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O foco da queda de Loss. Entenda os problemas ofensivos do Corinthians

Colaboradores Yahoo Esportes
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Por Rodrigo Coutinho – @RodrigoCout

Símbolo da organização defensiva nos últimos anos no futebol brasileiro, o Corinthians de três títulos nas últimas duas temporadas não tinha só isso como mérito. No Brasileirão 2017 teve o quarto melhor ataque em número de gols, por exemplo, mas em 2018, já sob o comando de Osmar Loss, as coisas não fluiram ofensivamente para o Timão. Problemas coletivos? Elenco fragilizado? Mudanças em peças importantes da equipe? Mergulhamos nos comportamentos do alvinegro paulista com a bola para detalhar o que não deu certo.

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amos mergulhar nos problemas ofensivos do Timão (Foto: Reprodução)

Os números como base não deixam mentir. O Corinthians, mesmo sendo o sexto time que mais fica com a bola no Brasileirão, é o 10º em média de gols marcados, além de ser a terceira equipe que menos pisa na área adversária, a frente apenas de Ceará e Paraná. Temos então um claro diagnóstico de falta de profundidade, mas por quê isso acontece? Como em tudo num esporte altamente complexo como o futebol, nada pode ser explicado de forma simplória. Um somatório de fatores levou o Timão a este rendimento ofensivo desde que Loss assumiu em maio.

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Antes de mais nada cabe ressaltar o preparo do treinador para assumir o cargo. A diretoria corintiana não errou em ”oportunizar” o gaucho de 43 anos, natural de Passo Fundo. Antes de ingressar na comissão técnica do profissional do clube como auxiliar em 2017, foram 23 anos trabalhando no futebol de base de Internacional, Fluminense, Desportivo Brasil e no próprio Corinthians. O comandante se firmou no mercado da base brasileira como referência e montou diversas equipes campeãs e competitivas, revelou muitos atletas neste período. Seus times sempre combinaram um jogo ofensivo eficaz e segurança defensiva. Era o substituto natural de Fabio Carille, que aceitou proposta do futebol árabe há quatro meses.

Desempenho bem ruim teve o Corinthians nos 22 jogos comandados por Osmar Loss

Por mais que Osmar Loss não seja o técnico bicampeão paulista e campeão brasileiro de 2017, a oportunidade representou a continuidade de uma filosofia de jogo. Algo que deveria ser seguido pela maioria dos clubes brasileiros. Em termos conceituais, o Corinthians de Loss não tinha diferenças consideráveis em comparação ao de Fabio Carille. Em termos de execução, sim! Mas isso seria uma falha do demitido treinador? Não necessariamente. Por mais que tenha cometido erros, o ex-técnico do Timão trabalhou para manter padrões e evoluir a equipe.

Origem dos gols do Corinthians sob o comando de Osmar Loss

Cabe ressaltar aqui que, ainda com Carille, o Corinthians já vinha passando por problemas similares. Eles começaram após a saída de Jô para o futebol japonês e a falta de uma reposição a altura. A alternativa do ”4-2-4” foi encontrada com Rodriguinho e Jadson como ”falsos 9´s”, mas o que aconteceu? Rodriguinho foi outro a sair. E com ele, Maycon e Sidcley, outros nomes importantíssimos no contexto ofensivo do time. Tem como passar por essas intempéries sem sofrer? As reposições (Danilo Avelar, Araos, Douglas, Jonathas, Roger, Sérgio Diaz) ou não estão prontas o suficiente, ou ainda estão em processo de adaptação ao clube. Há também casos de atletas com características e nível técnico bem diferentes, como na lateral-esquerda e no centro do campo.

De dez índices que refletem eficiência ofensiva, Sidcley leva vantagem em oito contra Danilo Avelar

– A dependência de Jadson

Jadson conseguiu recuperar rendimento com a camisa do Corinthians e atualmente é o jogador mais adaptado a realidade do clube entre os atletas com perfil mais criativo no elenco. Araos chegou há pouco tempo e Mateus Vital, por mais que tenha mais meses de Timão, segue seu processo natural de evolução como jogador profissional. Geralmente recai sobre o camisa 10 a responsabilidade de verticalizar o passe e fazer o time progredir em campo. Isso era algo bem dividido com Maycon, que também exercia muito bem as conduções de bola e fazia ótimas infiltrações, mas o camisa 8 foi vendido Shakhtar. Douglas vem sendo o titular do setor, mas não está no mesmo nível do antigo dono da função, apesar de ter potencial.

Com isso, não é incomum Jadson recuar alguns metros e pegar a bola na linha dos volantes para iniciar as jogadas. Por mais que haja a compensação de Romero ou Pedrinho flutuando para o centro e Fágner ocupando o flanco direito, o paraguaio tem dificuldade em dominar de costas na região central do campo. Possui a tendência de acelerar as jogadas e carregar a bola, fica fora do seu ”habitat natural” e erra demais por ali. Já o jovem tem mais potencial, mas sofre com o jogo físico mais forte, como o de costume no centro do campo. Gabriel poderia acrescentar mais ofensivamente, mas tem sido bastante burocrático, o que obriga Jadson a voltar. Ralf não tem essa capacidade e Renê Júnior vem sofrendo com lesões. Loss chegou a tentar Araos mais recuado, mas a oscilação do jovem chileno não dá ”corpo” ao time ao longo dos 90 minutos, ainda precisa se adaptar.

Jadson foi a peça mais decisiva do time com Osmar Loss no comando

Triangulações pelos lados e o ponta do lado contrário gerando superioridade

 

Marca ainda da ”Era Tite” no Corinthians, as triangulações seguem sendo utilizadas como principal via de criação e entrada no terço final do campo. Elas sempre envolvem o lateral e o ponto do setor da jogada. Eles recebem a companhia de Jadson(direita) ou Douglas(esquerda), variando de acordo com o lado. Algo que vem acontecendo bastante é a movimentação do ponta do setor contrário atravessando o campo e se somando ao lado da jogada. A medida visa gerar superioridade numérica no setor da bola e mais uma opção de passe para progredir. A questão é que na maioria das vezes o lance não segue por ali, há a inversão para o lateral no flanco contrário e o cruzamento para a área.

A grosso modo, o Corinthians muitas vezes leva vantagem e superioridade por um lado do campo, mas tira a bola do setor no momento de entrada no terço final, o que acaba fazendo o time perder profundidade, principalmente pelos muitos erros de passe nesta região do campo. Aí entra também a precipitação gerada pela confiança abalada, fruto da pressão por mais rendimento e resultados. Problemas de ordem tática, técnica e psicológica.

 

Ligação direta em diagonal como opção

 

Uma alternativa utilizada pelo Corinthians para chegar mais rápido ao terço final do campo é a ligação direta. Logicamente que ela é feita em menor escala, mas também é uma ferramenta. Não se trata de lançar a esmo para o ataque, mas sim buscar alvos fortes no jogo aéreo e ganhar a ”segunda bola” nos últimos metros da cancha. No lado direito, Romero é o alvo. No lado esquerdo, Danilo Avelar. Quando jogam, Roger ou Jonathas fazem este papel pela região central. O problema tem sido ganhar a segunda bola.

 

Sabe-se que para esse tipo de jogada dar de fato certo, é preciso aproximação entre as peças num segundo momento e imposição física para vencer os duelos individuais que costumam surgir com a ”bola viva”. A aproximação é bem feita, mas a imposição não é o forte. Clayson, Pedrinho, Sheik, Jadson e Mateus Vital não oferecem isso e muitas vezes perdem a ”segunda bola” nos embates físicos. Quando consegue se estabelecer no ataque desta forma, a dinâmica de mudar o lado da jogada no terço final não muda.

– Posse estéril, referência improdutiva e descoordenação nos movimentos no terço final

Quando ao adversário recua o bloco de marcação, não é raro ver o Corinthians tentando controlar o jogo através da posse. Isso não é novo. Com Carille já era assim. No Brasileirão do ano passado era o sétimo com mais posse. Em 2018 é o sexto. A diferença porém fica clara no número de toques na bola na área rival. No título do ano passado era a segunda equipe que mais conseguia ter a bola nesta faixa. Nesta temporada é o terceiro que menos consegue. Uma queda vertiginosa.

Isso se explica muito por um jogador: Jô. Para muitos o melhor atleta do Brasileirão 2017, não está mais no Corinthians e a reposição não foi a altura. Roger não tem o mesmo potencial e, por mais que não seja um atacante desprezível, está abaixo tecnicamente e fisicamente do artilheiro do campeonato passado. O time sente isso. As bolas no pivô, tão utilizadas antes, passaram a não surtir efeito, e alternativas tiveram que ser criadas. Alternativas, porém, prejudicadas após as saídas de Rodriguinho e Maycon, como já citado. Resumindo, o time perdeu poder de infiltração e presença de área. Combinação fatal e que contextualiza o dado acima.

O cenário mexeu consideravelmente nos mecanismos coletivos para atacar. Novamente a pressão e o rendimento abaixo geram precipitação. De novo, problemas técnicos, táticos e psicológicos. Douglas até tem potencial de infiltração, mas ainda se adapta ao clube e está bem abaixo de Maycon. A torcida pede bastante por uma chance ao jovem Matheus Matias, que era artilheiro no ABC/RN e tem apenas 20 anos. A realidade no Timão, porém, é muito mais dura. Isso sem contar a necessidade do desenvolvimento técnico e tático já detectados pela comissão do clube.

(Foto: Reprodução)

Conclusão

Não tem jeito! O futebol é sistêmico e complexo! Como vimos acima, um somatório de fatores se encontram e respondem perguntas que não parecem tão fáceis no calor do jogo e das emoções, mas o que acontece com o Corinthians hoje é algo muito comum na realidade do futebol brasileiro. A perda de peças com a temporada em curso, as falhas de planejamento e contratações equivocadas, e a pressão excessiva da mídia e da torcida, compõem um perigoso combo que alimenta o ciclo vicioso por aqui. A máquina de moer técnicos é nociva por não saber avaliar trabalhos e respeitar os processos naturais de formação de uma equipe e desenvolvimento de jogadores. O Corinthians não é o único a sofrer disso em solo brasileiro. Todo o contexto de calendário ruim, amadorismo nas gestões de clubes e instituições, e pobreza na avaliação do jogo, potencializam esta realidade.

 

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