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'Time pequeno'? Saiba como joga o Internacional

Yahoo Esportes

Por Rodrigo Coutinho (@rodrigocout)

” O adversário jogou como time pequeno”. A frase dita por Renato Gaucho após o
Grenal da 5a rodada do Campeonato Brasileiro gerou polêmica, mas pouca
discussão sobre o que a motivou. O que seria jogar como time pequeno? Passar
mais tempo se defendendo? O famoso ”jogar por uma bola”? Como quase
sempre no futebol brasileiro, generalizações são utilizadas sem nenhum tipo de
precaução e contribuem para a ”deformação” do que o torcedor comum busca
entender dentro de campo. Desde então, o Colorado mostrou evolução na sua
proposta de futebol, deixando de lado a figura de linguagem utilizada para avaliar
o time de Odair Hellmann.

Saiba tudo sobre a forma de jogar do Internacional (Foto: Reprodução)

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O Internacional vem de um ano no calvário da Série B. Segue sendo um clube que ainda busca se recolocar como exemplo de modelo administrativo, o que lhe transformou em potência na década passada, mas aos poucos vai se recuperando. Para que o processo seja retomado com sucesso, é de suma importância alcançar os objetivos mínimos no campo. O escolhido para guiar essa missão foi um catarinense da cidade de Salete. Odair foi revelado, mas pouco jogou no Colorado profissionalmente. Passou ainda por Fluminense, e uma infinidade de clubes de menor expressão no futebol brasileiro e até na Europa. Já aposentado, ingressou como auxiliar e depois treinador na base do Inter em 2010 até chegar de forma efetiva ao comando da equipe profissional.

Sem grife e desconhecido da grande massa, foi questionado e passou por sérias turbulências até ajustar o rumo e enfim obter e evolução coletiva do time que dirige. Atualmente parece consolidado na briga por uma vaga na Libertadores de 2019 via Brasileirão. Foi eliminado da Copa do Brasil, caiu nas quartas do Gauchão para o maior rival, e o fato de não ter que disputar nenhuma outra competição até o final do ano pode ser um fator favorável ao Internacional. Terá tempo para descansar e treinamentos para trabalhar ainda mais o coletivo.

Hellmann é mais um técnico “sem grife e sem currículo” ganhando espaço (Foto: Reprodução)

Para ter tranquilidade e chances maiores de obter algo relevante em 2018, o treinador deixou claro a opção de manter a segurança defensiva prioritariamente. Parece óbvio. Quem não leva gols, não perde. Quem não perde, está mais perto dos objetivos. Por mais que seja uma equação lógica, o caminho deste cenário não é tão facilmente compreendido num país que não valoriza outra forma de jogar que não seja a ofensiva, baseada em jogo plástico e trocas de passes curtos, dribles, magia. Não se trata de gosto pessoal, mas sim reconhecimento. No futebol, existem diversas formas de jogar. Jogar mal é não ter ideia do que fazer ou executar mal a sua ideia. Coisas que definitivamente este Internacional não tem feito.

Obviamente o modelo pode ser questionado na avaliação de qualidade e característica do plantel colorado, que foi reforçado ao longo do ano e têm bom nível. O ponto de partida desta forma de jogar, porém, vem do momento de maior pressão. Odair tentou produzir um Colorado mais ”plástico”, mas entendeu que as peças que dispõe pedem um outro estilo. Os olhares críticos até então, não conseguiam respeitar os processos de formação da equipe e só enxergavam o currículo de quem está na beira do campo comandando o time.

Os números de Odair à frente do Colorado (Foto: Reprodução)

O Esquema e o Sistema

A Copa do Mundo 2018 deixou a lição. Cada vez mais teremos times que se moldam de acordo com a necessidade do jogo e do adversário. França, Croácia e Bélgica foram exemplos claros. O Internacional também pode se enquadrar nessa nomenclatura. Taxar o Colorado como um time de perfil exclusivamente reativo é um erro. Por mais que no jogo relatado no primeiro parágrafo deste texto tenha sido esse o comportamento, a observação de vários jogos da equipe dá mostras de que há uma padrão também para propor. Este, porém, alicerçado na força física e na velocidade. O esquema tático é na maioria das vezes o 4-1-4-1, mas o 4-2-3-1 também aparece com frequência, principalmente quando a equipe tem que propor mais.

Como deve ficar o time colorado para os próximos jogos (Foto: Reprodução)

Fase Defensiva

É a fase do jogo em que o Internacional mais fica. É apenas o 12º time no ranking de posse de bola no Campeonato Brasileiro, apenas 49,5% em média. O Colorado marca no sistema de encaixes e perseguições. Estas perseguições, porém, não são longas. Na maioria das vezes são médias e em alguns momentos curtas. Isso varia de acordo com o bloco de marcação. Se o time parte de um combate mais adiantado, as perseguições são médias. Se está mais recuado, agrupado, as perseguições são curtas. Contudo há sempre muita entrega e comprometimento dos jogadores para que possíveis espaços gerados por estas perseguições sejam compensados. 

A intensidade da abordagem de marcação acaba variando. Quando a equipe está posicionada, a abordagem ao adversário que tem a bola não é tão forte, mas quando há alguma situação de inferioridade ou pressão vencida, a ”pegada” aumenta consideravelmente. Um padrão interessante de observar é a postura dos zagueiros quando um passe encontra um adversário entrelinhas. Em fase defensiva, eles não buscam abordar o rival neste ponto do campo, preferem defender a última linha, e deixam a cargo dos volantes a abordagem no adversário.

Cuesta e Rodrigo Moledo vêm muito bem neste aspecto. Defendem a área colorada de forma eficaz. Atualmente o time gaúcho tem a terceira melhor defesa em média de gols sofridos no Brasileirão. O argentino é quem tem o melhor desempenho em duelos defensivos. Vence 35,6% neste tipo de jogada, o 11º no ranking geral da competição.

Transição Defensiva

Por mais que o número de gols sofridos de contra-ataque adversário não seja tão baixo, a transição defensiva do Internacional funciona muito bem! A ideia é reagir rápido após a perda da posse e isso é muito bem assimilado pelos atletas, principalmente os de linha de meio, laterais e pontas. O jogador mais próximo da bola pressiona e seus movimentos são acompanhados pelo restante da equipe. O lateral do lado contrário ao que a jogada se desenvolve, busca recompor na linha defensiva, mas até os zagueiros são vistos se afastando do setor para inibir contra-ataques.

Nesta fase, Rodrigo Dourado se destaca. Principalmente quando precisa antecipar o fechamento de uma linha de passe, algo importante neste modelo de transição defensiva. Tanto que é o oitavo jogador que mais intercepta bolas no Campeonato Brasileiro. A média é de sete por jogo.

Fase Ofensiva

Como já citado, o Internacional se sai melhor produzindo jogadas em transição. Mas como superar a dificuldade em criar algo de forma mais pausada contra equipes mais fechadas? Em um elenco com mais atletas de velocidade e força física, Odair Hellmann bolou um estilo que pudesse atender justamente a estas características. Não é errado dizer que o jogo mais direto é o do Colorado, mas o modelo tem suas especificidades.

A ligação direta é algo já conhecido. Bola longa, geralmente partindo de Cuesta (é o 6º neste tipo de passe no campeonato) buscando o centroavante. O Inter é o 4º time que mais dá passes longos no Brasileirão e o 5º que mais acerta passes para o terço final. Seja Damião ou Alvez, e agora, possivelmente Guerrero, o Colorado sempre tem uma referência pronta para tentar se impor fisicamente. Este ”camisa 9” então é o alvo do passe longo. Ele conta com movimentações em diagonal dos pontas e a aproximação dos ”todocampistas” Edenilson e Patrick, dupla que é vital na meiuca gaúcha.

Contribuições diretas para gol de Patrick e Nico López (Foto: Reprodução)

Uma outra forma de ligação direta é o passe em profundidade pelos lados do campo, buscando as infiltrações de Patrick ou Edenilson. Os laterais também são muito utilizados neste aspecto, mas para que tenham espaço o papel dos pontas é fundamental. Dificilmente veremos os extremos colorados dando amplitude no terço final do campo. Quando a jogada se desenvolve pelo lado contrário, aí sim podem ter esse comportamento. Na grande maioria dos lances, os pontas flutuam pro centro ou ”descem” até próximo da linha média, visando justamente gerar o espaço para as infiltrações de volantes e laterais.

Outra forma de criar jogadas, esta de maneira mais aproximada entre os atletas, é atrair por um lado e girar rapidamente para acelerar no lado contrário. O Inter forma triangulações pelos lados, mas não estabelece tantos passes ali. Induz o adversário a achar que a jogada se desenvolverá, mas roda rapidamente para o lado contrário. A ideia é criar uma situação de ”transição” em plena fase ofensiva. Por isso acelera, é agressivo. Acaba tendo um percentual de acerto de passes baixo, apenas 84%, o 11º do torneio. Natural pelo estilo.

No terço final, a busca é quase sempre pelo cruzamento como produto para as finalizações. Por isso as jogadas são voltadas para os flancos. É a 3ª equipe que mais acerta cruzamentos e a 4ª que mais faz esse tipo de jogada.O estilo tem funcionado no Brasileirão. É o 6º ataque mais efetivo! Iago, é o 10º que mais acerta cruzamentos na competição. Quem também se destaca individualmente é Nico López. O uruguaio nem sempre foi titular ao longo do ano, mas é o terceiro atleta que mais finaliza no Brasileirão.

Como saem os gols colorados (Foto: Reprodução)

Transição Ofensiva

As transições ofensivas seguem o padrão de buscar a agressividade. Força, velocidade, profundidade e definição rápida das jogadas são os ”nortes”. Até por isso, há muitos erros nesta fase do jogo. O Colorado, mesmo sendo o 12º em posse, é o time que mais perde bolas no Campeonato Brasileiro. Como tenta sempre ser agressivo, erra mais. Ao mesmo tempo, porém, tem muita força física e velocidade, tanto que é o segundo time que menos sofre faltas na Série A.

Patrick, Edenilson, e os pontas são primordiais neste aspecto. Os volantes pela rápida chegada ao ataque, e os demais por serem válvulas iniciais de escape, assim como a busca do atacante de referência para segurar a bola e aproveitar a aproximação do restante da equipe.

Bola Parada Defensiva

O Colorado tem como modelo de marcação neste tipo de jogada a predominância ”zonal”. Nos escanteios, são cinco jogadores(os dois zagueiros, o centroavante, Rodrigo Dourado e Iago) em linha, marcando por zona. Um homem junto a primeira trave e mais dois agindo nos bloqueios. Geralmente Pottker e Patrick têm a função de impedir que os principais cabeceadores adversários cheguem na bola. No popular: ”vão no corpo”. A ideia não é disputar pelo alto. Os outros dois jogadores de linha ficam no rebote. 

Já nas faltas laterais, sete jogadores em linha marcam por zona e geralmente se posicionam na risca da grande área, tentando impedir o avanço dos jogadores adversários e isolar a área de atuação do goleiro. Outros dois atletas ficam no rebote, um deles bloqueando o principal cabeceador adversário. Quem sobra fica na barreira. O Inter leva pouquíssimos gols de bola parada/aérea e Rodrigo Moledo é o 9º jogador que mais vence duelos aéreos no Brasileirão.

Como o Inter leva gols (Foto: Reprodução)

Bola Parada Ofensiva

Forte na defesa, forte no ataque! A artilharia aérea colorada é pesada e baseada em organização bem dinâmica. Nos escanteios, ataca a área com cinco jogadores na maioria das vezes, tendo o centroavante buscando o primeiro pau e os zagueiros pela faixa central. Rodrigo Dourado e Patrick são outros nomes sempre participativos. O primeiro faz companhia ao centroavante no primeiro pau e o segundo vai na outra trave. Nos momentos de pressão, Pottker, que geralmente está no rebote, é outro a atacar a área em escanteios. O homem da batida quase sempre tem o ”pé invertido”. Um destro batendo pelo lado esquerdo. E um canhoto batendo pelo lado direito. Nas faltas laterais, são sempre seis jogadores atacando a área e todos os padrões do escanteio são repetidos. 

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