Update privacy choices
Esportes

Por que os clubes brasileiros jogam tanto?

Colaboradores Yahoo Esportes
Yahoo Esportes
Everton e Fabiano durante o clássico entre Grêmio e Inter no Gauchão de 2018 (Lucas Uebel/Getty Images)

Por Caio Calazans (@Cabrito13)

Uma polêmica que assola o futebol brasileiro há décadas diz respeito ao calendário nacional. Alguns defendem a adequação ao modelo europeu, com a retirada dos campeonatos estaduais e outros são contra a saída dos regionais e querem se preserve as características do esporte nacional. No fim do primeiro semestre deste ano, a Pluri Consultoria fez um levantamento dos times de futebol que mais atuaram na última década. Todos os dez primeiros colocados são brasileiros. Apenas na 29ª posição aparece uma equipe europeia. Mas por que nossos times jogam tanto?

Você já viu o novo app do Yahoo Esportes? Baixe agora!

Entre os primeiros colocados do levantamento que pegou o período 2008-2017, estão o Internacional com 713 partidas, o Grêmio com 703, Santos e São Paulo, ambos com 701 jogos cada, e o Palmeiras com 684 atuações. Depois desses, ainda dentro do Top 10 vem Corinthians (674), Fluminense (673), Flamengo (671), Atlético Paranaense (668) e Vitória (666). Entre os 28 times que mais jogaram na última década, nada menos que 24 são brasileiros. A primeira equipe europeia a figurar na lista é o Barcelona, com 593 partidas.

Com passagens por grandes clubes brasileiros, como Vasco, Grêmio e São Paulo, além de clubes do exterior, como Olympique de Marseille, Bordeaux, Mônaco e Espanyol; o ex-jogador e hoje técnico de futebol, Eduardo Costa, entende que há mais malefícios do que benefícios no excesso de partidas: “Isso sobrecarrega os atletas e, automaticamente, o nível dos jogos também cai. É como se fosse um efeito cascata: a qualidade técnica das partidas cai, o interesse pelos jogos diminui, os patrocinadores não acham mais atraente investir nisso… Então, é algo que precisa ser analisado para que se tenha uma solução benéfica ao futebol brasileiro.”

Para Eduardo, o número elevado de partidas afeta a parte física e mental dos atletas: “Afeta bastante, principalmente pelo número de lesões que acontecem devido ao pouco tempo de recuperação dos atletas entre uma partida e outra. Então, não existe a recuperação da parte física e da mental também, pelo desgaste das viagens, tensão e pressão de todo um ano de trabalho.” Em comparação com a Europa, ele afirma: “O tempo de recuperação dos atletas é algo muito levado em consideração. Eles fazem de tudo para dar o tempo necessário para que todos os envolvidos numa equipe de futebol possam ter o tempo mínimo de recuperação. Então, quando você retorna para uma nova temporada, está 100% na parte física e mental, tendo a condição de ter uma melhor preparação”.

Já o técnico Valdir Espinosa, com mais de 45 anos de experiência no futebol e passagens por grandes clubes como Grêmio, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Corinthians, Portuguesa, entre outros, confirma que a polêmica é bem antiga: “Hoje, nós estamos reclamando de coisas que a gente já viveu no passado. Em 1983, em 27 dias, eu joguei oito jogos com o Grêmio”. Para ele, o independente da quantidade de jogos, tudo pode ser amenizado por um bom trabalho de bastidores: “É fazer o planejamento certo e aí um detalhe: executar esse planejamento. Quando começa a temporada, todo mundo sabe que vai disputar o campeonato regional, a Libertadores, sabe tudo, nada é novidade. Você tem de saber planejar. Se eu vou jogar 40 partidas, eu faço o planejamento para 40. Se eu vou jogar 80 partidas, faço o planejamento para 80. Se fizer mal feito para 40, vai dar errado. E se fizer mal feito para 80 partidas, também vai dar errado. Se fizer bem feito e executar esse planejamento, pode jogar 200 vezes”.

Com relação aos campeonatos estaduais, a polêmica aumenta quando a lista demonstra que os times brasileiros que mais jogaram têm, em média, um terço das partidas nesses campeonatos. Retirando os estaduais, o número de jogos fica parecido com o das equipes europeias. No entanto, tanto Eduardo Costa quanto Valdir Espinosa não são a favor do fim dos campeonatos estaduais, mas acreditam que mudanças podem ajudar a melhorar esta realidade. “Acabar com os campeonatos estaduais é uma questão delicada, pois são muitos anos de história, eles têm uma grande representatividade para os torcedores, para a televisão. Talvez começar os estaduais com equipes sub-23 e, aos poucos, ir colocando os atletas profissionais, mas é algo que tem que ser estudado e decidido por todas as partes interessadas no campeonato”, declarou Costa sobre o tema.

Já Espinosa entende que os estaduais e regionais fazem parte da cultura futebolística nacional: “Toda a rivalidade começa pelos estaduais, isso é uma coisa que nós já temos desde que a bola rolou. Agora, o que tem de fazer é que realmente as coisas sejam bem feitas. Sou a favor de que você faça algumas mudanças. Isso aí pode ser estudado e modificado, agora, sou contra acabar. Eu acho que o regional é uma coisa que identifica muito a rivalidade do torcedor. Jogar um Grenal pelo Campeonato Brasileiro é uma coisa, jogar um Grenal pelo Campeonato Gaúcho, decidindo o título, é outra coisa completamente diferente”.

O técnico campeão da Libertadores e do Mundial com o Grêmio em 1983 também condena quem utiliza o excesso de partidas para tirar o foco de planejamentos mal feitos: “Vamos parar com as desculpas? Querem o que? Que se jogue uma vez por mês? Que se tenha um campeonato por ano?”. Mesmo com mudanças como a transformação do Brasileirão em pontos corridos, a partir de 2003, a quantidade de jogos das equipes nacionais continuou grande em comparação aos clubes europeus. Eduardo Costa defende uma adequação ao calendário europeu: “Acredito que seria interessante, sim, pois os prejuízos técnicos nos times brasileiros, que acontecem no meio do ano, seriam menores. Se a temporada daqui seguisse a de lá, os clubes europeus contratariam os jogadores brasileiros e os clubes daqui teriam a pré-temporada para se organizar e buscar suas reposições”.

Opiniões divergentes sobre esse tema são comuns, e os interesses que existem dentro e nos bastidores do futebol acabam por se tornar obstáculos para que alterações mais profundas sejam feitas. Jogadores, clubes, televisões, patrocinadores e torcedores seriam afetados diretamente por transformações mais radicais. Talvez seja exatamente por isso que mesmo após tantos anos de polêmicas, o futebol brasileiro continue na liderança no quesito calendário inchado e excesso de jogos. E não há perspectiva de mudanças tão cedo.

Leia mais:
– Em coma há um ano, jogador do Ajax dá sinais de recuperação
– Queda de investimentos põe o futuro do vôlei em xeque
– Foto de torcedores ‘olhando’ para Messi viraliza

Na área com Nicola – Paquetá terá seu contrato renovado no Fla

1 Reações

Leia também