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Como a política do Santos virou um ‘House of Cards’

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José Carlos Peres na apresentação dos uniformes do Santos em 2018 (FERNANDO DANTAS/Gazeta Press)

Por Sandro Biaggi

Em segundo, algumas vezes. Na segunda, jamais.

Volta e meia a Torcida Jovem, a maior torcida organizada do Santos, abre a faixa com a frase acima. Poderia até ser vista como uma brincadeira. Mas não é. É um desafio. Ao contrário de Palmeiras, Corinthians (estes com certeza) e o São Paulo (neste caso, um rebaixamento bastante discutível e contestado no Campeonato Paulista), o Santos jamais esteve na segunda divisão estadual ou nacional.

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A faixa corre risco porque o clube alvinegro vive um caos financeiro, administrativo e político que se reflete em campo. Após 18 partidas e a uma rodada do final do primeiro turno, o Santos ocupa a 17a colocação. Está dentro da zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro.

“Eu não posso responder pela administração porque não sou ouvido. Não tenho participação nenhuma”, se queixa o vice-presidente Orlando Rollo, que assumiria a presidência em caso de impeachment do mandatário, José Carlos Peres.

Ele rompeu com o presidente em fevereiro, pouco mais de dois meses após ter tomado posse.  Peres tem adversários não apenas na oposição, mas inimigos dentro de sua administração, o que transforma a Vila Belmiro em uma espécie de versão brasileira no futebol de House of Cards.

O pedido de impeachment é baseado na acusação de que Peres é sócio de empresa que tem, entre suas finalidades, agenciar jogadores, o que é proibido pelo estatuto do clube. O cartola rebate dizendo que a companhia apenas existe no papel. Nunca foi colocada em prática e sequer emitiu uma nota fiscal. Mas como em outros processos de impeachment, no futebol e na política, o julgamento será político.

Um de seus sócios na empresa é Ricardo Crivelli, o Lica, contratado por Peres para coordenar as categorias de base no Santos. Investigação da Polícia Civil tenta determinar se a denúncia de um jogador das categorias de base de que teria sido abusado sexualmente por Lica quando tinha 11 anos é verdade ou não.

A Comissão de Inquérito e Sindicância julgou que o pedido de impedimento tem elementos para ser encaminhado para o conselho deliberativo. Na última semana, Peres conseguiu uma liminar para barrar a reunião extraordinária que analisaria o caso, marcada para o próximo dia 30. Ele alega não ter tido acesso a toda a documentação para produzir sua defesa.

Eleito no final do ano passado, Peres chegou ao cargo com frases de efeito. Prometeu que não contrataria um “técnico retranqueiro”, que a Rede Globo transmitiria mais partidas ao vivo do Santos em TV aberta e disse que faria um “choque de gestão” no clube.

A primeira promessa caiu por terra com a contratação de Jair Ventura como técnico. Ele não apenas foi incapaz de dar padrão de jogo à equipe como usou sempre um esquema tático defensivo, apoiado na velocidade do contra-ataque. As contratações pedidas pelo treinador e oferecidas por dirigentes patinaram na indecisão do presidente e do Comitê de Gestão, órgão administrativo composto por oito integrantes que deve aprovar ou não as decisões do Executivo.

“Por lentidão ou vacilo, o Santos perdeu a chance de contratar uma série de reforços. Paulo Henrique Ganso, Robinho e Nenê foram três deles”, disse ao Yahoo Esportes um empresário com influência na diretoria santista.

Por causa da indecisão, o nome escolhido para comandar o futebol profissional, Gustavo Vieira, durou apenas 20 dias como gerente de futebol.

“É impossível trabalhar no Santos. Eles não se entendem”, se queixou.

No seu lugar, chegou William Machado, que chegou e saiu sem ser notado. O cargo hoje é ocupado por Ricardo Gomes que, após a saída de Jair Ventura, venceu queda de braço com conselheiros que queriam fazer de Vanderlei Luxemburgo o novo técnico. Conseguiu emplacar Cuca com a ameaça de que se Luxemburgo entrasse por uma porta, ele sairia pela outra.

Peres e o executivo de futebol Ricardo Gomes (GUILHERME DIONIZIO/Gazeta Press)

O comportamento errático de José Carlos Peres deixa aturdido até apoiadores de longa data, gente que o acompanha desde que criou a ONG Santos Vivo, em 2001, para tentar ajudar o clube.

“É impossível combinar qualquer coisa com ele. Muda de ideia a cada cinco minutos. Tornou-se uma pessoa muito influenciável”, afirma um conselheiro santista.

Quando demitiu Jair Ventura, em julho, o Santos já havia acertado a contratação do uruguaio Carlos Sánchez, do paraguaio Derlis González e do costarriquenho Bryan Ruiz. Cuca se mostra reticente com os três estrangeiros. O clube também estava em vias de contratar o atacante argentino Marco Ruben. O treinador brecou a negociação e indicou Junior Brandão, do Atlético-GO, para o lugar.

São dez jogos sem vitória. O último resultado positivo foi em 13 de junho, pelo Brasileiro, contra o Fluminense.

Em uma encruzilhada, Peres não morre de amores pela possibilidade de ter Junior Brandão vestindo a camisa 9 do Santos, mas não quer ir contra o desejo do treinador contratado para tirar a equipe do buraco. Após perder em casa, o Santos precisa reverter o resultado em Belo Horizonte diante do Cruzeiro para continuar vivo na Copa do Brasil. Na Libertadores, enfrenta o Independiente (ARG), pelas oitavas de final.

Mas o drama maior parece ser a situação no Brasileiro.

“Estamos todos preocupados. O Cuca chegou agora e temos confiança de que isso (a colocação na tabela) vai mudar”, afirma Peres.

Pressionado pela oposição e pelos resultados em campo, o presidente também herdou uma situação financeira caótica, com dívidas acumuladas e contas bancárias zeradas, herança da administração anterior, comandada por Modesto Roma Júnior. Um dos motivos para o clube ter assinado, no início deste ano, renovação com a Rede Globo em TV aberta e pay-per-view para o Brasileiro a partir de 2019 foi a oferta de antecipação e luvas feita pela emissora.

“Nós precisamos desesperadamente deste dinheiro para ganhar fôlego”, disse Peres a conselheiros.

A última vez que o Santos teve um presidente derrubado por um impeachment foi em 1994, quando Miguel Kodja Neto caiu após comandar um evento de telebingo usando a marca do clube em que os prêmios, os principais eram automóveis zero quilômetros, não foram entregues aos ganhadores.

Então impedimento de presidente não é inédito na Vila Belmiro. Mas rebaixamento, sim.

Na área com Nicola – Peixe gasta demais com comissões


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