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Dez anos após ouro em Pequim, Cielo relembra tensão no dia da final

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Cielo comemora com a bandeira e a medalha de ouro em 2008(PEDRO UGARTE/AFP/Getty Images)

Por Vítor Dalseno

16 de agosto de 2008, Vila Olímpica de Pequim, China. O alarme toca por volta das 7 horas. César Cielo levanta da cama, toma o café da manhã e começa a se aprontar para ir ao parque aquático da capital chinesa, conhecido como Cubo d’Água. Mesmo tentando seguir a rotina habitual, o nadador recebe sinais claros, do próprio corpo, de que aquele seria um dia especial: irritadiço e arredio, sente o estômago gelado, rosto e mãos formigando. A tensão permanece até poucos instantes antes de cair na piscina, estabelecer o recorde das Olimpíadas nos 50m livres (21s30) e se tornar o primeiro brasileiro a conquistar uma medalha de ouro na natação olímpica.

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“Mesmo estando nervoso, eu me sentia no controle, estava consciente. Gosto muito da forma como conduzi as coisas. Consegui me deixar em uma situação em que pensava só na execução da prova. Não pensava que era uma final olímpica, ou que podia ser o primeiro ouro do Brasil [na natação]”, recorda Cielo, uma década após o feito histórico.

A conquista inédita começou a se desenhar dois dias antes, quando o atleta nascido em Santa Bárbara d’Oeste, interior paulista, nadou a final dos 100m livres. O resultado das semifinais e o posicionamento do brasileiro em uma das piores raias, a oito, condicionavam um lugar no pódio a um pequeno milagre. E Cielo conseguiu. Empatou com o norte-americano Jason Lezak na terceira posição, cravou o recorde sul-americano (47s67) e garantiu o bronze.

“Até a final dos 100m livres, eu estava abaixo de muita gente em termos de performance. Quando cravei aqueles 47s67, minha mentalidade mudou totalmente, e passei a pensar: ‘alguns estão melhores que eu, mas quando a gente mudar de duas piscinas para uma só, eu me coloco do lado dos caras. Mudei completamente, de um cara que não sabia o que ia acontecer, para alguém com toda a certeza de que ganharia os 50m livres”, conta.

Na cerimônia de premiação, Cielo barrou a emoção, mas só por alguns segundos. Conteve-se ao ouvir seu nome anunciado pelo locutor antes de subir ao lugar mais alto do pódio, mas desabou em choro convulsivo quando viu, ao som do hino nacional, a bandeira do Brasil sendo hasteada. Gustavo Borges, nadador brasileiro recordista de medalhas (quatro) na história dos Jogos Olímpicos, deixou a cabine de transmissão da emissora para a qual comentava a Olimpíada de Pequim e correu ao encontro do campeão.

“Fiquei bastante emocionado. Não falamos nada naquele momento, eu só o abracei e, então, percebi que estava no lugar errado (risos). Fiquei até meio sem jeito, porque tive de pular uma grade para entrar, e depois ‘repular’ para voltar à cabine”, lembra o ex-atleta, para quem Cielo está um nível acima dele. “Os recordes [mundiais] que ele tem, nos 50m (20s91) e 100m (46s91) livres, são impressionantes, e vieram com títulos mundiais, o que não tenho em piscina longa”.

Quando questionado se é o melhor nadador brasileiro de todos os tempos, por ser o único campeão olímpico, além de deter 11 ouros em Mundiais, Cielo faz questão de citar o próprio Borges. “Cada um passa por sua geração e deixa seu marco. Olho para o Gustavo e vejo um cara do mesmo nível que o meu. Se pegar o histórico de medalhas [olímpicas] dele, várias foram a centésimos do ouro. Ao sair de Pequim, não pensei ser o maior do Brasil, mas sim que tinha conquistado meu sonho”.

Cielo chorou na piscina após conquista (Shaun Botterill/Getty Images)

O que o Brasil ainda pode esperar de Cielo?

Aos 31 anos de idade, Cielo diz sofrer de “insatisfação eterna” ao fazer um balanço da vida profissional, talvez por não ter conseguido repetir o ouro nos 50m livres na Olimpíada de Londres, em 2012, e pela não-classificação aos Jogos do Rio, quatro anos mais tarde. No geral, contudo, considera-se “em paz com a carreira”, neste momento muito mais voltada ao apoio às novas gerações em detrimento da busca por novas conquistas pessoais. Por esse motivo, o nadador se vê distante da Olimpíada de 2020, em Tóquio.

“Não faz parte dos meus objetivos hoje. Enquanto estiver na piscina, vou seguir fazendo meus 120%, só não sei até quando isso vai durar. De certa forma, entendi que posso ajudar mais fora da água, principalmente pelo momento bem ruim pelo qual passa a natação brasileira”, diz, fazendo menção às suspeitas de corrupção na CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), cujo ex-presidente Coaracy Nunes e os ex-diretores Sérgio Alvarenga, Ricardo Moura e Ricardo Cabral foram presos – e três meses depois, soltos.

“Não sei o quanto os episódios ocorridos no passado estão atrapalhando a gente hoje. Apoiamos essa chapa (encabeçada pelo atual mandatário da entidade, Miguel Carlos Cagnoni) para sentir a evolução do esporte. Estamos esperando mudanças que até agora não vieram. Se continuar assim, teremos cada vez menos nadadores na piscina e menos clubes investindo na natação”, reclama.

Apesar de todas as dificuldades, que ainda incluem redução maciça das verbas de patrocínio à CBDA, o atleta está otimista em relação aos Jogos de Tóquio. Além de ver Bruno Fratus em boas condições de brigar por medalha nos 50m livres, coloca Etiene Medeiros como postulante ao pódio nos 50m costas e aposta todas as fichas no revezamento 4x100m masculino, prata no Mundial do ano passado (com Cielo na equipe) e ouro no Pan-Pacífico, há poucos dias.

No fim deste mês, o campeão olímpico compete no Troféu José Finkel, que definirá os representantes do Brasil no Mundial de Piscina Curta, a ser disputado na China, em dezembro. “Minha ideia é nadar os revezamentos e tentar a vaga nos 50m livres. Mas vou esperar o Finkel chegar, ver os tempos que saem e tomar as decisões sobre em quais provas entrar. Se vir que tenho possibilidade nos 100m livres, também vou para cima”.

Segundo Cielo, a decisão de seguir nadando profissionalmente em 2019 não dependerá tanto dos resultados nas competições que se aproximam, mas sim do prazer em manter a rotina de treinos e participar ativamente do processo de transição da natação brasileira. “Enquanto eu sentir que sou importante para o grupo, pretendo fazer o máximo para ajudar. Que essa nova geração nos traga grandes resultados, sem um gap tão grande em comparação à minha geração e do Thiago [Pereira, prata nos 400m medley na Olimpíada de Londres]”.

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