando no setor público, como secretário de esportes da cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo, enfatiza o que é necessário para o Brasil se tornar uma potência mundial.

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André, você fez parte de uma geração vitoriosa. Como se produziu esse super time? O que mudou no atletismo do que era feito antes em termos de preparação para atualmente?

Esse time na realidade apareceu com a inteligência do Jaime, morador de Presidente Prudente. Ele sempre ia nos grandes eventos em São Paulo, lá estava os futuros atletas promissores, talentosos, como eu, como Claudinei, Vicente Lenilson e o Edson Luciano. Ele fez o convite e foi trazendo 1 a 1 para cá até a montagem desse super time. Acredito que a melhor analogia é que as coisas eram feitas com mais amor, mais raça, porque a gente não tinha nada, recursos. As estruturas eram péssimas. A gente não tinha uma sala decente de musculação para treinar. O Jaime tinha que ficar adaptando treinamento, mas a gente tinha muito amor.

Então, talvez, as dificuldades foram o que fizeram a gente chegar a esse patamar tão maravilhoso que foi o pódio olímpico, que não foi apenas uma vez. Hoje temos diversas bolsas que dão algum suporte. Na nossa época não tinha nada. Demorou 10 anos para o Paulo André bater os meus recordes. Ninguém bateu ainda o recorde do Robson Caetano. Acredito que o que falta ainda é um incentivo na escola, um trabalho forte de base, de massificação do atletismo. Hoje em dia, um moleque vai lá compra um celular de 8 mil, um carrão. Bem diferente do passado, né?! Eu costumo dizer que no passado a gente tinha muito mais amor e garra, por isso fomos tão longe.

O que você recorda do vice-campeonato olímpico? Qual era a expectativa? Quais eram os bastidores?

As lembranças são maravilhosas. Eu me recordo que na semifinal daquele time, daquela equipe, a gente tinha ganhado a preliminar muito fácil correndo de manhã. Inclusive, a gente correu com Claudio Roberto fechando. Entramos para a semifinal, os 4 negrões se achando, tínhamos corrido bem a preliminar, tínhamos feito um tempo maravilhoso. Aí chegou na semifinal à noite. Deu tiro e na hora da passagem do Édson para mim, nos ‘embananamos’ e quase deixamos o bastão cair. A gente acabou atrasando muito a passagem e Cuba chegou na nossa frente. Isso nos abalou profundamente por conta de displicência, ‘salto alto’ da gente. Éramos para ter vencido os cubanos. A final seria apenas na noite do dia seguinte. Teríamos que esperar por mais 24 horas. Então, imagine o nervosismo. Só que acabou a semifinal, a gente saiu da pista, fomos para a pista de aquecimento, o Jaime estava lá, esperando a gente. Deu aquela chamada nos quatro, para gente ‘abaixar a bolinha‘ e aí foi uma loucura. Foi um terrorismo, parecia que a noite não ia acabar, o dia não ia acabar até a chegada da final. Tínhamos o medo de repetir a fatídica semifinal contra Cuba.

Algum nome da nova geração carrega o status de grande atleta para, supostamente, conquistas importantes?

Nós temos uma geração de velocistas muito boa, o Felipe Bart que está dando um show nas pistas, temos o Rodrigo que também está dando um show, o Erick. Paulo André que provavelmente estará de volta ano que vem. Vitor Hugo, etc… A geração de hoje tem totais chances de conquistar uma medalha olímpica, mas o mais importante é o jogo de equipe e união. A preparação para uma competição como um mundial e Olimpíada é completamente diferente. É por lá que a gente tira o joio do trigo, separa o homem do menino.

Quem viu na sua geração como o maior? Bolt foi o maior atleta da história do atletismo na sua visão?

Eu corri com ele sim. Se eu não me engano, em Guadalupe, na América Central. Ele era juvenil, ele já era um talento, talentosíssimo. Eu coloco dois nomes, um que não é da minha geração, o Carl Lewis. Com certeza, o maior nome de todos os tempos foi o Bolt. Carl Lewis de uma geração anterior, e da minha geração, o Bolt.

O que tem feito atualmente após a aposentadoria das pistas? A educação ainda é o único meio de inserir jovens no esporte?

Atualmente atuo como secretário de esportes de Presidente Prudente, sou educador físico, além de arquiteto urbanista. A receita para o Brasil ser uma grande potência no esporte é o incentivo nas escolas. Não adianta a gente querer fugir disso. O MEC tem que andar junto. O esporte tem que estar inserido dentro da sociedade. Enquanto isso não acontecer, as nossas penitenciárias vão continuar super lotadas, criminalidade na rua vai acontecer, a violência nas cidades urbanas não vai cessar, a gente vai ter hiper lotação das nossas cadeias, crianças na rua, crianças pedindo esmolas no semáforo. O esporte, ele educa, é saúde. O esporte ensina os princípios de ganhar e perder, da educação, do respeito e ter discernimento do que se pode fazer. O esporte tem o poder de mudar a vida das pessoas, isso vai atingir a educação, a escola, a família.

Podemos contar com medalhas para o atletismo na próxima Olimpíada? Quais são seus nomes favoritos?

Sem sombra de dúvidas, temos sim. Temos vários nomes: Thiago Braz é um fenômeno de superação. O nosso revezamento tem chance. Darlan Romani no arremesso. O Danielzinho na maratona tem reais chances de subir ao pódio. Caio Bonfim na marcha atlética tem grandes chances e possibilidades, mas quem tem mais chances reais é Alison dos Santos. Ele tem dado um verdadeiro show, é o primeiro do ranking mundial.