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Por que as pessoas queimam coisas da Nike e de onde vem o ódio a Kaepernick?

Yahoo Esportes
Anúncio com Kaepernick sendo mostrado em São Francisco (Justin Sullivan/Getty Images)

Nesta semana, a Nike lançou sua campanha publicitária de 30 anos do slogan ‘Just do it’ de forma polêmica, estrelando Colin Kaepernick, ex-jogador da NFL que causou muita rejeição desde que começou a se ajoelhar durante o hino nacional protestando contra o racismo sistemático nos Estados Unidos. E por mais que a Nike tenha sofrido com repercussão negativa, a empresa só ampliou a campanha.

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Na segunda, Kaepernick anunciou sua participação na campanha ao postar uma imagem em seu Twitter com a legenda “Acredite em algo, mesmo que signifique sacrificar tudo”.

Após o anúncio, muitos usuários das redes sociais começaram um movimento para que a Nike fosse boicotada pelo apoio ao atleta. Várias pessoas postaram vídeos queimando produtos da Nike, outros falando que nunca mais comprariam itens da empresa e um cantor americano popular mostrou que seu técnico de som tinha cortado os logos da Nike de suas meias.

Por que Kaepernick causa tanto ódio?

Em 2016, o então quarterback do San Francisco 49ers não se levantou durante a execução do hino nacional em um jogo de pré-temporada. E após a conversa com um veterano do Exército que tinha jogado na NFL, Nate Boyer, ele decidiu que seria melhor ajoelhar durante o hino como forma de respeito aos oficiais do Exército e aos veteranos.

Quando perguntado sobre o motivo da ação, Kaepernick disse estava protestando contra a brutalidade da polícia americana contra africanos-americanos. Vários estudos mostram como as minorias são mais atacadas pelos policiais locais, principalmente quando não estão armados ou em casos de uso ilícito de drogas.

Durante as duas temporadas seguintes, muitos jogadores e times passaram a apoiar os protestos de Kaepernick, com vários deles ajoelhando ou mostrando outros sinais de união, como a saudação dos Panteras Negras ou braços ligados durante a execução do hino.

Tudo isso aconteceu durante a ascensão e a vitória de Donald Trump na eleição americana de 2016. E o empresário sempre criticou bastante Kaepernick e companhia, dizendo que eles não respeitavam os soldados americanos que lutaram pela liberdade do país ao protestar durante o hino. Chegou ao ponto de Trump chamar os atletas de “filhos da p***” e até pedir suspensões para atletas que protestassem.

Mesmo com vários veteranos de guerra saindo em defesa dos atletas, dizendo que o motivo pelo qual lutaram foi para que os americanos tivessem liberdade, boa parte da direita americana tem insistido no ponto de que protestar durante o hino é protestar totalmente contra a bandeira nacional e contra o Exército norte-americano. A ideia distorce tanto o ideal inicial do protesto que a frase mais usada pelos jogadores foi “Vocês não estão entendendo”.

Kaepernick fora da NFL

Após a temporada 2016, Colin Kaepernick optou por sair de seu contrato com o San Francisco 49ers, virando um agente livre. Passou o período de assinaturas e o quarterback continuou sem contrato, mesmo sendo melhor que vários jogadores da posição que estavam empregados.

Em novembro de 2017, Kaepernick e a NFL estão em uma briga judicial após o atleta processar a liga afirmando que os donos das franquias fizeram uma associação para deixá-lo sem contrato.

Algo que pode ajudar o quarterback no caso é o fato de que Eric Reid, um de seus principais companheiros no protesto, ainda está desempregado após seu contrato com os 49ers acabar ao fim de 2016. Reid chegou a ser procurado pelo Tennessee Titans em agosto, mas cancelamentos de voos impediram que o safety chegasse à Nashville e a equipe acabou assinando com Kenny Vaccaro por medo de perder a opção.

Eli Harold, Colin Kaepernick e Eric Reid ajoelhados (Michael Zagaris/San Francisco 49ers/Getty Images)

A Nike perdeu dinheiro com o boicote?

Bom, aqui está um ponto interessante da questão. Nos últimos dias, as ações da Nike realmente caíram na bolsa de valores. Mas não é possível afirmar que a queda seja apenas por causa de Kaepernick ou até que tenha relação com a nova campanha, já que outras empresas de grande porte do ramo como Adidas e Puma também tiveram quedas semelhantes ou maiores desde então, indicando que existe um motivo diferente por trás dessas quedas.

Recentemente, parte das relações entre Canadá e Estados Unidos está estremecida por causa das tarifas protecionistas impostas por Trump, que ameaça até acabar com o NAFTA, o acordo de troca entre países da América do Norte. “O impasse e a perspectiva de mais restrições ao comércio internacional apertou as perspectivas dos exportadores que têm interesses fortes na região, que é um mercado muito forte pra varejistas esportivas”, explica o economista Vitor Camargo.

E é até meio inocente pensar que a Nike não teria estudado o mercado antes de lançar a campanha, visto que eles mantêm Kaepernick no rol de atletas patrocinados desde que ele não está mais na NFL. Outras empresas, inclusive, estavam de olho no jogador caso a Nike encerrasse seu contrato.

No mercado publicitário, a Nike recebeu até boas notícias. Segundo o Apex Marketing Group, nas primeiras 24 horas após o anúncio, a empresa recebeu mais de 43 milhões de dólares em exposição de mídia. E o valor só deve ter aumentado com a veiculação de um anúncio longo.

A campanha

Voltemos ao início do texto. Após as imagens com Kaepernick, que foram usadas em várias lojas norte-americanas da Nike, a empresa lançou um anúncio com a narração do quarterback e mote “Só é um sonho maluco até você realizá-lo”.

O anúncio mostra vários atletas patrocinados pela Nike em diversas situações de sonho: Serena Williams, “a garota que saiu de Compton para ser a melhor atleta do mundo”; LeBron James, que “deixou de ser um dos melhores do basquete para ser maior que o basquete”; Alphonso Davies, “que nasceu como um refugiado e chegou à Seleção Nacional aos 16 anos”.

E isto é exatamente um dos pontos pelo qual a Nike se sente tão tranquila com a campanha, já que ela tem apoio de tantos atletas de elite. Lembrando que já tínhamos recebido uma prévia quando Serena foi proibida de usar seu macacão em Roland Garros: “Você pode tirar a super-heroína de sua fantasia, mas você nunca pode tirar seus poderes”. Mais um exemplo de que a atuação comercial da Nike associada a questões sociais não se limita de modo algum a apenas Kaepernick.

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