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Clubes apostam em ex-jogadores e ídolos dos gramados para atuar na gestão do futebol

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Raí durante a apresentação de Bruno Peres (SERGIO BARZAGHI/Gazeta Press)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

Cada vez mais os clubes brasileiros têm apostado em ex-jogadores para formar parte do conjunto técnico e diretivo das equipes de futebol. E se antes eles apenas faziam a ponte entre elenco e diretoria, atualmente a participação tem crescido no campo da gestão. Um dos casos de sucesso mais recentes é o de Edu Gaspar, hoje na Seleção Brasileira, cuja dobradinha com Tite começou no Corinthians, campeão mundial de clubes em 2012. Hoje quem segue em seu lugar é o ex-lateral Alessandro Nunes.

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No Santos, o ex-jogador e ex-treinador Ricardo Gomes chegou há pouco para ser o executivo de futebol do clube, enquanto que o ex-zagueiro William Machado deixou recentemente o cargo de gerente que ocupava desde o começo do ano. No Flamengo, Mozer exerce a figura de gerente de futebol. E desde o fim do ano passado, o ex-zagueiro Marcelo Djian e Gallo estão nas direções de Cruzeiro e Atlético-MG, respectivamente.

Mas pode-se dizer que o caso mais emblemático atualmente é o do São Paulo, que entregou o comando do departamento de futebol a um ídolo dentro das quatro linhas. Raí, um dos principais jogadores da história tricolor, é o executivo de futebol do clube desde o final de 2017, em um cargo remunerado e cercado de cobranças, afinal, a torcida vive uma carência de títulos, que deixa o ambiente sempre à beira de uma crise.

Raí trouxe Ricardo Rocha para a fazer a conexão entre jogadores, comissão técnica e direção. E ainda tem o Lugano, que se aposentou recentemente e ganhou um cargo mais institucional, com menos influência no dia a dia do futebol, assim como Zé Roberto no Palmeiras, que também encerrou a carreira e virou assessor do departamento de futebol alviverde.

Essa não é a primeira vez que Raí participa da gestão do clube. Em 2002 ele permaneceu apenas três meses como coordenador da equipe. Em sua primeira entrevista como executivo de futebol, Raí admitiu o peso do desafio de alcançar sucesso similar que obteve no campo, mas se mostrou confiante de devolver o clube ao caminho das vitórias e evitar, por exemplo, o que ocorreu com Rogério Ceni, que acabou demitido como técnico poucos meses após assumir o time.

“É claro que isso pesa. Mas estou confiante. Em todas as iniciativas que entrei desde quando comecei a jogar futebol até quando passei a realizar outras atividades, são todos novos desafios que eu decidi encarar. Sei dos riscos e aqui o que mais vai importar é o São Paulo. Sei da minha capacidade e sei do que posso agregar para que o futuro seja vitorioso”, falou à época.

O ex-meio-campista César Sampaio, hoje comentarista dos canais ESPN e da rádio Capital, já participou de cargos de gestão em clubes como o Palmeiras, Joinville, Fortaleza, Rio Claro e Mogi Mirim. Ele avalia como positiva a participação de Raí à frente do São Paulo.

“Vejo com bons olhos. Normalmente depende da nomenclatura e do cargo, porque o que a gente vê em alguns clubes é que o ex-jogador atua mais como uma interface entre comissão técnica e a parte institucional estatutária, ou seja, tem pouca autonomia. Já no caso do Raí é diferente, ele é um diretor executivo, o São Paulo mudou o estatuto e já reconhece esse profissional dentro de um organograma, com direitos e deveres, metas, em um trabalho mais fácil de ser avaliado. Entendo que é por aí”, considera.

Identificação com o clube pode ser benéfica se a pessoa for qualificada

Essa história não é exatamente nova e há vários exemplos de tentativas de se colocar grandes craques em campo para contribuir com sua experiência fora dele. Maior ídolo do Vasco, Roberto Dinamite foi presidente do clube entre 2008 e 2014, mas enfrentou rebaixamentos e problemas internos que afetaram sua imagem. Em 2010, Zico durou apenas 120 dias como diretor executivo do Flamengo.

Um dos grandes nomes da história dos Corinthians, Roberto Rivellino ficou seis meses como diretor técnico do clube, entre 2003 e 2004. Os maus resultados, as dificuldades financeiras e o estresse causado pelo cargo – o ex-jogador chegou a fumar três maços de cigarros por dia, segundo reportagens da época – o fizeram deixar o posto.

Há casos atuais, em que o ex-atleta é o responsável pelo clube, como Juninho Paulista, que arrendou o Ituano e é gestor do clube paulista desde 2009. Já o ex-volante Vampeta se tornou presidente do Grêmio Osasco Audax.

César Sampaio, ídolo palmeirense dos anos 1990, viveu experiência semelhante, como gerente de futebol do Alviverde entre novembro de 2011 e janeiro de 2013. Em 2012, foi campeão da Copa do Brasil e rebaixado no Brasileiro, em um momento de muita turbulência. Ele observa que a identificação com o clube pode ajudar o ídolo a se firmar, mas faz uma ressalva: é preciso se qualificar.

“Essa identificação pode ser positiva, mas em outras situações é prejudicial, porque vai exigir do profissional algo que ele não tem, ou seja, se é um ídolo você vai criar uma imagem do cara que foi bom pra caramba jogando e acha que ele vai ser bom pra caramba administrando e nem sempre isso acontece, pois são condições totalmente distintas. Mas se o ex-jogador for qualificado é legal para o clube porque a pessoa tem aquela veia da instituição e a identificação e o amor pelo clube podem ajudar muito, até em termos de marketing e em outras frentes”, afirma.

Uli Hoeness e Karl-Heinz Rummenigge (Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images)

Europa tem cenário mais propício para a inclusão de ídolos na gestão

Na Europa, essa dobradinha é bem vista pelos clubes. O Bayern de Munique teve como presidente o craque Franz Beckenbauer e hoje tem como CEO Karl-Heinz Rummenigge, além do presidente Uli Hoeness, ambos campeões pelo time bávaro como jogadores. Outro exemplo de ex-jogador de sucesso é do ex-goleiro Andoni Zubizarreta, que, após ser dirigente do Barcelona por cinco anos, assumiu a direção esportiva do Olympique de Marselha há um ano e meio e tem sido o responsável pelo renascimento da equipe francesa.

Há também a história de Leonardo, que circulou bem pela Europa. O ex-jogador trabalhou por anos no Milan, além de uma positiva passagem pela gestão do Paris Saint-Germain, interrompida em 2013 após ter sido suspenso, acusado de ter empurrado um árbitro. E mesmo assim acabou voltando para o clube nesta temporada. Mais recentemente, o ídolo da Roma Totti deixou os gramados e assumiu um cargo diretivo na agremiação italiana.

Com experiência de ter jogado na Espanha e no Japão, César Sampaio enxerga maior facilidade de adaptação do ex-atleta nesses postos, devido ao ambiente mais profissional e empresarial que existe fora do Brasil.

“Geralmente tem um CEO que tem que ter determinadas competências de administração, noções de business, não necessariamente no futebol. E quando um ex-atleta assume como dirigente, ele tem muito claro os papéis que ele tem que representar. Na maioria são funções técnicas, de representação direta da comissão técnica para o presidente. Em geral é uma função mais desportiva, enquanto que há outros profissionais que fazem a composição mais empresarial”, explica.

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